Queda da Selic e pressão por juro menor ampliam desafios para bancos na pandemia

Queda da Selic e pressão por juro menor ampliam desafios para bancos na pandemia

Cynthia Decloedt e Fernanda Guimarães

20 de agosto de 2020 | 16h03

Os últimos meses do novo contexto de pandemia trouxeram uma cesta de desafios para o setor bancário brasileiro que promete comprimir a rentabilidade das instituições por mais de um ano. Além de terem de operacionalizar rapidamente um novo universo de trabalho, com a implementação do home office, e de acelerar processos de digitalização de serviços aos seus clientes, os bancos ficaram diante da perspectiva de uma avalanche de inadimplência e, ao mesmo tempo, lidando com milhares de renegociações de dívidas. Paralelamente, a queda da taxa Selic para perto de zero, em termos reais, ampliou a pressão da concorrência em suas receitas com tarifas de serviços bancários, meios de pagamento e gestão de ativos. A receita com serviços vem ganhando espaço no balanço dos bancos em complemento à vinda do crédito, onde o risco é maior e há consumo de capital das instituições.

Recentemente, mais um ingrediente foi adicionado a esta equação, com a chegada do projeto de lei, já aprovado no Senado, que propõe que os juros do cartão de crédito e do cheque especial serão limitados a 30% ao ano. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sinalizou, contudo, que vai engavetar o projeto, mas afirmou que quer que os bancos mostrem “soluções”. Hoje, durante congresso do Santander, Maia reiterou ser preciso que haja essa discussão, uma vez que se trata de uma demanda da sociedade frente a taxas impagáveis, citando o cheque especial. A “pauta bomba” para o setor tem refletido no desempenho das ações na B3. A ação do Bradesco acumula queda de 36% em 2020; Itaú cai 32% no ano e Santander 38%. O Banco do Brasil tem perdas de 37%.

“O desafio é maior do ponto de vista de rentabilidade do que de inadimplência para os grandes bancos”, destaca a analista sênior de instituições financeiras da agência de classificação de riscos Moody’s, Ceres Lisboa, ao Broadcast. Segundo ela, existe uma forte corrente no governo e na sociedade para derrubar os spreads bancários – diferença entre o custo de captação dos bancos e o cobrado dos clientes. “Os bancos terão de abrir mão de algumas receitas relacionadas a tarifas”, diz Lisboa, lembrando que a dinâmica da rentabilidade não está só relacionadas à pandemia, mas ao redimensionamento de resultados de algumas linhas de negócios, como meios de pagamento e gestão de ativos.


Receita de Intermediação Financeira trimestral em R$ Milhões
Consolidado (Bco do Brasil, Bradesco, ItauUnibanco e Santander)
Fonte: Economatica

O diretor sênior de instituições financeiras da Fitch Ratings para América Latina, Claudio Gallina, lembra que além da concorrência, as receitas com prestação de serviços sofrem impacto da própria crise, com a população segurando seus gastos. No entanto, ele vê tal diminuição parcialmente compensada pelos custos de captação bancária, que caíram com os juros mais baixos.

Além disso, Gallina aposta que com o já observado aquecimento do mercado de capitais, nos segmentos de ações, fusões e aquisições e dívida, as áreas de bancos de investimentos das grandes instituições devem ganhar maior destaque nos balanços e representatividade nas receitas. As empresas que antes buscavam crédito bancário passaram a acessar o mercado de capitais, o que é facilmente notado na movimentação, por exemplo, das ofertas de ações na bolsa brasileira mesmo em meio à pandemia.

Contudo, para o analista de bancos do Citi, Jörg Friedemann, não se deve esperar uma recuperação da rentabilidade dos bancos aos níveis de 2019, entre 17% e 18% antes do final de 2022. Para o ano que vem, ele espera uma rentabilidade superior a 2020, já que os bancos voltarão a distribuir dividendos e a base de calculo do retorno, que é o patrimônio líquido, cai.

Friedemann também diz que embora o peso das provisões tenda a diminuir ao longo do tempo em 2021, as receitas continuarão sendo atacadas pela concorrência e o efeito positivo de cortes nos custos feitos na pandemia diminuirão. “Os bancos já têm escala e vão ter de seguir capturando ganhos de eficiência e se adaptar ao fato de que o diferencial estará na qualidade de serviço e não simplesmente no preço”, afirma.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 18/08/2020 às 18:55.

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