Rejeição ao plástico cria ‘avenida’ de novos negócios para a indústria de papel

Rejeição ao plástico cria ‘avenida’ de novos negócios para a indústria de papel

Fabiana Holtz

29 de novembro de 2019 | 15h57

Klabin/Divulgação

Por Fabiana Holtz

O crescimento do consumo de papel e papelão pelo comércio eletrônico e pela China têm levado a indústria de papel e celulose a ver boas perspectivas no horizonte. Um dos negócios mais promissores para essa área, porém, veio da uma frente incomum: a busca pelo consumo consciente, com a substituição de produtos de plástico pelos de papel.

Além dos banidos canudos, outros produtos de plástico descartados após um único uso (como pratos, copos, talheres, canudos e mexedores de bebidas, conhecidos como single-use plastics) têm sido trocados por versões biodegradáveis. Empresas como Suzano e Klabin conseguiram antever o movimento, investiram na área e têm tido bons resultados.

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No caso particular da Suzano, o desenvolvimento de uma resina própria que torna o papel 100% biodegradável abriu uma verdadeira “avenida” de novos negócios. Segundo Leonardo Grimaldi, diretor executivo de Papel da maior fabricante de celulose de eucalipto do mundo, a oportunidade é gigantesca. Em seus cálculos, esse mercado pode vir a movimentar em curto espaço de tempo R$ 2 bilhões ao ano. Em 2018, no Brasil o mercado de copos feitos a partir do papel cartão movimentou entre R$ 150 milhões a R$ 170 milhões, considerando toda a cadeia.

“O segmento era dominado por produtos importados quando lançamos o Bluecup, nosso papel cartão especial para copos, um ano e meio atrás. À época, a importação desse tipo de papel chegava a R$ 50 milhões por ano”, diz. Segundo Grimaldi, o produto acabou abrindo uma enorme gama de negócios para a empresa, como o de potes de sorvete e o da área de entrega de fastfood, que rapidamente estão substituindo suas embalagens por material 100% biodegradável, por exemplo.

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Para Daniel Sasson, analista de papel e celulose do Itaú BBA, essa é uma tendência clara que tem ganhado força, principalmente a partir de algumas atitudes práticas de governos e entidades. “Vejo esse movimento avançado com mais força na Europa, onde já tem legislação para banir o uso de itens de plástico como canudos e talheres até 2021. É uma pressão global que agora está se convertendo em ações concretas, mas veremos o impacto disso de forma mais gradual para as empresas do setor”, diz. Para o analista, os produtores de papel para embalagens do Brasil estão bem posicionados nesse contexto, em especial a Klabin, que tem negócios mais concentrados nesse mercado do que a concorrente Suzano.

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No estado de São Paulo, a Assembleia Legislativa aprovou em meados de junho um projeto de lei que proíbe o fornecimento de canudos plásticos em hotéis, bares, restaurantes, padarias, festas e shows. Em setembro, em primeira votação também na Assembleia, foi proibido fornecimento de copos, pratos e talheres de plástico em bares e restaurantes.

Pesquisa e desenvolvimento

Em 2015, a Suzano já vislumbrava o cenário ao anunciar a construção da primeira linha industrial de extração de lignina da América do Sul, em Limeira (SP), com um investimento de R$ 70 milhões. Presente no eucalipto e utilizada pelo setor na produção de energia, essa substância tem potencial para substituir o petróleo na produção de resinas e borrachas.

A Klabin também tem aproveitado o movimento. Flávio Deganutti, diretor de Negócios de Papéis da Klabin, diz que essa é uma agenda sem fim. “Investimos com mais intensidade nos últimos quatro anos para encontrar alternativas aos copos plásticos e de isopor. A substituição de sacolas não é novidade, mas a demanda por caixas e embalagens com barreiras mais sustentáveis (para acondicionar alimentos) pegou muita tração e velocidade nos últimos dois anos”, diz.

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Deganutti afirma que, desde a década de 60, o segmento de embalagens plásticas (single use) cresce entre 5% a 5,5% ao ano em termos globais. “Com a transformação dos hábitos de consumo, uma parte importante desses negócios agora vai em direção a produtos mais sustentáveis”, diz.

‘Frenesi de oportunidades’

A resina usada pela Suzano também começou a ser testada em papeis para catálogos e livros, o que acabou levando ao desenvolvimento do papel para canudo. “Abrimos um novo filão de marcado com o papel para canudo (Loop), mercado que movimenta R$ 200 milhões por ano no Brasil”.

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Depois do lançamento desse produto, a Suzano foi procurada para que desenvolvesse uma solução que substitua a haste de plástico dos cotonetes. “As oportunidades vão brotando. É quase um frenesi de oportunidades que vão surgindo, sem que consigamos sequer quantificar tudo isso”, diz.

No momento, a Suzano tem trabalhado no desenvolvimento de produtos que venham a substituir não apenas embalagens de alimentos, mas saquinhos, bolsas, etc. “Para cada tipo de uso, essa resina precisa ser reformulada”, diz.

Ciente da relevância e rapidez dessa mudança de comportamento, a Suzano tem destinado, com a Fibria, 1% do faturamento líquido para a área de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. “Estamos evoluindo de forma muito rápida e essas soluções estão brotando nesse ritmo por conta desse investimento”, afirma.

A Klabin, por sua vez, desenvolve cinco linhas de pesquisa em seu Centro de Tecnologia inaugurado em junho de 2017, em Telêmaco Borba, no Paraná. Seus pesquisadores têm trabalhado no desenvolvimento de novos produtos e aplicações da celulose; qualidade da madeira; desenvolvimento de novos produtos e aplicações de papéis para embalagem; novas rotas tecnológicas com base florestal; e meio ambiente e sustentabilidade.

A indústria brasileira de papel tem crescido na média de 2% ao ano. Com a migração do plástico para o papel, Deganutti, da Klabin, calcula que o segmento de papel deva passar a crescer em torno de 3% ao ano. Entre outros mercados em potencial, o executivo aponta ainda para a indústria de rótulos de plástico, para o qual a Klabin tem desenvolvido um papel mais fino, que pode ser utilizado em garrafas, copos, além de toda uma gama de embalagens para iogurtes, apenas para citar alguns exemplos.

Parque Piloto, Melodea e Puma II

O parque de Plantas Piloto da Klabin, anunciado no ano passado que prevê a construção de duas fábricas para produção em escala industrial de celulose microfibrilada e lignina, está em fase final de testes.

Para fortalecer sua frente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, a Klabin também adquiriu 12,5% da startup israelense Melodea Bio Based Solutions, pioneira na tecnologia de extração de celulose nanocristalina (CNC), produzida 100% a partir de fontes renováveis. Foram investidos US$ 2,5 milhões nessa operação. “Temos trabalhado na produção de papeis mais leves. O plano é fazer mais com menos”, diz o executivo da Klabin, ao revelar que o produto já passou pela fase de testes em escala industrial e deve ser lançado em breve.

Já a fábrica de papel que está em construção no Projeto Puma II – expansão bilionária anunciada pela Klabin em Ortigueira, no Paraná -, vai permitir a produção de embalagens 10% mais leves. A primeira etapa do projeto envolve a construção de uma linha de fibras para produzir celulose não branqueada integrada a uma máquina de papel Kraftliner e Kraftliner Branco, que serão vendidos sob a marca Eukaliner, produto 100% de fibra de eucalipto. A capacidade anual será de 450 mil toneladas anuais. A segunda etapa contempla a construção de uma linha de fibras complementar integrada a uma máquina de papel Kraftliner com capacidade de 470 mil toneladas anuais e expansão de algumas estruturas de apoio.

Para Grimaldi, da Suzano, estamos apenas no início de uma longa jornada. “Essa é só a ponta do iceberg. Vemos um futuro extremamente fértil no segmento de produtos de papel que vem a substituir as embalagens de plástico”, diz.

Dimensão do problema

De acordo com levantamento da finlandesa Pöyry, que no ano passado lançou um serviço global de consultoria sobre a substituição de plásticos de origem fóssil, a produção mundial de plástico é de aproximadamente 400 milhões de toneladas por ano. Desse total estima-se que apenas de 14% a 18% esteja sendo reciclado. Na origem do problema, apontam os especialistas, as embalagens – principal destino do plástico consumido pelas indústrias de Alimentos e Bebidas – são as grandes vilãs.

Em termos globais, aponta a Pöyry, a indústria de embalagens foi responsável por 47% da geração de lixo plástico no ano de 2017, seguida pelo setor têxtil, que respondeu por 13%. Juntos, os dois segmentos foram responsáveis por 45% da produção de plástico no mesmo período.

A consultoria diz que a solução do problema ainda pode estar distante, mas donas de marcas de ponta, como Starbucks, H&M e Tesco, têm finalmente despertado para a gravidade da situação e se posicionado publicamente. Seja substituindo as embalagens plásticas de seus produtos por materiais alternativos com base em fibras naturais ou ampliando esforços na reciclagem do plástico, a movimentação ainda é considerada insuficiente, mas bem-vinda.

Notícia publicada no Broadcast dia 19/11/2019, às 12:58:52

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