Renner lança loja com modelo circular, mas desafio de sustentabilidade na moda é grande

Renner lança loja com modelo circular, mas desafio de sustentabilidade na moda é grande

Talita Nascimento

01 de novembro de 2021 | 15h45

Loja no Rio Sul foi reformada com redução de consumo de matérias-primas  Foto: Lucas Jones Dias/Divulgacao/Renner

A Renner lançou no sábado sua primeira loja em um modelo chamado pela companhia de “circular”. O estabelecimento fica no shopping Rio Sul e foi reformado com redução de consumo de matérias-primas. A empresa afirma que deixou de usar 8,5 toneladas de aço estrutural e que houve diminuição de 37% na quantidade de MDF, além da eliminação no uso de vidro e pinturas. Dos resíduos gerados pela obra, 97% não foram destinados a aterros, segundo a companhia. Grande parte foi reciclada e serviu de insumo em outra cadeia produtiva. Antes do lançamento dessa primeira loja, a Renner não media quanto do descarte de suas obras era reaproveitado.

“Todos os itens de obra das lojas tradicionais são descartados corretamente, em aterros, mas não é feita a mensuração de quantos chegam a ser reaproveitados. A partir do projeto desta loja circular, foi estabelecida a meta de reaproveitar pelo menos 95% dos resíduos em cidades centrais e de 75% em cidades mais distante”, diz a empresa. Só no segundo trimestre do ano, segundo balanço da companhia, foram inauguradas 27 novas lojas da rede. A próxima loja no formato circular, porém, virá apenas no primeiro semestre de 2022, também na capital fluminense, em Jacarepaguá.

A loja do shopping Rio Sul é abastecida por energia originada de fonte eólica, e a emissão de CO2 evitada na construção e operação da loja vai corresponder à restauração de uma área de 1,5 hectare de Mata Atlântica, em um cenário de 20 anos, diz a empresa. A conta é que o espaço reduza 24% no seu potencial de aquecimento global. No dia a dia da loja, o consumo de água será cerca de 56% menor em comparação a empreendimentos com padrões construtivos tradicionais, o que gera uma economia de mais de 420 mil litros ao ano, e equivale ao consumo de sete pessoas nesse período.

A analista de ESG (critérios relacionados às boas práticas ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês) da XP, Marcella Ungaretti, afirma que a iniciativa da loja circular é positiva e demonstra uma preocupação estratégica da companhia em relação aos impactos gerados no meio ambiente. No entanto, ela observa que esse é um pequeno passo diante da quantidade de lojas da companhia, que ainda não adotaram esses critérios de sustentabilidade. Além disso, ela elenca os demais desafios ESG do setor de moda.

Impactos no ambiente

Um relatório da XP mostra que, segundo a thredUp, a indústria da moda é um dos setores mais poluentes do mundo. ”Uma média de 75 libras de CO2 é emitida para a produção de calças jeans; 700 galões de água são necessários para a produção de uma nova camiseta; e uma em cada duas pessoas joga suas roupas indesejadas direto no lixo”, diz um trecho do texto.

Em outro relatório, a analista escreve que o varejo de vestuário depende principalmente do algodão, matéria-prima fundamental para a indústria têxtil, e também do couro. “Esses materiais estão associados a severos impactos ambientais ligados ao alto consumo de água e pesticidas ou potencial desmatamento, tornando esta uma questão chave dentro do setor”, diz o texto.

Segundo o gerente geral de sustentabilidade da Renner, Eduardo Ferlauto, a companhia tem 100% de seus fornecedores credenciados. “Todos os nossos fornecedores até a camada dois são visitados e monitorados”, afirma. Essas visitas anuais são feitas até o segundo elo da cadeia produtiva, ou seja, as confecções terceirizadas de seus fornecedores diretos. “Toda a nossa cadeia passou a ser certificada em 2016. Um dos principais compromissos que a gente tem, de certificação socioambiental de 100% da cadeia nacional e internacional, era para ser finalizada este ano e nós já concretizamos isso em setembro”.

A certificação à qual ele se refere é feita pela ABVTex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), mas a companhia ainda tem um programa próprio auditado de forma independente. Quanto à origem da matéria-prima da indústria, como o algodão, a empresa também tem iniciativas.

“Em 2017, nós nos filiamos ao Better Cotton Initiative. Estamos com mais de 90% de todo o algodão com essa certificação”, diz Ferlauto.

Ungaretti, da XP, ressalta que cadeias longas e complexas como a da moda constituem um desafio de monitoramento completo, sem “soluções triviais”. No entanto, o fato de a companhia chegar até o segundo elo dessa sequência é visto como positivo, já que funciona como um incentivo para que os próximos elos recebam cobranças em relação às suas práticas, como em um efeito cascata.

Em relação ao descarte de roupas usadas e estímulo ao consumo desenfreado, baseado na alta produtividade de peças, o que é a base do chamado “fast fashion”, praticado em lojas de departamento como a Renner, a empresa tenta se livrar dessa pecha. “Não somos uma fast fashion”, diz Ferlauto.

Ele argumenta que a companhia tem buscado usar tecnologia em sua produção para diminuir o tempo que as coleções demoram para ser feitas, com o intuito de reduzir os recursos utilizados. Além disso, por meio de análise de dados, a empresa busca fazer produções mais aderentes aos consumidores. Assim é preciso produzir menos para vender mais. De todo modo, só no segundo trimestre, a companhia faturou R$ 2,2 bilhões com vendas de roupas novas.

A companhia diz ainda que a loja a ser lançada neste sábado terá entre os seus destaques uma nova edição de Re Jeans, jeans com conceito “ecofashion”, bem como um espaço dedicado ao Repassa, plataforma de revenda de vestuário, calçados e acessórios usados.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast  no dia 30/10/21, às 00h10.

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