Restoque renegocia dívidas, mas Fitch vê risco de inadimplência

Restoque renegocia dívidas, mas Fitch vê risco de inadimplência

Cynthia Decloedt e Talita Nascimento

25 de junho de 2020 | 04h20

Depois de anunciar sua recuperação extrajudicial no dia 5 deste mês, as ações da Restoque chegaram a cair 20,3% até o dia 15. Na última quinta-feira, 18, a Fitch Rating publicou um relatório informando que a empresa opera com liquidez “muito reduzida”. “Seus negócios no varejo de moda vêm apresentando substancial queima de caixa desde o primeiro trimestre de 2020, com expectativa de piora acentuada no segundo”, diz o texto sobre a Restoque e a Inbrands, outra varejista do ramo. Para a Fitch, a Restoque está entre as varejistas que apresentam riscos de refinanciamento mais elevados: é um exemplo de companhia que fica exposta a “eventos de inadimplência ou reestruturação forçada das dívidas no curtíssimo prazo, cujas tratativas já se iniciaram”.

Em entrevista exclusiva ao Broadcast, o presidente do conselho de administração da empresa, Marcelo Lima, diz que as margens da companhia devem ser pressionadas em 2020, mas que o acordo de reestruturação das dívidas foi benéfico ao grupo. “Entramos bem na crise”, afirma. Para a Fitch, esse ano, as receitas da Restoque devem cair 47%.

Dona das marcas Le Lis Blanc, Dudalina, John John, entre outras, a empresa obteve, por meio de um acordo com credores que aguarda homologação da Justiça, uma trégua até abril do próximo ano de compromissos relacionados a uma dívida de R$ 1,4 bilhão junto a bancos e debenturistas. “Em 2020, as margens serão afetadas, porque perdemos quase três meses de vendas com preço cheio e ainda o Dia da Mães”, disse Lima. Além disso, a companhia não vislumbra uma recuperação imediata do ritmo de vendas, apesar de já estar em processo de reabertura plena de suas lojas. Hoje, estão abertos 192 pontos de venda do grupo, responsáveis por cerca de 80% do faturamento de 2019.

A Restoque pretende suavizar a pressão no seu resultado, após a queda abrupta nas vendas deste ano, com a administração do seu estoque atual e promoções. “Tínhamos estoque programado para o primeiro semestre e, como ficamos quase três meses com as lojas fechadas, estamos relativamente estocados?, disse o presidente do conselho. Em virtude da perspectiva de uma recuperação lenta das vendas até o final do ano, Lima explica que a encomenda de alguns produtos foi reduzida ou adiada, mas que as importações foram mantidas em 90%.

O executivo conta ainda que a Restoque quer preservar peças permanentes de todas as marcas, ou seja, aquelas que são básicas e atemporais, independentes de tendências da moda ou de sazonalidade. A varejista fará ainda liquidação de peças, mas dentro do calendário normal. ?Um porcentual dos casacos de inverno, por exemplo, que não tinham chegado às lojas e que são ?moda? esse ano vão ter promoções nas temporadas normais?, disse.

A previsão é que os volumes de vendas sejam recompostos aos patamares pré-covid-19 somente em 2021. Mas, segundo Lima, em lojas que já estão operando há mais de um mês, há sinais de que a retomada pode se dar de forma mais acelerada. ?Nossa previsão é que 30% das vendas sejam recompostas em julho, 40% em agosto e chegaremos ao final do ano com 90%?, calcula. No entanto, o executivo nota que em algumas das lojas já abertas o ritmo de vendas alcançou 50% do normal.

Demissões, suspensões e renegociações

Com as lojas fechadas, a Restoque acabou reduzindo quase um terço do pessoal (1,3 mil do total de 4 mil funcionários) e suspendeu o contrato de 75% daqueles que continuaram no grupo, a maioria trabalhadores de lojas. Para os demais, incluindo pessoal do administrativo, houve redução de salário e jornada, conforme a Medida Provisória 937. De acordo com o principal executivo (CEO) da Restoque, Livinston Bauermeister, na produção, a decisão foi fechar algumas fábricas.

Ainda assim, para Bauermeister, a companhia entrou na crise com boa condição e já colhendo os frutos de um realinhamento de produtos e preços. A iniciativa visa atender a demanda de consumidores que perceberam o afastamento de algumas marcas, especialmente a Le Lis Blanc e a Dudalina, do mix de produtos que deram sustentação às grifes, além do encarecimento das peças.

Em dezembro de 2019, o caixa somava R$ 450 milhões. Em março, porém, já havia encolhido para R$ 144 milhões frente ao uso de um porcentual grande para pagar fornecedores. É justamente nesta queima de caixa e na falta de liquidez que o relatório da Fitch se baseia para dizer que a empresa tem riscos de inadimplência. Os executivos, por sua vez, entendem que a renegociação foi um processo positivo e demonstrou a confiança dos credores.

“Fizemos um movimento nas coleções e preços ao longo de 2019 para voltar ao que seria a alma da Le Lis”, diz Bauermeister. Ao mesmo tempo, a companhia trabalhou no alongamento de suas dívidas e já preparava duas novas operações de contratação de novos empréstimos para esticar ainda mais a curva de endividamento, quando a pandemia foi declarada. O novo cenário exigiu, porém, que fossem feitas novas conversas com as instituições financeiras, que consideraram a melhor saída reprogramar todos os vencimentos. A dívida bancária da Restoque soma pouco mais de R$ 800 milhões, concentrada no Santander, Itaú Unibanco, Banco do Brasil e Votorantim. Mas foi por conta do passivo em debêntures, de cerca de R$ 600 milhões, que a Restoque chegou à reestruturação dos compromissos financeiros por meio da recuperação extrajudicial.

“Tínhamos seis grupos de debêntures com características contratuais e prazos diferentes, que nos exigiam a aprovação de 90% dos debenturistas. Ficou óbvio que não conseguiríamos alinhar os interesses de 90% de cada um dos grupos”, destacou Lima.

Nos processos de recuperação extrajudicial, planos de reestruturação financeira precisam do aval de 60% dos credores para serem aprovados, ficando o restante sujeito às condições acordadas com o primeiro grupo.

“Obtivemos o apoio de quase 82% dos credores como um todo”, afirmou Bauermeister. Pelo plano entregue à Justiça e que aguarda sua homologação para ser posto em prática, o total da dívida foi alongada para cinco anos, com carência de três para o principal e de 12 meses para juro. O custo financeiro da dívida reprogramada será de CDI +2,7% e CDI +2,9%, segundo as modalidades previstas no acordo. O plano também prevê a realização, até o final de 2021, de um aumento de capital no valor de R$ 150 milhões, cujo formato ainda será desenhado. A Restoque está sendo assessorada juridicamente pelo escritório Mattos Filho e E.Munhoz.

Esta matéria foi publicada no Broadcast no dia 23/06 às 09h19

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