Sem celebridades e voltado à baixa renda, Neon cresce no boca a boca

Sem celebridades e voltado à baixa renda, Neon cresce no boca a boca

Cristiane Barbieri

22 de agosto de 2021 | 05h07

Pedro Conrade, fundador do Neon: metade dos clientes chega por indicação  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Ao contrário do que indicaria o nome, o Neon parece gostar de ser discreto. Enquanto cada um dos bancos digitais têm celebridades para chamar de suas, a fintech diz querer “ser o banco do trabalhador” e “desmistificar a educação financeira”. Com prioridade nas classes C e D, atingiu, em cinco anos, 12 milhões de contas, sendo 80% clientes que ganham até R$ 1,5 mil por mês. Boa parte, no Nordeste. Em tempo: o Neon da marca não é o gás brilhante que ilumina as baladas, mas sim a tradução de “juventude”, do grego.

“Prefiro um tiro de sniper do que uma bala de canhão”, diz Pedro Conrade, de 29 anos de idade e fundador do Neon, sobre atrelar o banco à assinatura de um famoso. Segundo ele, metade dos clientes chega de forma orgânica, por indicação de outros usuários do aplicativo, num sinal de rumo certo.

A fintech nasceu de uma necessidade pessoal do próprio Conrade. Aos 23 anos, ele era estudante da FGV, trabalhava como estagiário, ganhava R$ 1,5 mil por mês e pagava R$ 800 ao ano de tarifas bancárias. Achou pesado, injusto e foi atrás de alternativas. Em pouco tempo, a ideia ganhou forma, musculatura e sócios. Entre outros investidores, fundos e bancos, como BlackRock, General Atlantic, BBVA e BV colocaram R$ 2 bilhões no Neon, nesses cinco anos.

Martin Escobari, co-presidente e responsável pela América Latina no General Atlantic, gigante global com US$ 65 bilhões sob gestão, inclusive, destacou um entre os 15 investimentos do fundo na região, em recente evento da gestora Verde: o Neon. Motivo: a atuação junto às classes com menor poder aquisitivo.

Mais clientes e mais empréstimos pessoais

Segundo o Neon, seus clientes economizaram, em cinco anos, R$ 1,2 bilhão em tarifas, considerando-se o valor médio cobrado pelos bancos tradicionais. Bom para quem tem pouco dinheiro, mas uma propaganda e tanto para a operação em um mercado com consumidores mal atendidos, pouca concorrência – e, infelizmente, em crescimento. Na pandemia, quase 5 milhões de brasileiros saíram da classe média para a classe mais baixa, segundo o Instituto Locomotiva. A tragédia se repete por toda a América Latina.

Nesse nicho, disputado no País por bancos como Caixa e Pan, o Neon cresceu três vezes em número de clientes, no ano passado. Já investimentos e empréstimos pessoais tiveram alta de quatro vezes, nos últimos 12 meses. Para 2021, a empresa projeta um aumento de 300% em volume transacionado nas contas, em relação ao ano passado.

Na proposta de desmistificar a educação financeira, o banco diz ensinar e dar estímulos positivos aos correntistas com pouco dinheiro. Clientes adimplentes no cartão, por exemplo, têm acesso a linhas de crédito pessoal. É o mesmo caso dos microempreendedores individuais (MEI) que honram compromissos com o fisco. Além da conta, o banco ajuda a formalizar as empresas, com a abertura de CNPJs. Abriu mais de 1 milhão de empresas e emitiu mais de 10 milhões de DAS, o imposto mensal do MEI, pelo aplicativo.

“Nosso público não sabe quanto ganha, quanto gasta, nem com o que”, diz Conrade. “Muitos estão negativados sem saber o motivo: pegamos pela mão para dar visibilidade básica às contas e estimular comportamentos positivos, como dar alguns benefícios ao pagamento de contas em dia, por exemplo.”

É a constatação, na prática, de que abrir conta em banco não significa inclusão social. “As classes C e D têm uma relação distante e desconfiada dos bancos porque sempre conhecem alguém que teve más experiências de pegar crédito e se enrolar, ou ter crédito sempre negado, ou se sentir mal tratado nas agências”, diz Maurício de Almeida Prado, sócio da consultoria Plano CDE. “Por isso, ensinar é uma questão de visão de longo prazo.”

Segundo ele, essa é primeira geração de classe C e D com conta em banco. “Sem os exemplos da família para explicar como usar o sistema, o banco tem de fazer esse papel, com uma introdução ao mundo financeiro”, diz Almeida Prado. “Sem ensinar, a pessoa vai quebrar a cara e não volta nunca mais.”

Para dar escala à proposta, o Neon faz o que as startups sabem: usa dados para identificar e aproveitar as oportunidades com os clientes. Há várias divisões e usos de algoritmos no app para crédito, poupança, conta corrente, produtos e ciclos de vida.

Conrade, que montou sua primeira empresa, uma loja de biquínis no Guarujá, aos 16 anos, diz ver uma eventual oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) mais como uma forma de buscar recursos do que como uma meta. É algo que deve acontecer com o break even (equilíbrio entre receita e despesas), previsto para daqui a dois anos.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 20/08/21 às 20h02.

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