Sem competição com Bolsa, fundos ‘farão festa’ em ano de fusões e aquisições

Sem competição com Bolsa, fundos ‘farão festa’ em ano de fusões e aquisições

Altamiro Silva Junior, Cynthia Decloedt e Cristiane Barbieri

29 de dezembro de 2021 | 05h15

A Renner é uma das empresas que fizeram aquisições neste ano   Foto: Werther Santana/Estadão

Protagonistas em 2021, as emissões de ações na Bolsa devem ceder espaço no mundo dos negócios às fusões e aquisições no próximo ano. Numa das frentes, há várias empresas com o caixa forrado para consolidações e digitalização de seus setores, após processos bem-sucedidos de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês). Em outra, os fundos de private equity (que compram participações em companhias) também irão às compras, depois de passarem os últimos anos dedicando-se a sair de investimentos antigos. Ao mesmo tempo, algumas empresas que esperavam buscar dinheiro na Bolsa viram essa porta se fechar.

“O ano de 2022 será usado pelos fundos (de private equity) para formação de portfólio novamente”, diz Daniel Bassan, CEO do UBS BB. “Tanto que os maiores fundos, após devolverem recursos a seus investidores com as saídas dos negócios, já estão em fase de captação.”

Sem a competição pelo dinheiro com a Bolsa, o Warburg Pincus, por exemplo, está captando US$ 16 bilhões em um novo fundo global, cujo participação de recursos voltados ao Brasil subirá para 5%, da média de 2,5% que costuma investir aqui. Motivo: o sucesso do retorno com investimentos como o feito na Petz.

Patamar histórico

Mesmo este ano, com as emissões de ações aquecidas, o volume de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) deve bater o patamar histórico de US$ 100 bilhões, de acordo com o responsável pela área no BTG Pactual, Bruno Amaral. “Não vejo esse movimento arrefecer em 2022”, diz ele. “O patamar de 100 mil pontos a 110 mil pontos no qual se encontra o Ibovespa é bem saudável para movimentos de fusões e aquisições e a liquidez, seja no Brasil ou fora, continua alta.”

O leque de setores nos quais aconteceram a maior parte das transações este ano foi diversificado. Lojas Americanas, B2W e Assaí lideraram os movimentos de consolidação no varejo, acompanhados por empresas do setor de vestuário, como o Grupo Soma e a Renner, enquanto o segmento de saúde também teve forte consolidação.

Infraestrutura, seja saneamento, aeroportos e rodovias, também apareceu entre os líderes de negócios, e o setor financeiro teve movimentos dos mais diversos, com a digitalização como grande mote. Nas contas de um diretor de um banco de investimento, mais de três quartos das novatas na B3 em 2021 captaram recursos para bancar fusões e aquisições.

Câmbio é atrativo

As incertezas macroeconômicas e as eleições, aparentemente, devem ser temas secundários para esse mercado, que olha para um prazo mais longo. Uma das apostas é de que os estrangeiros estejam mais inclinados a fazer negócios por aqui, uma vez que o câmbio brasileiro torna os ativos do País muito atraentes.

“É um bom momento para investir, pois captam em dólar, e o real está depreciado”, diz o responsável pelo banco de investimento do Bradesco BBI, Felipe Thut. “Além disso, os fundos deixam de concorrer com um momento mais aquecido da história da Bolsa.”

Além dos estrangeiros, as próprias empresas, mais saudáveis e com baixo endividamento, devem levar adiante mais negócios. “Poderemos ver operações de fusões e aquisições alavancadas”, afirma Thut. Um fator que ajuda nessa conta é o fato de que a dívida líquida em relação ao Ebitda (geração de caixa) das empresas que têm ações na composição do índice Ibovespa (excluindo-se Petrobras, Vale e Eletrobras), caiu para 1,6 vez, de 3 vezes em 2015. “O lucro dessas empresas representava 1,2% do PIB e hoje representa 3,6%”, afirma.

As fusões e aquisições só não vão acelerar ainda mais porque quando os preços dos ativos estão caindo, como nas últimas semanas, a tendência é que o empresário fique um pouco mais receoso de fechar o negócio e pode querer esperar.

Ao mesmo tempo, é um cenário perfeito para aquisições por fundos de private equity. “O ano que vem é o ano dos private equities”, diz o corresponsável pelo banco de investimento no Brasil do Bank of America, Bruno Saraiva. “Os fundos estão capitalizados e essa turma vai às compras.”

A sócia das áreas Societário e Governança Corporativa, Fusões e Aquisições e Private Equity do escritório Cescon Barrieu, Maria Cristina Cescon, afirma que a movimentação de empresas e fundos atrás de estruturação de operações, que devem ser anunciadas nos primeiros meses de 2022, tem sido intensa.

Por isso, a perspectiva é de crescimento na participação do investidor financeiro nas M&A. “Quando o mercado fecha, o private equity é a saída”, diz Cristina Bueno, também do Cescon. “Quando o mercado de capitais está fechados, esses fundos voltam a ter relevância.”

Alguns segmentos, como saúde, no destaque das fusões e aquisições há anos, já está ficando caro para os private equities. Por isso, o Cescon vê tendência de mais operações nos segmentos de energia renovável, como parques eólicos e solares, agronegócios, mineração e os diversos tipos de tecnologia, como as fintechs.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 28/12/21, às 11h30.

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