Sem comprador para fatia da Itaúsa, XP terá de se habituar a bode na sala

Sem comprador para fatia da Itaúsa, XP terá de se habituar a bode na sala

Marcelo Mota e Cynthia Decloedt

05 de outubro de 2021 | 05h10

XP, na sede da empresa Crédito: Matheus Lombardi/ XP

XP mostrou incômodo com participação de representantes da Itaúsa em seu conselho Foto: Matheus Lombardi/XP

A batalha dos coletes, como ficou conhecida nas cercanias da Avenida Faria Lima a briga entre Itaú e XP, caminha para terminar com um imenso bode laranja na sala do conselho de administração da XP. Mais de um ano depois da separação, de um casamento que levou a plataforma de investimentos à Bolsa norte-americana Nasdaq, os executivos no comando da XP chiam, desconfortáveis com os dois assentos do colegiado a serem ocupados por representantes nomeados pela Itaúsa. Isso porque é nesse conselho que define todas as suas estratégias – que serão divididas com a controladora de um de seus principais concorrentes. Para a XP, isso atrapalha a governança da companhia.

“Ter o controlador de um de nossos maiores competidores, em nosso conselho, onde se definem estratégias de longo prazo, remuneração da administração, e vários tópicos relevantes, do ponto de vista de perpetuidade do nosso negócio não é o melhor dos mundos”, disse o sócio e diretor financeiro da XP, Bruno Constantino, na estreia dos papéis da XP na Bolsa brasileira ontem. O lançamento foi antecipado pela Coluna.

A holding que participa do controle do maior banco da América Latina diz prezar pela mesma governança. Tanto que, na semana passada, seu presidente, Alfredo Setubal, disse que não se envolve na gestão das companhias que compõem seu portfólio, mas não abre mão da participação no conselho, com ao menos dois assentos. É assim que acompanha de perto os rumos de seus investimentos de longo prazo.

O mesmo Setubal, porém, afirmou que a XP não faz parte desse núcleo duro de investimentos. A plataforma foi herdada do Itaú, que teve seus planos de assumir o controle da empresa frustrados pelo BC. Agora, a Itaúsa quer se desfazer do negócio, mas, como representa hoje a segunda maior fatia no bolo de suas participações, menor somente que o banco, teria de ser feita com muita parcimônia.

A Itaúsa poderia renunciar aos assentos a que tem direito no conselho da XP, mas, com uma participação tão relevante em sua carteira, tende a manter um olho sobre o gado. O silêncio da holding, que não emitiu comentários após a chiadeira pública dos sócios, foi interpretado como um sinal de que a XP deve se acostumar com a presença incômoda do concorrente em seu conselho.

Em meio à competição acirrada no setor, se não quiser ter seus estratagemas competitivos mais secretos expostos ao concorrente, a XP só tem uma saída rápida: ajudar a Itaúsa a encontrar um interessado em comprar a participação. Terá, no entanto, de ser alguém a pagar um preço maior do que o desembolsado pelo Itaú quando fez o pedido de casamento. À época, o dote oferecido foi polpudo o bastante para inibir a intenção dos então sócios da XP a levar a companhia que fundaram à Bolsa. Procurados, Itaú e Itaúsa não concederam entrevista.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 04/10/2021 às 19h30.

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