Separado do Santander, Getnet poderá superar líder Cielo em valor de mercado

Separado do Santander, Getnet poderá superar líder Cielo em valor de mercado

Aline Bronzati e André Ítalo Rocha

18 de novembro de 2020 | 04h59

Responsável por quebrar o duopólio que Cielo e Rede dividiam, a Getnet, do Santander Brasil, pode chegar à Bolsa valendo mais do que a líder das maquininhas no mercado brasileiro, a própria Cielo (R$ 10,2 bilhões). Ainda assim, não deve ultrapassar as rivais PagSeguro (R$ 78,7 bilhões), do Uol, e Stone (R$ 107,3 bilhões), com capital aberto nos Estados Unidos. O valor de mercado da número três do mercado, que está imersa em um plano de expansão internacional, pode ficar entre R$ 4,8 bilhões e R$ 18 bilhões, conforme cálculos iniciais de analistas do setor ouvidos pela reportagem.

Ainda em estudo, a ideia do atual dono da Getnet, o Santander Brasil, é fazer um spin-off do seu negócio de maquininhas e listá-lo no Brasil e via ADRs (American Depositary Receipts) nos Estados Unidos. Assim, o acionista controlador passaria a ser o banco na Espanha e a subsidiária brasileira receberia, em troca, participação proporcional na ‘nova’ empresa. O movimento vai na contramão do que fez o Itaú, que fechou o capital da Rede, em 2012, e a trouxe para si.

O anúncio de que a Getnet deve ganhar vida própria, feito na noite de ontem, fez os analistas do mercado começarem a calcular o quanto a Getnet poderia valer e ainda a cifra que uma eventual segregação do negócio poderia gerar ao Santander Brasil. Os cálculos, dizem eles, consideram os múltiplos que variam de 11 a 20 vezes o lucro líquido estimado para a empresa em 2021.

“A transação pode potencialmente desbloquear algum valor para o Santander Brasil, ao mesmo tempo que fornece flexibilidade estratégica em diferentes frentes para a Getnet e o Santander Espanha”, dizem Marcelo Telles, Otavio Tanganelli, Alonso Garcia, do Credit Suisse, em comentário a clientes.

Os analistas do Bradesco BBI, Victor Schabbel e Sofia Viotti, estão, contudo, céticos quanto à cifra. Segundo eles, spin-offs fazem sentido quando se referem a ativos que não fazem parte do core business, que não é o caso da Getnet. “Embora sejamos céticos quanto ao acréscimo de valor, que é totalmente diferente do que o Itaú Unibanco fez com o XP, o spin-off pode facilitar a venda da Getnet a um parceiro estratégico ou a participação em fusões e aquisições”, dizem. Eles alertam, contudo, que a separação do negócio da Getnet traz desafios gerenciais, o que poderia impactar no negócio de maquininhas, e ainda baixa liquidez.

Para o Safra, a separação da GetNet é positiva para o Santander Brasil uma vez que pode desbloquear R$ 8 bilhões ao banco, adicionando 6% ao seu valor de mercado.

Quando arrematou a Getnet, o Santander pagou R$ 1,431 bilhão por uma fatia de 11,5% remanescente nas mãos dos acionistas, no fim de 2018. Na ocasião, a empresa foi avaliada em mais de R$ 12 bilhões. Além disso, a cifra superou o quanto o banco havia pago pelo controle da adquirente, em 2014, quando desembolsou R$ 1,1 bilhão.

Dentre os benefícios que a Getnet poderia ter ao engrenar numa carreira solo, conforme analistas, estão uma trajetória de expansão além da base do Santander Brasil. A empresa, que começou no Rio Grande do Sul, foi responsável por quebrar o duopólio existente no Brasil, entre Cielo e Rede, do Itaú. Consolidou-se como a terceira maior empresa de maquininhas no País, à medida de multiplicou sua fatia de mercado. Ela foi de tímidos 6% de participação, em 2014, para cerca de 15% atualmente.

Com a notícia de que a Getnet pode deixar de fazer parte do Santander Brasil, os papéis do banco tinham leve alta de 0,52%, às 13h12. Entre as concorrentes, Cielo operava estável, enquanto Stone e PagSeguro, com ações listadas lá fora, subiam 1,39% e 1,63%, respectivamente.

Agora, ao assumir, no futuro, carreira solo, a Getnet avança em direção à estratégia do conglomerado espanhol de tornar sua operação de pagamentos um negócio global, conforme anúncio feito no mês passado. A ideia é concentrar as operações em um novo braço, que será batizado de PagoNxt, para competir de igual para igual com plataformas mundiais.

Com essa iniciativa, o Santander iniciou um processo de internacionalização da empresa brasileira. Primeiro, o banco começou a exportá-la para a América Latina, mas também avança para a Europa. A Getnet já está no Chile, Argentina e em breve deve desembarcar no México.

Ontem, o Santander anunciou a compra de ativos da alemã Wirecard, empresa de pagamentos e que recentemente esteve no centro de um escândalo contábil, justamente para reforçar a expatriação do seu negócio brasileiro de maquininhas para a Europa. “Os ativos de tecnologia e talentos que ganhamos como parte da aquisição nos ajudarão a acelerar os planos de expansão da Getnet na Europa, ao mesmo tempo em que aumentamos nossa capacidade de desenvolvimento de produtos”, disse a presidente do banco Santander, Ana Botín, em nota à imprensa.

O analista Carlos Eduardo Daltozo, um dos responsáveis pela área de renda variável da casa de análises Eleven, ainda não calculou qual poderá ser o valor de mercado da Getnet, mas encarou de forma positiva o anúncio feito ontem pelo banco. “A Getnet se tornaria um competidor global, um braço de adquirência global do Santander. É um movimento muito interessante e reflete a transformação pela qual o Santander Brasil passou nos últimos anos, chamando a atenção da matriz e virando uma referência para o grupo”, afirma.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 17/11/2020 às 13:26

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