Setor de saúde terá grandes conglomerados e seremos um deles, diz CEO da Viveo

Setor de saúde terá grandes conglomerados e seremos um deles, diz CEO da Viveo

Irany Tereza

10 de dezembro de 2021 | 16h30

Byrro:  É fundamental  uma política industrial para aumentar a produção local   Foto: Leonardo Rodrigues/Viveo

Há quatro meses a Viveo, um dos maiores fornecedores de materiais hospitalares e medicamentos, abria capital na B3. Desde então, concluiu nove aquisições, acelerando o ritmo de compra de ativos imposto nos últimos quatro anos. O CEO da companhia, Leonardo Byrro, comenta que o processo de consolidação no setor de saúde foi uma das consequências trazidas pela pandemia.

Quando tudo terminar, ele imagina um cenário com grandes conglomerados onde antes havia um mercado fragmentado. E garante que a Viveo irá liderar um deles. “Seremos um dos grandes grupos. Com a missão de simplificar e democratizar o mercado da saúde”, disse o executivo, ao programa Olhar de Líder. O capital estrangeiro está pronto para participar do movimento. Mas, na opinião de Byrro, “está esperando, talvez, algumas definições”. Quais? “Políticas, econômicas, fiscais.”

A seguir, um resumo da entrevista que pode ser acompanhada na íntegra em vídeo no Broadcast TV.

 

Broadcast: A estratégia de compra de ativos verificada logo após o IPO vai continuar?

Leonardo Byrro: Nos últimos quatro anos fizemos mais de 15 aquisições nos diversos segmentos de atuação da Viveo. Havíamos feito uma captação privada de recursos no fim de 2019 e o IPO foi uma nova injeção de capital para continuar financiando o crescimento. Em agosto, quando fizemos o IPO, levantamos quase R$ 2 bilhões e, de lá para cá, fizemos mais nove aquisições. A somatória de faturamento dá algo superior a R$ 2,5 bilhões. Estamos sempre olhando oportunidades de mercado. M&A para a gente é sempre um “como”, uma forma de chegar a algum lugar; não é um “que”, uma estratégia em si só. Não dá para garantir que vai continuar tão ativo quanto foi, mas estamos com um pipeline bastante intenso de novas oportunidades.

Broadcast: Quantos ativos estão avaliando?

Byrro: Temos hoje mais de dez empresas no pipeline. Diria que duas ou três estão em estágio mais avançado, eventualmente podem acontecer. Mas isso é uma constante do nosso negócio. Acabamos de fazer uma captação de dívida de R$ 530 milhões para poder financiar novos movimentos.

Broadcast: E vão manter o foco na distribuição de produtos médicos ou diversificar?

Byrro: Temos uma divisão mais nova, que chamamos de serviços e tecnologia. Além de crescer a nossa oferta de produtos para todos os perfis de clientes – hospitais, clínicas, laboratórios – levamos serviços para ajudar os clientes em seus negócios. Fizemos uma aquisição no passado, a Far.me, uma startup de medicamentos em casa, e tem outras oportunidades, mas sempre dentro do segmento de saúde.

Broadcast: A empresa estuda mesmo ingressar no mercado de crédito?

Byrro: Estamos estudando duas estratégias, começando pelo canal de laboratórios que atendemos, tanto para colocar de pé um marketplace para terem mais acesso a produtos, como também uma solução de crédito, porque muitas vezes esses clientes não conseguem aprovar crédito. Ter uma solução é um desses serviços com tecnologia que é nossa prioridade.

Broadcast: Em parceria com instituição financeira?

Byrro: Provavelmente teremos parcerias. Não definimos ainda, por isso não posso comentar quais. Temos algumas instituições financeiras e fintechs nos procurando para construir essa solução.

Broadcast: Como fornecedora de produtos médicos, a empresa viveu com muita intensidade as dificuldades da pandemia. Como foi isso?

Byrro: Somos hoje o maior fornecedor de todos os grandes hospitais do Brasil, tanto de materiais quanto de medicamentos. Estávamos no meio do furacão e precisávamos manter nossas atividades rodando. Temos mais de 18 centros de distribuição e cinco fábricas. Se a gente parasse, haveria um desabastecimento ainda maior, porque as cadeias globais estavam sofrendo muito. Houve duas ondas, a primeira foi a falta de respiradores e EPIs (equipamentos de proteção). O mundo ficou exposto a uma cadeia muito dependente da Ásia e tivemos que nos desdobrar. Um exemplo que sempre comento é o das máscaras. Além de os preços terem explodido, não havia máscaras no Brasil porque era tudo importado da China. Fizemos parceria com a Latam e alugamos três aviões de passageiros para buscar máscaras na China. Como não eram aviões de carga, as máscaras, 15 milhões, vieram em caixas amarradas nos bancos dos passageiros. E isso foi voando por lugares específicos porque se pousasse em alguns países, naquela época era confiscado. A segunda onda, no começo deste ano, foi a falta de anestésicos, o kit intubação, que vinha da Índia. Foi um caos. Importamos mais de R$ 100 milhões em anestésicos para ajudar nossos clientes a conseguir manter suas operações. De fato, foram momentos bastante intensos nos últimos dois anos.

Broadcast: Como avalia o cenário pós-pandemia?

Byrro: É fundamental termos uma política industrial que nos ajude a aumentar a produção local. Não quer dizer que a gente vá ser autossuficiente, mas ter 100% de dependência de produtos muito básicos para a saúde não deveria ser nossa visão de futuro.

Broadcast: Durante a fase mais crítica, o que mais te marcou no enfrentamento à pandemia?

Bryrro: Ter de lidar com dificuldades pessoais, eu e os outros líderes, e ao mesmo tempo manter o otimismo e passar segurança para as pessoas continuarem trabalhando, porque tínhamos um papel social muito relevante. Não tínhamos nem o direito de parar. O primeiro aprendizado foi que a gente viu o tamanho da conexão das pessoas com o propósito, o quanto os quase 5 mil colaboradores se engajaram. Foi muito bacana ver a resposta das pessoas. O segundo, é que a gente tinha acabado de capitalizar a companhia pouco antes da pandemia. Nossa decisão foi continuar investindo e não segurar o caixa. Contratamos muita gente desde o início da pandemia. Mais de 400 pessoas.

Broadcast: Depois que tudo voltar ao normal, como enxerga este mercado como negócio?

Byrro: O Brasil está passando por um momento muito acelerado de consolidação do setor da saúde, em todas as suas frentes: prestadores de serviços, como hospitais, laboratórios, clínicas, grandes grupos nacionais estão sendo formados numa velocidade muito acelerada. Também há um movimento grande de consolidação entre os fabricantes de medicamentos, seja global, seja no Brasil, muito relevante. Vamos passar por um ciclo de formação de grandes conglomerados de saúde, de um mercado que era mais fragmentado, e vamos passar a ter grandes grupos. O lado positivo é a capacidade de investir em novos modelos e tecnologia. E para nós gera uma necessidade: nosso crescimento acelerado tem muito a ver com isso, para atender a esses grandes grupos precisamos de escala.

Broadcast: A Viveo se coloca como consolidadora?

Byrro: Seremos um dos grandes grupos. Com a missão de simplificar e democratizar o mercado da saúde.

Broadcast: Pode-se esperar um movimento de investidores estrangeiros nessa consolidação?

Byrro: É um segmento que o investidor estrangeiro gosta bastante. Obviamente, no momento atual, é mais difícil para o estrangeiro investir no Brasil. Mas, o setor de saúde é um dos que ele mais gosta. No nosso IPO, e em vários outros do setor de saúde, houve uma base muito relevante de investidores estrangeiros. Tem algum capital pronto para entrar no Brasil, mas está esperando talvez algumas definições.

Broadcast: Políticas?

Byrro: Políticas, econômicas e fiscais.

 

Esta entrevista foi publicada no Broadcast+ no dia 09/12/21, às 15h08.

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