‘Setores vilões’ deveriam ser excluídos do novo índice de sustentabilidade da B3, diz Alperowitch

‘Setores vilões’ deveriam ser excluídos do novo índice de sustentabilidade da B3, diz Alperowitch

Cynthia Decloedt

28 de julho de 2021 | 10h00

Especialista vê  risco de haver empresas danosas ao meio ambiente no novo índice da B3  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A nova metodologia do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 pode acabar incorporando empresas de setores vilões, que ao serem consideradas responsáveis, do ponto de vista educacional, podem passar uma mensagem equivocada quanto ao impacto que causam ao planeta ou comunidades. A opinião é do sócio-fundador e administrador de carteiras da gestora FAMA, Fabio Alperowitch, que tem atuado no mercado financeiro, defendendo a vigilância pelos investidores quanto à abordagem dos compromissos que as companhias têm assumido em relação ao tema da sustentabilidade.

Alperowitch diz que o ISE, um índice o qual “desprezava”, melhorou sensivelmente. Ele elogia a transparência que foi agregada, com a disponibilização das informações de modo organizado do questionário, dos critérios de escolha e com o sistema de pontuação. Mas defende que setores cuja atividade cause prejuízo ao planeta ou à sociedade deveriam ser excluídos. “Não consigo entender um índice de sustentabilidade que promova a indústria de fogo, jogos de azar e combustíveis fósseis. Acho fundamental que houvesse o filtro de exclusão”, diz em entrevista ao Broadcast.

A B3 divulgou há cerca de duas semanas a nova metodologia do índice que passará a ser adotado e que estará replicada na versão do início de 2022. Houve uma redução de 40% do questionário para simplificar e tornar sua leitura mais assertiva do ponto de vista dos compromissos assumidos pelas empresas. Foram incorporados critérios ESG (relacionados às boas práticas ambientais, sociais e de governança) consolidados internacionalmente, como o Carbon Disclosure Project (CDP), questionário respondido por empresas listadas em bolsas de todo o mundo sobre políticas relacionadas a mudanças climáticas, e a RepRisk, que gera um indicador de risco reputacional para as companhias.
A B3 também deixará disponíveis as pontuações de cada empresa nas verticais que estão sendo avaliadas e em comparação a empresas de seu próprio setor.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Broadcast: O que o senhor achou da nova metodologia do ISE?

Alperowitch: Tenho sido muito crítico em relação ao ISE. Mas acho que a metodologia melhorou muito. Evoluiu sensivelmente. O ISE era um índice o qual desprezava, agora tem um processo mais sólido, os ingredientes de sua metodologia evoluíram. Acho que é um índice que pode ser considerado, embora ainda precise ser efetivamente testado. Mas é justo esperar a primeira carteira para ver se faz sentido ou não. Na teoria é melhor. Mas tenho algumas observações.

Broadcast: Quais são as suas observações?

Alperowitch: No que diz respeito à questão climática, o ISE usa o índice de CDP, que analisa uma parte importante sobre como as empresas estão lidando com o tema, mas não analisa o quanto as empresas estão provocando de externalidades ao planeta.’Poderia ter uma situação em que setores vilões serão beneficiados. Essa é uma abordagem conhecida como “best in class”, mas deveria considerar o impacto que cada empresa tem no planeta e não como gere o seu impacto somente.

Broadcast: Poderia explicar melhor?

Alperowitch: Na prática, o risco é de haver empresas danosas ao meio ambiente no índice e que ainda assim são premiadas. Alguns índices de sustentabilidade excluem empresas de carvão e petróleo, por exemplo. O CDP fez um trabalho seríssimo, é um trabalho muito bom, mas a questão é a ótica do ISE. Se a empresa está sendo responsável, merece estar no índice. Acho que no final das contas pode haver uma carteira de empresas que tenham externalidades negativas.

Broadcast: Qual o impacto dessa abordagem?

Alperowitch: Estamos em emergência climática e um investidor responsável, que se preocupa com questões de sustentabilidade, não deveria financiar projetos que causam externalidades muito grandes ao planeta. À medida que existe um índice prestigiado e que vai ter uma montanha de dinheiro seguindo o ISE, que tem uma responsabilidade de educação, o que vai se entender é que as empresas que estão neles são responsáveis, e quem não está, não é. Isso pode levar um fluxo de recursos para financiar atividades com externalidades negativas e (sugerir) que o índice é composto por empresas que trazem externalidades positivas, o que não pode não ser necessariamente uma verdade.

Broadcast: Qual é o problema então do índice, em seu ponto de vista, e como deveria ser feito?

Alperowitch: O problema é essa abordagem, de interpretação e pontuação a partir das medidas adotadas pelas empresas em relação a elas mesmas e comparando com pares de seu próprio setor. Uma petroleira, por exemplo, que tem uma matriz energética de elevado impacto no gás do efeito estufa pode ter uma pontuação excelente, enquanto uma empresa que não é poluente em sua atividade pode ter uma péssima pontuação. Não consigo entender índices de sustentabilidade que promovam indústrias de fogo, jogos de azar e combustíveis fósseis, acho fundamental que tivesse o filtro de exclusão.

Broadcast: A pontuação das empresas é feita a partir de pilares com uma ótica de negócio. O que acha?

Alperowitch: A transparência que vem é ótima, o questionário, as pontuações, os processos e a metodologia é clara, ainda que tenhamos dúvidas. Estão ali o número, a nota e a fórmula, isso melhorou muito em relação ao anterior, onde não tínhamos visão de quase nada. O fato de haver uma terceirização no índice, em relação a alguns provedores de serviços, tira um pouco do risco de haver uma única entidade responsável pela interpretação de todos os números e índices. Posso concordar ou discordar, mas o fato de ficar mais transparente, melhora a governança. Mas tem um stakeholder que não está sendo considerado que é o planeta. Na dimensão social, não é tão claro como a sociedade é afetada. O índice não tem, portanto, uma visão de stakeholder (partes interessadas), mas da empresa.

Broadcast: O senhor acredita em índices de sustentabilidade como uma ferramenta para decisões de investimento sustentável?

Alperowitch: É impossível fazer um índice de sustentabilidade do ponto de vista quantitativo. Dentre os que existem, o ISE, pelo menos tem uma abordagem que é qualitativa, que é o questionário. Boa parte não faz isso. Para ter uma visão de stakeholder em um índice é difícil, mas no mínimo a exclusão pode ser usada.

Broadcast: Para que então servem os índices de sustentabilidade?

Alperowitch: Na tomada de uma decisão de investimento, um índice de sustentabilidade serve para nada. Mas o índice pode ser uma ferramenta para dar direção. Para uma pessoa física, que queira investir de maneira sustentável, ou é via gestor, ou vai replicar um índice que não leva em consideração externalidades.

Broadcast: Como são tomadas as decisões de investimento em sua gestora?

Alperowitch: Utilizamos uma visão de stakeholder desde 1993 e, para ter interpretação da companhia, falo com investidores, com a comunidade, tento entender o entorno da natureza, os pares da companhia. Tentamos interpretar a sustentabilidade por meio da cultura corporativa e para isso busco saber como a empresa se relaciona com esses stakeholders.

Broadcast: Em quais empresas vocês investem?

Alperowitch: Localiza, MRV, Fleury, Renner, Duratex e Klabin.

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