Squadra publica nova carta sobre IRB Brasil Re e nega problemas em números contábeis

Squadra publica nova carta sobre IRB Brasil Re e nega problemas em números contábeis

Aline Bronzati

10 de fevereiro de 2020 | 00h49

A carioca Squadra publicou neste domingo, 9, uma nova carta aos seus cotistas sobre o IRB Brasil Re, na qual reafirma sua opinião sobre a recorrência dos resultados da companhia, conforme documento obtido pelo Broadcast. Desta vez um pouco mais enxuta, com 50 páginas, a correspondência traz uma análise das informações que o próprio ressegurador tem dado ao mercado em relação aos pontos questionados na publicação anterior sobre o investimento short, ou seja, que aposta na queda de suas ações, no dia 2.

Desde a publicação da primeira carta da Squadra, as ações do IRB Brasil Re foram pressionadas na Bolsa, acumulando queda de quase 12% em fevereiro. Como consequência, seu valor de mercado, de cerca de R$ 42 bilhões no pregão que antecedeu a publicação do documento, caiu para cerca de R$ 37 bilhões no fechamento do mercado na sexta-feira, 7.

O maior baque desde que o ressegurador abriu seu capital, em julho de 2017, obrigou os executivos da companhia a partirem para o contra-ataque com uma série de explicações ao mercado, em reuniões com investidores e analistas de sell-side, que fazem recomendações para empresas listadas, questionando os pontos levantados pela gestora e reafirmando a recorrência dos resultados apresentados. Esse é exatamente um dos focos da nova carta, que traz trechos das explicações do IRB, acompanhados de comentários da gestora.

A Squadra abre a correspondência ressaltando que a publicação anterior atraiu duas formas de repercussão que, em sua visão, merecem esclarecimentos. “Novamente enfatizamos que mantemos nossa posição vendida, de forma que fundos sob nossa gestão (e, por consequência, a própria Squadra) se beneficiam de uma queda de valor nas ações do IRB”, ressalta a gestora carioca.

De acordo com a Squadra, algumas reportagens que abordaram a carta fizeram referências a práticas contábeis não lícitas. A carioca reitera, contudo, um trecho inicial da correspondência publicada há uma semana, reproduzido, abaixo, na íntegra:

“Em nossa opinião, existem indícios que apontam para lucros normalizados (recorrentes) significativamente inferiores aos lucros contábeis reportados nas demonstrações financeiras da Companhia. Essa disparidade entre lucro contábil e lucro normalizado foi crescente durante o período e atingiu sua maior diferença nos resultados trimestrais mais recentes. Não estamos afirmando que há razões legais ou regulatórias que exijam a divulgação de tais lucros de modo diferente ao realizado pelo IRB. Nossa intenção aqui é justificar aos senhores nossa opinião de que há uma grande disparidade entre preço e valor nas ações do IRB, causada principalmente por uma percepção de parcela do mercado sobre a sustentabilidade dos seus elevados níveis de retorno sobre o capital.”

Na carta anterior, a Squadra lista cinco eventos não-recorrentes que teriam impactado nos resultados do ressegurador. Conforme a gestora, caso os mesmos fossem excluídos, o lucro líquido antes imposto de renda (LAIR) do IRB nos nove primeiros meses de 2019, de R$ 1,390 bilhão, seria revertido em um prejuízo de R$ 112 milhões.

A Squadra ressalta que, no primeiro documento, não afirmou haver problemas nos números contábeis do IRB ou existirem razões, legais ou regulatórias que exijam a divulgação de lucros de modo diferente ao feito pelo IRB. Em uma espécie de retratação, a gestora diz ainda que apenas explicou que houve ganhos que entende como “extraordinários” ou “não recorrentes”.

Sobre os esclarecimentos feitos pelo IRB por conta da primeira carta, a gestora considera o movimento como “apropriado”, uma vez que o ressegurador possui uma grande quantidade de informações que poderiam “refutar” algum ponto específico levantado pela Squadra. Diz ainda que não teria problema em revisar seu entendimento e reavaliar seu impacto na percepção sobre o valor da companhia.

“A Squadra não tem compromisso com o erro… Todavia, com base nas comunicações a que tivemos acesso, não houve apresentação de nova informação que nos fizesse alterar nosso entendimento”, ressalta a gestora, em sua nova carta.

A carioca classifica como “perfeitamente natural” que haja divergências de opinião. Como exemplo, cita o ganho de capital na venda da participação no Minas Shopping, um dos cinco pontos que mencionou na primeira carta para justificar a disparidade entre lucro contábil e normalizado do IRB Brasil Re.

Enquanto a gestora considera o mesmo um item não recorrente nos resultados do ressegurador, a companhia recorreu a especialistas em contabilidade que entendem que a “operação está intimamente ligada às operações da companhia sendo mais apropriado – do ponto de vista do desempenho econômico – a sua classificação como resultado recorrente”. A Squadra rebate tal posicionamento e diz que a participação no Minas Shopping foi adquirida há cerca de 30 anos e, portanto, tem valor contábil “muito defasado” em relação ao valor de mercado, o que a faz entender o ganho de capital como não recorrente.

A carioca afirma que “essa é uma divergência de opinião” e aponta como solução a “transparência” para evitar “embates infrutíferos”. “Divergências de opinião são perfeitamente normais e não motivariam nova comunicação de nossa parte”, acrescenta a Squadra.

Ao comentar a postura do IRB perante à primeira carta, a gestora diz que a companhia vêm buscando confrontar a análise de forma que “não julga correta”. O ressegurador e seus executivos, na visão da Squadra, têm afirmado que o estudo da Squadra “contém muitos erros”.

“Diante do exposto, entendemos por bem escrever este esclarecimento aos senhores. Nas próximas páginas, em formato de slides, apresentamos as respostas recentes dos executivos da companhia e apontamos por que razões elas não invalidam (ou mesmo enfraquecem) as análises elaboradas pela Squadra”, justifica a gestora carioca.

No segundo slide, no qual traz um resumo sobre pontos levantados pelo IRB e seus executivos, a gestora carioca lista seis explicações:

1ª – diz que o que a companhia chama de ganho de capital no investimento feito no Minas Shopping é, na realidade, o custo contábil do ativo;

2ª – afirma que o IRB parece confundir float com o valor total das aplicações financeiras;

3ª – comenta sobre a expectativa de salvados e ressarcidos do saldo de provisão de sinistros (PSL) e ressalta que o IRB cita lançamentos diferentes e não comparáveis e que o fato de a gestora não ter utilizado a retrocessão (divisão de risco com outras resseguradoras) está expressamente explicado na análise anterior;

4ª – sobre a reversão de provisões anteriores a 2014, afirma que os valores citados pelo IRB nada têm a ver com o seu estudo;

5ª – em relação à remarcação de ativos imobiliários, informa que o CFO do IRB nega qualquer remarcação a valor justo de ativos imobiliários, mas não explica a origem dos R$ 204 milhões que apareceram nas demonstrações financeiras apenas no terceiro trimestre de 2019 como “ativos com natureza operacional na IRB Investimentos e Participações Imobiliárias”;

6ª – quanto à avaliação otimista dos contratos da safra de 2019, a Squadra afirma que o IRB alega, sem razão, que a gestora desconsiderou a provisão de sinistros ocorridos e não avisados (na sigla, IBNR) no cálculo da sinistralidade e que sugere critério que não permite calcular o impacto no lucro antes de imposto de renda (LAIR), foco da análise da carioca.

Por fim, a Squadra antecipa ainda que, após a segunda correspondência voltada ao IRB, não tem a intenção de enviar comunicação subsequente tratando exclusivamente de sua análise sobre o ressegurador. Informa também que, na primeira parte do ano, escreverá uma nova carta em que abordará a performance dos fundos no ano de 2019, além de trazer comentários e considerações sobre pontos relacionados ao seu universo de investimento.

Com a palavra.

O ressegurador IBR Brasil Re negou, ao Broadcast, que a autoria de informações e slides apresentados na nova carta da carioca Squadra, publicada no domingo, 9. “O IRB Brasil RE nega que sejam de sua autoria slides apresentados na carta da Squadra como sendo as explicações da companhia para a primeira carta da gestora”, informa o ressegurador, em resposta aos questionamentos do Broadcast.

Essas informações começaram a ser publicadas no Broadcast, às 21h37.

 

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