Surfando na liquidez global, Brasil já levantou US$ 9 bi em bonds durante crise

Surfando na liquidez global, Brasil já levantou US$ 9 bi em bonds durante crise

Cynthia Decloedt

07 de julho de 2020 | 17h16

Empresas e o Tesouro brasileiro já levantaram US$ 8,95 bilhões em cinco operações de emissão de títulos de dívida (bonds) distribuídas no mercado externo, em meio à maior crise econômica e sanitária já vivida no globo nos últimos tempos. Mas o que mais impressiona são os números registrados nos livros de ordens, que no agregado superam os US$ 40 bilhões. Além disso, o custo dessas emissões está praticamente inalterado em relação ao que vinha sendo praticado anteriormente à pandemia. Por trás de ambos os fenômenos está um choque de liquidez também sem precedente, causado por programas de estímulo igualmente nunca vistos e juro zero em várias partes do mundo. As captações por empresas brasileiras e latinas tende a se intensificar no segundo semestre, uma vez que a compra direta de títulos de empresas pelo Federal Reserve, o banco central norte-americano, para estabilizar o mercado está reduzindo os prêmios que os investidores tanto procuram.

A Vale conseguiu atrair US$ 9 bilhões em seu livro de ordens nesta segunda-feira para uma emissão de US$ 1,5 bilhão com bonds de 10 anos, apesar do grande passivo ambiental gerado por uma série de tragédias que marcaram a história recente da companhia e foram motivo de perda de uma parte de seu público investidor. Além da demanda, a Vale captou a um preço inferior ao do próprio governo brasileiro, que no início de junho levantou US$ 3,5 bilhões em bonds com vencimento em cinco e dez anos. Na tranche de dez anos, de US$ 2,25 bilhões, o Tesouro pagou remuneração ao investidor de 4%. A Vale emplacou seus bonds nesta segunda-feira à taxa de 3,85%, enquanto esse mesmo bond do Tesouro operava em queda em relação ao preço da emissão.

O fato de a Vale ser uma empresa global distancia a percepção de risco da companhia em relação à do Brasil, de acordo com uma fonte que preferiu não se identificar. No entanto, observa a mesma fonte, outras empresas globais do setor de mineração estão oferecendo remuneração mais baixa, em torno de 2%. Ainda, contribuindo para a demanda, estava um “vácuo” na carteira dos investidores de bonds da Vale, que há quatro anos não fazia esse tipo de emissão.

O responsável pela área de mercado de dívida do BTG Pactual, Sandy Severino, aposta que o segundo semestre será mais aquecido para emissores emergentes e latinos, especialmente setembro, quando as empresas já tiverem balanços divulgados e uma melhor percepção da direção futura da crise. “Junho foi o melhor mês para emissores norte-americanos sem grau de investimento (high yield), e a nossa visão é de que os emergentes serão beneficiados pela continuidade da onda em busca de retorno”, comentou em conversa com o Broadcast.

Depois do pânico com a pandemia em março, apenas os emissores com grau de investimento norte-americanos conseguiram acessar o mercado de dívida externa, seguido pelos sem grau de investimento dos EUA, o que abriu a possibilidade de emissores brasileiros captarem a partir de junho. Mas existe a percepção de que o excesso de demanda para os bonds norte-americanos, somado à atuação direta do Federal Reserve na compra de papéis do mercado, está tirando a “gordura” dos bonds. Por isso a aposta de que a demanda tende a se intensificar para os emergentes a partir de agora.

Severino acredita que o Brasil poderá levantar o mesmo montante em bonds do ano passado, de US$ 33 bilhões, uma vez que no acumulado de janeiro a julho, já foram levantados cerca de US$ 16 bilhões.

Mas Severino diz que várias empresas não estão captando agora porque acreditam que as condições do mercado vão melhorar, apostando em boas notícias vindas do País no campo da aprovação de reformas e de uma possível maior clareza quando à pandemia e seus desdobramentos.

Segundo ele, as companhias que pensam em acessar o mercado de dívida externa têm como objetivo refinanciar débitos mais caros, incluindo aqueles tomados na esteira da covid-19. “Outras querem ficar líquidas, porque há ainda muita incerteza no horizonte”, acrescenta.

Esta matéria foi publicada ontem às 19h24 no Broadcast

contato: cynthia.decloedt@estadao.com

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