Tech brasileira Sensedia chega aos EUA para levar negócios à ‘economia aberta’

Tech brasileira Sensedia chega aos EUA para levar negócios à ‘economia aberta’

Gabriel Baldocchi

11 de fevereiro de 2022 | 05h30

Marcílio Oliveira (esq.) e Kleber Bacili, fundadores da Sensedia   Foto: Sensedia/Divulgação

Um turista em viagem à Europa faz as reservas por um site especializado e, ao chegar ao destino, recebe no aplicativo a sugestão de um banco parceiro para comprar euros. Um pai matricula o filho na escola e tem pré-aprovado o crédito estudantil na web. Na era digital, a busca pelo melhor serviço ao consumidor envolve um entrosamento cada vez maior entre empresas. Negócios são feitos de forma integrada e aberta, na chamada “open economy”, conceito que a tech brasileira Sensedia quer ajudar a incentivar pelo mundo com os recursos do Riverwood. Com os R$ 120 milhões injetados pelo investidor americano no ano passado, a empresa agora chega aos EUA, inaugurando um novo capítulo para sua trajetória internacional.

“A missão da Sensedia é que as empresas sejam tão integráveis quanto nas redes sociais”, afirma Marcilio Oliveira, cofundador e Chief Growth Officer da tech brasileira ao Broadcast. “Há várias empresas que hoje já são ecossistemas, ou seja, valem muito mais pelo que está em torno delas.”

O cardápio é variado: open banking, open insurance, open health, open education. São nomes em inglês para cada setor que passará a lidar com a nova realidade, em que os clientes são donos dos seus dados e podem tomar mais decisões no ciclo de consumo.

Para as empresas, isso significa mais competição, mais inovação e toda uma nova gama de produtos. A ideia é que o foco mude de fato para quem presta o melhor serviço.

Problemas globais

De Campinas, no interior de São Paulo, a Sensedia vem crescendo assim: como a peça que permite aos negócios se abrirem – no jargão técnico, o mecanismo é conhecido como APIs (Interface de Programação de Aplicação, na tradução para português).

O mercado de integrações, como é chamado o segmento de atuação da brasileira, tem sua fatia mais relevante nos EUA, com 50% do participação mundial. Daí porque a abertura de novas operações no mercado americano agora eleve a jornada internacional da Sensedia a outro patamar.

“Somos uma empresa de tecnologia que concorre com fornecedores globais resolvendo problemas de grandes empresas no Brasil”, afirma Oliveira. “Percebemos que os problemas são globais e que vamos encontrar fora do País os mesmos concorrentes que aqui.”

O ponto de partida foi a América Latina, como tem sido regra na maior parte das techs brasileiras. Após se lançar no Peru e na Colômbia, a empresa avançou para o Reino Unido, Alemanha e outros europeus.

No processo de internacionalização, a Sensedia espera mais do que tudo aprender. Quer provar que sabe se impor no jogo global. Até por isso, a fórmula não inclui inicialmente aquisições.

O caminho é visto como um passo natural para uma eventual abertura de capital. Apesar do assédio de assessores na euforia do ano passado, a Sensedia preferiu manter a calma. A ideia de uma oferta inicial de ações (IPO) é entendida apenas como uma das hipóteses, para o médio prazo, não antes de três anos.

A entrada nos EUA pode fazer toda a diferença. Techs brasileiras como a VTEX, de serviços para e-commerce, têm encontrado espaço no mercado de capitais americano, uma tendência que, segundo analistas, veio para ficar, independentemente do baque dos papéis das brasileiras nesta virada de humor nas Bolsas dos EUA.

“Para as empresas que receberam investimentos de fundo e iniciaram operação nos EUA, a Bolsa é um passo natural”, afirma Carlos Lobo, sócio do Hughes Hubbard & Reed LLP. “Os próprios investidores, quando americanos, também pressionam para fazer a listagem nos EUA porque enxergam vantagens.”

A tese é ainda mais verdadeira quando se trata de um negócio de tecnologia. Uma referência óbvia é o caminho trilhado pela VTEX, com quem Oliveira diz trocar informações com frequência. A plataforma de serviços para e-commerce levantou US$ 361 milhões ao abrir capital na Bolsa de Nova York em meados do ano passado. A empresa também era investida do fundo Riverwood e conseguiu levar seus serviços ao mundo afora de forma bem-sucedida, o que ajudou a criar valor na hora de se vender aos investidores na Bolsa.

Um dos fatores que despertaram o interesse dos fundos e colocou a Sensedia na rota de um potencial IPO é o forte ritmo de crescimento. Até 2020, o avanço superava até 100% anualmente. No ano passado, ficou em 70% e as receitas chegaram a R$ 130 milhões. Para 2022, a expectativa é de incremento de 100% novamente.

Open banking

Uma das bandeiras que a empresa deve usar para se vender no exterior é a participação no processo brasileiro do open banking. A Sensedia foi uma das escolhidas para liderar o grupo de trabalho sobre o tema e se especializou no segmento. Agora também está ativamente envolvida no desenvolvimento do open insurance no País.

Com a experiência do mercado bancário no Brasil, a Sensedia acabou de se juntar a mais uma iniciativa parecida nos EUA. A brasileira ingressou no Financial Data Exchange (FDX), organização sem fins lucrativos que se dedica a unificar a indústria financeira num padrão técnico comum para compartilhamento dos dados financeiros. A iniciativa reúne mais de 200 entidades, entre bancos, fintechs e outros. Ao contrário do Brasil, os EUA não tem uma regulação como o open banking.
A Sensedia também atua em movimentos semelhantes em países como Colômbia, Alemanha e Reino Unido.

Embora veja grande potencial no mercado de integrações, Willer Marcondes, sócio da PwC Brasil, lembra que o processo de assimilação dos negócios “open” é longo. Um dos motivos é a dificuldade para padronizar os dados em diferentes setores – ele cita dificuldades especificamente em seguros e saúde. O outro é a capacidade de clientes e empresas conseguirem incorporar a nova prática.

O consultor observa que no caso dos bancos o processo já estava mais adiantado devido a anos de trabalho por parte do Banco Central para padronizar as informações. “Os bancos já vêm trabalhando para disponibilizar as APIs e agora é que estão começando a mergulhar para ver como criar valor para os clientes.”

Ainda que mais lenta, a tendência é irreversível e, segundo Marcondes, permitirá às empresas focar mais nos produtos e menos na distribuição. Ou seja, um banco vai poder dar mais atenção para a oferta de crédito e como entregar a melhor proposta da melhor maneira sem se preocupar tanto se a contratação será na agência, numa concessionária ou num banco digital.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast no dia 08/02/22, às 17h33.

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