Temor com dívida e política suspende R$ 37 bi em ofertas de ações e bonds

Temor com dívida e política suspende R$ 37 bi em ofertas de ações e bonds

Cynthia Decloedt e Fernanda Guimarães

01 de outubro de 2020 | 15h22

A disparada na dívida pública brasileira e os constantes embates entre o governo federal e o Congresso Nacional, os quais atrasam o andamento das reformas administrativa e tributária, esfriaram o ânimo das empresas e dos investidores nas operações de captação de recursos no mercado de capitais, seja por meio da oferta de ações ou títulos de dívida (bonds) no exterior. Nas duas últimas semanas, quase R$ 37 bilhões em captações via Bolsa e no mercado de bonds foram suspensas. No caso das externas, o passo atrás foi tomado já com as ofertas em andamento e diante da falta de um volume suficiente de investidores interessados.

O aumento da volatilidade no mercado brasileiro deverá colocar em compasso de espera uma série de aberturas de capital, que vinham em ritmo frenético na bolsa brasileira. Com a janela de captações mais estreito, um dos reflexos pode ser a postergação de investimentos, dado que muitas operações tinham esse propósito. Nas ofertas de bonds, o entusiasmo dos bancos que estruturam essas ofertas já não é o mesmo do início de setembro, quando se abre a segunda maior janela para emissões desses títulos no exterior, depois de janeiro. Se antes a expectativa dos especialistas ouvidos pelo Broadcast vinha sendo de que haveriam emissões acontecendo até outubro, agora as indicações são de que, provavelmente, essa fila praticamente se estancou.

Da semana passada para cá, foram três ofertas de bonds recolhidas: US$ 450 milhões da PetroRio, US$ 350 milhões da Atento, e outra emissão da FSBio, do setor de combustível derivado de milho que não revelou o montante, mas provavelmente não captaria abaixo de US$ 350 milhões, que é um mínimo para o mercado de bonds. Esses eventos afetaram também as ofertas de ações que estavam na mesa. Nessa semana a controlada da Cosan, a Compass, cancelou seu IPO, que movimentaria R$ 5 bilhões, no dia da sua precificação. Antes, a BR Distribuidora já havia jogado a tolha, enquanto a Caixa Seguridade, assim como o banco BR Partners, anunciaram a suspensão de sua oferta. Na soma, já são mais de R$ 30 bilhões em ofertas de ações canceladas. Na fila de mais de 50 companhias que aguardam para irem à bolsa, o que se houve é que parte deixará para depois, buscando o momento em que conseguirão um valor mais generoso por parte dos investidores.

A dose de pessimismo maior está se dando com as notícias domésticas, que acabaram por enterrar o humor de investidores locais, afastando também os estrangeiros e fazendo com que as empresas repensem o quanto é necessário levantar dinheiro agora. Ontem, por exemplo, o governo central anunciou um déficit primário de R$ 96,096 bilhões em agosto, o pior desempenho para o mês da série histórica. Nesse contexto, as sugestões que tem aparecido para colocar o Renda Brasil em pé, programa que deve substituir o Bolsa Família e com o qual o governo pretende manter pelo menos parte do fluxo dos recursos dos auxílio emergencial às famílias de menor renda, causam preocupação.

Mas o cenário externo tem se agravado de forma até então não prevista. As eleições norte-americanas, por exemplo, entraram antecipadamente no radar, a partir da morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, que trouxe a possibilidade de Donald Trump fazer uma nomeação conservadora e provocar desequilíbrio ideológico na Suprema Corte dos Estados Unidos, preservado há vários anos. Fora isso, o primeiro debate entre o republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden já deixou bem claro que o processo eleitoral mexerá com os mercados globais. Somam-se os temores relacionados à uma segunda onda da covid-19 e suas consequências na Europa e nos EUA que ingressam nos próximos meses no inverno, o que, muitos especialistas afirmam não estavam sendo embutidos nos preços.

Algumas ofertas ainda podem sair, mas com um mercado severamente mais seletivo. Ontem, por exemplo fez sua estreia na B3 o birô de crédito Boa Vista, com demanda, inclusive, de fundos estrangeiros que investem em empresas de tecnologia, apurou o Broadcast. A companhia, ainda, estreou em alta.

Na terça-feira, as Lojas Americanas fizeram sua estreia no mercado de bonds com absoluto sucesso, atraindo US$ 2,5 bilhões em demanda para a oferta de títulos de 10 anos. A empresa captou US$ 500 milhões diante do elevado número de interessados, acima dos US$ 350 milhões que pretendia inicialmente. Mas se trata de uma companhia que está em um setor de perspectivas promissoras no Brasil, apesar da pandemia, especialmente porque têm parte de sua estratégia de vendas focada no digital. Além disso, os investidores gostam de diversificar os segmentos que investem e não há outra varejista brasileira com bonds emitidos.

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