Tenda negocia com credores salto no endividamento

Tenda negocia com credores salto no endividamento

Circe Bonatelli

04 de junho de 2022 | 17h56

Tenda construção imobiliário prédio

Conjunto habitacional do Casa Verde e Amarela (antigo Minha Casa Minha Vida) erguido pela Tenda . Foto: Árvore Filmes/Tenda

 

Em dificuldades financeiras, a Tenda publicou nesta semana a convocação das assembleias de credores para negociar uma licença (waiver, no jargão de mercado) que permita à construtora manter um nível de endividamento bem mais alto do que o acertado quando pegou o dinheiro emprestado.

A Tenda é uma das maiores operadoras do Casa Verde e Amarela no País, mas sentiu o peso da disparada nos custos de construção. Só em 2021, houve um estouro de orçamentos de meio bilhão de reais, que levou a companhia a reduzir o ritmo de lançamentos, dilatar prazo de pagamento a fornecedores, cortar funcionários e aumentar o preço dos imóveis para recuperar as margens.

Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores, Marcos Pinheiro Filho, a expectativa é de que a proposta da empresa seja aprovada pelos credores, uma vez que os termos foram moldados conjuntamente. “O grupo foi super receptivo. Eles entenderam que a situação de endividamento mais alto é temporária”, afirmou, em entrevista exclusiva ao Broadcast. “Temos um conforto tácito de que reunimos um grupo suficientemente grande para aprovar a proposta. Só soltamos os avisos de convocação ao mercado depois de nos sentirmos confortáveis”.

O executivo disse que conseguiu reunir os 14 maiores credores, que respondem, juntos, por pouco mais de 85% do total da dívida da empresa – justamente o porcentual necessário para aprovação das medidas na assembleia. “Vamos atrás dos outros 15% também. Já começamos as conversas e não temos problema nenhum”. Os credores são principalmente gestores de recursos e fundos de investimento em renda fixa.

Ao longo dos últimos anos, a Tenda captou cerca de R$ 1 bilhão por meio de emissões de cinco séries de debêntures e um certificado de recebíveis imobiliários (CRIs). Nos termos do financiamento, a construtora se comprometia a manter uma alavancagem de até 15%, considerando a relação entre dívida corporativa (sem contar financiamento à produção) e o patrimônio líquido. Mas no balanço do primeiro trimestre, ela bateu em 33%, mais que o dobro do limite.

Se a situação se repetisse por um total de dois trimestres dentro de um período de 12 meses, seria configurada uma quebra de compromisso. Ou seja, a Tenda teria que pagar a dívida de uma vez só. Ou seja, um problemão, já que os vencimentos estavam previstos para 2024 a 2028.

“Este será um ano de prejuízo. Começamos o ano queimando caixa, óbvio que vamos reverter isso ao longo dos próximos meses. Mas é um ano de pressão sobre as métricas dos covenants (compromissos contratuais”, disse. “Se a proposta for aprovada, como achamos, eliminaremos o risco de antecipação de pagamentos”, disse o diretor financeiro.

O que está em jogo

A Tenda propôs aos credores a licença para que a sua alavancagem de 33% possa subir para até 80% em 2022, atingindo o pico de 85% no primeiro semestre de 2023. A partir daí, prevê redução para 80% e 75% no terceiro e quarto trimestres de 2023, respectivamente, recuando para até 50% na primeira metade de 2024 e até 30% no fim do mesmo ano.

Em troca, a construtora se dispõe a pagar um prêmio de 1,75% ao ano. Com isso, a remuneração dos credores que estava na faixa de CDI + 2,5% ao ano (dependendo de cada emissão de debênture), subirá para o patamar de CDI + 3,75% ao ano, aproximadamente. Esses títulos vinham sendo negociados no mercado secundário a cerca de CDI + 8% a 9% ao ano, refletindo uma percepção de risco maior de investidores em relação à empresa.

Além disso, as debêntures que antes eram do tipo quirografárias (sem garantia real) passarão a ter garantia de até 30% do saldo devedor, conferido pela empresa na forma de recebíveis de clientes e participação nos projetos imobiliários. “Os credores vão se tornar praticamente sócios dos nossos empreendimentos”, comparou Pinheiro Filho.

A Tenda também se comprometeu a não remunerar os seus acionistas – seja na forma de distribuição de dividendos, juros sobre capital próprio ou recompra de ações – até que a alavancagem volte para o patamar considerado normal para a empresa, de 15%.

Outro compromisso será reduzir as operações e preservar o fluxo de caixa. Nos próximos 12 meses, a construtora não poderá lançar mais de 15 mil unidades. Na prática, isso significa uma redução na ordem de 27% em suas operações, visto que em 2021 lançou 20,5 mil unidades.

O diretor financeiro ressaltou ao Broadcast que essas medidas já estavam em linha com a estratégia definida pela direção, que tem como foco preservar o caixa e melhorar as margens. A companhia tem aumentado o preço das suas unidades mesmo que isso implique em perda da velocidade de vendas. Em maio, os apartamentos foram vendidos a R$ 178 mil (contra R$ 162 mil no primeiro trimestre), o que proporcionará margem bruta acima de 30% para essas operações, estimou.

Com a redução das operações, a Tenda também passou a cortar funcionários da área administrativa. Nesta semana, foram pouco mais de 150 demissões, o equivalente a 10% a 15% do segmento, conforme apurou o Broadcast. O executivo não entrou nesse ponto.

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