‘Tiroteio’ entre Poderes pode fechar janela para R$ 30 bi em ofertas de ações

‘Tiroteio’ entre Poderes pode fechar janela para R$ 30 bi em ofertas de ações

Cynthia Decloedt e Altamiro Silva Junior

14 de setembro de 2021 | 16h20

Alguns banqueiros calculam agora que apenas três ou quatro IPOs chegarão a ser lançados Foto: Gabriela Biló / Estadão

A sinalização de trégua do presidente Jair Bolsonaro na quinta-feira (9), após o discurso contra o STF no dia 7 de Setembro, acalmou o mercado, mas as expectativas de instabilidade não mudaram, e gestores e banqueiros de investimento acreditam nas chances de fechamento da próxima janela de ofertas de ações. A escalada da crise política nas últimas semanas já vinha chamando a atenção, e as apostas eram, de toda a forma, de que esta seria uma janela semelhante ou pior do que a de abril, marcada por suspensões e cancelamentos, em meio ao segundo lockdown provocado pela pandemia.

Só na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) há 32 ofertas iniciais de ações (IPO, em inglês) de nomes como Coty, empresa de cosméticos; Lupo, de meias e artigos esportivos; rede de restaurantes Madero e Unigel, do setor petroquímico. Na estimativa de banqueiros de investimento, no melhor cenário, todas essas operações poderiam movimentar de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões entre setembro e novembro.

Alguns banqueiros calculam agora que apenas três ou quatro IPOs chegarão efetivamente a ser lançados. No melhor cenário, avalia o responsável pela área de investimento de um grande banco, 10 operações devem chegar à bolsa. Ele acaba de fazer uma série de visitas a investidores e sentiu que o apetite por ações piorou muito. Para sair, será preciso uma adaptação nos preços, diz ele.

O responsável pelo banco de investimento da XP, Pedro Mesquita, acredita que, diante do quadro atual, o mais provável é que as ofertas se resumam a R$ 10 bilhões ou R$ 20 bilhões. “O ambiente ainda é desafiador, mas o cenário de ruptura fica mais longe”, comentou Mesquita, em referência à bandeira branca acenada por Bolsonaro na tarde da quinta-feira e que fez os mercados rapidamente melhorarem.

“O mercado tende a ficar mais volátil com as eleições e deve haver espaço para um número mais limitado de ofertas”, prevê o executivo da XP. Mesquita, que vinha estimando um volume recorde de R$ 200 bilhões em ofertas este ano, agora já diz não haver como fazer projeções. “É muito difícil falar em números, mas temos janela para as boas empresas”, acrescenta.

Com o aumento da incerteza e dos ruídos em Brasília, em decorrência da antecipação do clima eleitoral, os investidores devem ficar mais cautelosos ao disparar as ordens de compra. “A seletividade vai ser maior, talvez tenhamos janela parecida com abril e maio, que foi mais difícil”, observou o responsável pelo banco de investimento do Santander, Gustavo Miranda. O executivo não acredita em um fechamento do mercado, mas que liquidez e preço, além das boas histórias, tendem a ser determinantes.

“Vemos preocupação dos investidores com a formação de suas carteiras em termos de qualidade e liquidez em um cenário volátil, e que, potencialmente, pode continuar assim”, comenta. Segundo Miranda, os gestores temem carregar posições que, numa situação de aumento da temperatura, os obriguem a vendas forçadas com grandes descontos para fazer frente a potenciais resgates. Vale lembrar que a tendência de alta do juro não contribuiu à medida que começa a levar uma parte dos investidores de volta para a renda fixa. O Bank of America destaca nesta sexta-feira que os fundos de ações tiveram saques nas últimas semanas, enquanto os de renda fixa registraram aportes.

Volatilidade alta

Do ponto de vista das empresas, Miranda diz que a tentativa deve ser de levar as operações adiante, para antecipar movimentos que podem ficar mais difíceis em 2022. “Em termos de número de clientes que se preparam ainda não ouvimos desistências, mesmo com a volatilidade, há interesse em se preparar”, afirma. “Ninguém quer passar 2022 com o caixa vazio, estão se preparando e ficando prontos”, acrescenta. Ele lembra ainda que um processo de IPO é longo e não faz sentido desarmar a operação, uma vez que o cenário tem mudado de forma constante.

Só na quinta-feira, o Ibovespa chegou a oscilar 3 mil pontos em questão de minutos, após a publicação da carta de pacificação de Bolsonaro. Caso a volatilidade dos últimos dias persista, não há precificação de IPO que resista, destaca um gestor que participou de diversas operações no primeiro semestre e preferiu não se identificar.

O analista de mercados emergentes do alemão Commerzbank Ulrich Leuchtmann observa que o apetite dos investidores já foi afetado na última semana, como pode ser observado no câmbio, pelo temor da escalada da crise institucional. Um embate maior entre os poderes pode paralisar a agenda de reformas e a economia, afetando os negócios, ressalta ele. Por isso, mesmo com o Banco Central devendo elevar mais os juros para conter a alta da inflação – movimento que em tese deveria tornar o Brasil mais atrativo para investidores estrangeiros -, o impacto na prática acaba sendo limitado.

E uma das razões é que o agravamento da crise política após o 7 de Setembro antecipou de vez o debate sobre as eleições de 2022. O risco agora é que o ambiente fique parecido com o de maio de 2017, marcado pelo escândalo da JBS envolvendo a gravação de uma conversa do então presidente Michel Temer e que paralisou os negócios no mercado, com a antecipação da corrida eleitoral  de 2018, destaca o coordenador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Armando Castelar.

Em vez de o governo se beneficiar dos efeitos positivos do avanço da vacinação na atividade econômica, é a política agora que vai ditar as expectativas para a economia e os negócios, o que é ruim, dada a distância ainda para a eleição presidencial, disse Castelar em evento do Estadão.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 10/09/2021 às 17h36.

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