Tragédia de Brumadinho forçou guinada operacional e de governança na Vale

Tragédia de Brumadinho forçou guinada operacional e de governança na Vale

Fernanda Guimarães e Mariana Durão

26 de janeiro de 2020 | 04h18

Foto: WILTON JUNIOR/ESTADAO

O rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), foi uma tragédia profunda para a natureza. Porém, foi apenas após o desastre de Brumadinho (MG), quatro anos depois e com a perda de muitas vidas, que a Vale mudou suas estruturas internas de maneira mais radical. Saíram de cena seus principais executivos, como o presidente Fabio Schvartsman, e o então diretor-executivo de Ferrosos, Peter Poppinga. O perfil do conselho também sofreu uma transformação: passaram-se a sentar nas cadeiras dos estrategistas mais especialistas da área. Era um pedido cobrado pelo mercado havia anos e que tinha se intensificado após o acidente da Samarco, joint-venture da Vale com a BHP Billinton.

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Ao contrário de seus principais concorrentes globais, como Rio Tinto, BHP e Anglo American, a Vale praticamente não tinha especialistas em seu conselho. “Quem precisa olhar risco é o conselho, mas o da Vale só sabia olhar risco de crédito e fraude”, disse uma fonte, próxima à companhia. Por muito tempo, o conselho da Vale teve muitos nomes provenientes do setor bancário e com conhecimento concentrado em finanças. O motivo: seus principais acionistas são Bradesco e Previ, fundo de pensão dos funcionários do banco do Brasil.

Após Brumadinho, contudo, a pressão ficou maior e o conselho mudou. Uma das alterações veio dos nomes indicados pela Previ, após a recente renúncia de Marcio Hamilton Ferreira e Marcelo Augusto Dutra Labuto, ambos vindos dos quadros do Banco do Brasil. Para seus postos, foram indicados Murilo César Passos e Roger Downey, executivos com experiência no setor de mineração.

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Com a mudança, a Vale tem hoje em seu colegiado seis membros ligados à indústria de mineração, de um total de 13 cadeiras. Há alguns anos eram apenas dois, sendo um dos nome por conta de indicação da sócia japonesa Mitsui.

A Vale afirma, no entanto, por meio de nota, que a composição do conselho sempre foi balanceada e diversa. Segundo a empresa, a experiência de seus conselheiros se complementava e abrangia diversos setores, como mineração, logística, sustentabilidade, finanças, gestão de risco, comunicação e governança corporativa.

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A diretora de ratings corporativos da agência de classificação em riscos S&P, Flavia Bedran, afirma que, ao contrário da tragédia em Mariana em 2015, a Vale, após Brumadinho, foi mais rápida na tomada de decisão. Para ela, as medidas adotadas no último ano, parecem ser mais eficientes. “É preciso, porém, mais tempo para termos uma visibilidade da eficiência de tudo o que foi implementado”, diz.

O evento de Brumadinho afetou o rating da Vale concedido pela S&P em dois degraus para baixo. Mesmo que a situação de liquidez da companhia seja muito melhor do que no primeiro semestre do ano passado, o risco envolvendo gestão e governança da mineradora ainda é elevado, muito por conta do pequeno intervalo entre as duas tragédias: Mariana e Brumadinho. Além disso, Flavia afirma que esse risco também será reduzido à medida que a Vale desative as barragens a montante, principalmente aquelas apontadas como de maior risco. “No momento, a empresa segue exposta à possibilidade de outra queda de barragem”, afirma. Apesar disso, ela diz que a empresa está hoje mais preparada a esse tipo de evento.

Já o diretor de ratings corporativos da Fitch, Phillip Wrenn, diz que preocupações adicionais em relação às questões ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG na sigla em inglês) são ligadas ao gerenciamento de resíduos e materiais perigosos, à complicada estrutura de grupo da empresa e ao aumento da resistência social a projetos novos e de expansão. “A capacidade da empresa de melhorar substancialmente a segurança de suas operações, aplicar práticas mais rígidas de governança corporativa e supervisionar melhor seu gerenciamento operacional e de riscos são cruciais para futuras atualizações de seu rating”, diz Wrenn. Segundo ele, as mudanças na gestão da Vale são um passo na direção certa para gerenciar efetivamente os riscos que envolvem suas operações de mineração, assim como o bem-estar de seus funcionários e comunidades locais. “Suas deficiências ESG impedem que a empresa seja classificada acima de BBB-“, informa.

Arrastão.

De dentro da companhia, a lama de Brumadinho derrubou os dois principais executivos da mineradora: em março, Schvartsman e Poppinga se afastaram da cúpula da Vale, acatando recomendação da força-tarefa que investiga as responsabilidades pelo rompimento da barragem de rejeitos. O comando então foi assumido interinamente por Eduardo Bartolomeo, responsável pela área de Metais Básicos, cujo mandato vai oficialmente até maio de 2021.

Schvartsman e Bartolomeo são descritos como “água e vinho”. O primeiro chegou à Vale com status de super executivo, pregando a parcimônia nos investimentos, recuperação de valor e uma política de dividendos agressiva. Descrito como “low profile” (discreto), o atual presidente executivo tem repetido três palavras como mantra: pessoas, segurança e reparação.

Schvartsman chegou à Vale em 2017 para efetivar a reestruturação societária que levará a Vale a se tornar uma empresa sem grupo de controle a partir de novembro. Também para melhorar o retorno ao acionista. Menos de dois anos depois, o lema adotado quando assumiu a companhia “Mariana nunca mais”, em referência ao desastre da Samarco, caiu por terra, com a barragem da mina Córrego do Feijão.

Brumadinho passou então a dominar a agenda corporativa da Vale. A mineradora tem um time de 400 pessoas – sendo 200 em Brumadinho – vinculadas à diretoria de Reparação e Desenvolvimento. Outro foco é reduzir riscos.

Em 2020, a Vale vai criar um Comitê de Auditoria, em paralelo ao conselho fiscal. Formado por especialistas independentes, ele vai dar aconselhamento preciso ao conselho de administração sobre as questões mais complexas de auditoria e financeiras.

Após o desastre de Brumadinho, a Vale criou uma diretoria executiva de Segurança e Excelência Operacional, voltada a fortalecer a governança em segurança e gestão de riscos. O diretor Carlos Medeiros e sua equipe têm autonomia para interromper qualquer operação, toda vez que seja necessário. Em dezembro em meio ao Vale Day, em Nova York, a companhia anunciou a paralisação das atividades da barragem de Laranjeiras para investigar uma trinca.

“Brumadinho teve um efeito avassalador na autoestima da Vale. Houve uma mudança cultural e operacional. As áreas de risco e controles internos ganharam novo padrão de importância. A responsável por barragens hoje não precisa pedir bênção a ninguém para parar uma operação”, diz uma fonte próxima à companhia. Bartolomeo é apontado como uma figura centrada e com muito conhecimento na operação. A percepção é de saber o que deve ser feito para a reconstrução da empresa.

Considerada fundamental na prevenção de acidentes, a reestruturação da governança levou o conselho a aprovar uma nova política de riscos e à criação de quatro comitês independentes. A ex-ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, coordena o Comitê Independente de Assessoramento Extraordinário de Apuração (CIAEA), que apoia o conselho da Vale na apuração de causas e responsabilidades pelo rompimento da Barragem I da mina Córrego do Feijão. Há ainda comitês como o de Segurança de Barragens e Reparação.

Os comitês ainda não emitiram o seu relatório final. De acordo com a Vale, a investigação conduzida pelo CIAEA está em andamento e os resultados obtidos serão registrados e apresentados ao Conselho de Administração e ao Conselho Fiscal, aos quais caberá a avaliação das medidas cabíveis. Em paralelo, há expectativas quanto à denúncia do Ministério Público, que pode acusar a própria Vale, ex-executivos e funcionários pelo desastre.

A Vale enfrenta ainda o desafio de eliminar as principais lacunas para compromissos ambientais, sociais e de governança corporativa, recuperando a confiança de investidores estrangeiros. A companhia anunciou um plano para isso até 2030. Após Brumadinho, a Vale entrou na lista negra de fundos estrangeiros como o The Church of England, que vendeu os papéis. A gestora holandesa Robeco, líder em investimentos com conceito ESG, incluiu a Vale numa lista de empresas nas quais tem restrições de investimento por problemas nessas áreas.

A Vale disse também, na nota, que está em seu plano estratégico, anunciado no fim do ano passado, “reparar integralmente as consequências do rompimento da barragem em Brumadinho (MG), tornar-se uma empresa mais segura e confiável, e estabelecer um novo pacto com a sociedade”.

Notícia publicada no Broadcast no dia 17/01/2020, às 17:36:05

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