Vários bancos digitais vão ter de sofrer ajustes, diz CEO do Next

Vários bancos digitais vão ter de sofrer ajustes, diz CEO do Next

Matheus Piovesana

30 de junho de 2022 | 15h15

Renato Ejnisman, CEO do Next   Foto: Germano Lüders

O ano de 2022 será de transformação para o Next, o maior dos bancos digitais do Bradesco, segundo o CEO da operação, Renato Ejnisman. A ideia é aumentar a quantidade e a venda de produtos aos clientes e também avançar no crédito, mas com disciplina. Tudo para que o Next avance no “pelotão da frente” dos bancos digitais, um segmento cada vez mais disputado.

“Vai ter espaço para cinco, dez grandes players digitais. Está se criando um pelotão de frente,  e o Next está, na minha opinião, nesse pelotão”, disse Ejnisman ao Olhar de Líder, do Broadcast. Há 15 anos no Bradesco, o executivo já comandou o Bradesco BBI e a área de alta renda do banco, e agora, encara o desafio de posicionar o grupo, via Next, na seara dos neobancos.

Segundo ele, o Next está monitorando semanalmente o comportamento da carteira de crédito, diante do cenário de alta da inflação e dos juros,  que cria uma “tempestade” perfeita para a qualidade do crédito. O Next não revela o tamanho da carteira de crédito, mas a maior parte se concentra em cartões, linha mais rentável, mas também mais arriscada.

O Bradesco já sinalizou que pode unir o Next ao Bitz e ao Digio, seus outros dois neobancos, a médio ou longo prazo, e buscar sócios para o Next. Ejnisman reiterou que não há pressa para abrir o capital ou buscar investidores. “Hoje, o grande diferencial nesse cenário em que o dinheiro está mais escasso é o acesso a capital. Estamos atrelados a um acionista que tem capital e disciplina de capital, e não temos pressa”, diz ele.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Broadcast – O mercado está menos aberto a histórias de alto crescimento, e embora o Next não seja uma empresa aberta, concorre com várias delas. Qual é a palavra de ordem neste ano?

Renato Ejnisman – Antes, havia acesso a capital de forma muito mais ampla, então uma série de players – não é o caso dos competidores que abriram capital, porque são empresas com um porte maior – estavam em uma estratégia quase que de capital com disponibilidade infinita. Vários vão ter de sofrer ajustes. Não acho que mudamos de visão. 2021 foi um ano muito focado em crescimento, porque tínhamos a visão de que esse é um negócio de escala. Saímos de 3,7 milhões de clientes para 10 milhões. Isso nos permitiu estar no pelotão da frente. Eu entrei no Next em março de 2021, e falava que precisávamos ter um crescimento sustentável. Houve um primeiro foco muito grande em crescer; hoje, é muito mais em monetizar. Esse monetizar tem um aspecto financeiro, para termos de fato um negócio saudável e sustentável, mas também acredito que tenha uma vertente de trabalhar com os clientes. À medida que queremos impactar a vida dos clientes, só conseguimos fazer isso através dos produtos. Precisamos ter produtos que ajudem os clientes a atingir seus sonhos e objetivos, e a partir disso, conseguimos uma maior monetização. Não foi exatamente uma mudança de rota, mas uma evolução natural.

Broadcast – Temos visto o próprio Bradesco falando que no digital, o momento agora é outro. Na monetização ou fidelização do cliente, em que frente isso vai avançar primeiro? Produtos ou crédito?

Ejnisman – Não tem uma bala de prata. Somos um dos maiores players em clientes e em oferta de produtos. Temos investimentos, conta corrente, seguros, um marketplace, uma plataforma de promoções e experiência. Não dá para falar que vamos pegar um só produto ou vertente e que isso vai nos fazer atingir os nossos objetivos. Esse ano é bastante importante, de transformação, e vamos aumentar a nossa base de produtos. Tem muita coisa que estamos vendo em seguros, e uma frente muito relevante é PJ. Hoje, não trabalhamos com pessoas jurídicas, e queremos fazer isso. Primeiro, é uma extensão natural do marketplace, à medida que temos uma série de varejistas que vendem no Next Shop. E segundo, achamos que tem uma oportunidade de transportar o que aprendemos com pessoas físicas. Temos também uma série de frentes estruturantes, que vão nos permitir ter um time to market (rapidez para lançar produtos) maior. Estamos pedindo uma licença de banco múltiplo, o que tem uma série de consequências.

Broadcast – Fintechs estrangeiras estão vindo para o Brasil. Como o Next enxerga a chegada desses concorrentes?

Ejnisman – Com muita naturalidade, esse é um mercado muito diferente do que era. Há cinco anos, o mercado financeiro era muito bem descrito por cinco grandes bancos: dois privados locais, dois locais detidos pelo governo e um estrangeiro. Hoje em dia, só em instituições que estão habilitadas no Pix, estamos falando de mais de 700. Exatamente por essas questões, pela mudança de legislação e de tecnologias, a barreira de entrada deixou de existir, ou passou a existir de outra forma. Começaram a aparecer uma série de players. O cenário final não vai ser de winner takes all (o vencedor leva tudo), ou winner takes most (vencedor leva a maior parte). Vai ter espaço para cinco, dez grandes players digitais. Está se criando um pelotão da frente, e o Next está, na minha opinião, neste pelotão. Nós cuidamos todos os dias para que esteja aí e comece, quem sabe, a ir mais para a linha da frente. Mas terão novos entrantes que vão tentar chegar nesse pelotão. Não vai ser fácil, porque tem alguns anos de avanço. Quando chega um estrangeiro, tem que entender o mercado brasileiro. Não é trivial à essa altura, mas levamos a sério todos os nossos competidores. Eu não sou daqueles que despreza competição, ao contrário. Eu acho que a competição vai aumentar, e não tem problema.

Broadcast – Como o Next enfrenta esses novos concorrentes?

Ejnisman – Não tem uma única resposta, mas acho que o ponto de partida é conhecer muito bem o nosso cliente, e eu acho que talvez a grande diferença dos novos players é que todos podem começar com quase que o luxo de pensar nos seus clientes. O Next não tem uma base de receitas enorme, em que um produto pode atrapalhar outro. Posso me dar ao luxo de pensar 100% do tempo no que é o melhor para o nosso cliente. Isso não é fácil, você tem que conhecer o seu cliente profundamente. O segundo diferencial é ter uma experiência realmente fantástica. Já foi o tempo em que a experiência poderia ser ok, porque ela não encanta, e o cliente, em um clique, consegue abrir uma conta no competidor, e se ele gostar da experiência, não volta.

Broadcast – Quando o mercado olha para as iniciativas digitais dos grandes bancos, vê uma forma de atingir um público desbancarizado, jovem e de menor renda. Esse é o público do Next?

Ejnisman – Temos a nossa base de clientes e o nosso público-alvo. Essa base não é muito diferente dos demais bancos digitais. É um público que tende a ser mais jovem, principalmente se comparado a um banco incumbente, e de mais baixa renda. Os jovens, talvez, porque não tiveram esse cacoete de ir em agência, lidar com um grande banco; e a pessoa de baixa renda porque o grande banco talvez não olhasse para esse público, porque o custo de servir era mais alto. Todo esse cenário mudou. Do lado dos grandes bancos, a maneira foi investir em tecnologia, para que eles tenham uma oferta digital, o que reduz custo. No caso das plataformas, principalmente do Next, o nosso grande aprendizado foi entender que existe uma gama muito grande de pessoas que tendem a ter uma jornada digital. O que eu brinco é: nosso público-alvo hoje é o Brasil.

Broadcast – No crédito, temos ouvido que os bancos estão mais cautelosos, e no caso dos grandes bancos, em especial com o canal digital. Vocês estão mais cautelosos? Como este momento se relaciona com a ideia de aumentar a rentabilização?

Ejnisman – Vivemos uma situação de crédito peculiar. Até julho do ano passado, o Next não tinha uma política de crédito própria, era uma política do Bradesco adaptada para o Next. Essencialmente, não dávamos tanto crédito quanto poderíamos. Nossa primeira política começou em julho de 2021, e já estamos na quinta versão. Na maior parte dos bancos incumbentes, se o cenário estiver normal, como até pouco tempo atrás, é muito difícil fazer ajustes com menos de seis meses, porque você dá crédito e tem que esperar para ver o comportamento. O que fizemos foi estabelecer uma dinâmica digital, onde fazemos e testamos no menor tempo possível. Com isso, conseguimos crescer a nossa carteira, em relação a antes de julho, quase quatro vezes. E durante muito tempo, vimos uma queda na inadimplência, porque com um modelo focado no público do Next, conseguimos aumentar a concessão para o melhor tomador. Além disso, mudamos uma série de questões na cobrança, não só quando o cliente fica devedor. Boa parte da nossa carteira é de cartão de crédito. Às vezes, fazíamos uma comunicação de que a fatura iria vencer em x dias. Hoje nós vamos avisando, para o cliente se planejar. Mas nessas últimas semanas, estamos de olho se essa tendência vira, porque esse cenário, com um aumento de inflação e da Selic, traz um encarecimento da vida dos nossos clientes, e do serviço da dívida.

Broadcast – A princípio, o cenário continua o mesmo?

Ejnisman – Estamos fazendo um monitoramento semanal da nossa carteira. É uma cabeça muito digital, não temos medo de fazer ajustes se forem necessários.

Broadcast – O Bradesco tem bebido da fonte do Next?

Ejnisman – Quando o Next foi lançado, tinha acabado de ser entregue a legislação que permitia a conta digital. Até então havia uma regra em que a pessoa, para abrir uma conta corrente, precisava ir a uma agência. Essa legislação mudou em 2017, e nós desenvolvemos uma jornada de abertura de conta e uma camada de segurança, e muito disso foi importado pelo Bradesco. Hoje, a abertura digital das contas do Bradesco tem muito do que foi aprendido no Next. No caso específico da carteira de crédito, sem dúvida, é uma via de duas mãos. Temos uma dinâmica muito boa com o pessoal do crédito do Bradesco, e eles acompanham algumas das nossas iniciativas. Eu não tenho dúvida de que isso vai fomentar, e tem fomentado, uma série de mudanças na forma de conceder crédito do Bradesco.

Broadcast – Depois da Aarin, o Next tem outras aquisições no radar? São complementares?

Ejnisman – Temos. Fizemos dois movimentos. O primeiro foi essencialmente a compra da carteira de clientes pessoa física do BS2. Eu e o Marcos (Magalhães), CEO deles, nos conhecíamos, foi um papo muito fácil. Como eles estavam querendo sair desse negócio e para nós fazia sentido, foi um ganha-ganha. Nesse negócio da Aarin, há uma série de elementos de invisible banking, e eles vão dar uma série de soluções quando tivermos a oferta de pessoa jurídica. Mas estamos olhando outras frentes, temos uma série de direcionadores estratégicos. Alguns deles são bem diversos, porque temos uma frente de atuação diversa. Então temos de players que complementam nossa oferta a players que tragam capacidades. E novos mercados também.

Broadcast – Mercados novos significam internacionalização?

Ejnisman – A internacionalização seria interessante, é algo que sempre faz coçar a cabeça. O próprio Octavio (de Lazari Junior, presidente do Bradesco) já mencionou. Não é tão difícil replicar esse modelo. É muito difícil falar de uma rede de varejo tradicional, mas aqui é muito mais uma questão de pegar o framework que já temos e adaptar a questões de legislação, culturais. Faz muito sentido, mas temos uma oportunidade tão grande aqui no Brasil que apesar de estar sempre no radar, por enquanto resolvemos não apertar o botão.

Broadcast – Nesse horizonte há um IPO no futuro? Se sim, quando?

Ejnisman – No IPO, vejo o seguinte: o Bradesco, como único acionista do Next, está com uma cabeça muito boa. Eles entendem que esse é um negócio que hoje consome capital. Ele não vai deixar de consumir capital no curto prazo. Vamos virar breakeven (atingir o equilíbrio) em alguns anos, está no nosso plano de negócio. Trazer um sócio, seja mercado, seja um investidor financeiro, seja um investidor estratégico, é algo que pode fazer sentido, seja para ajudar a pagar essa conta, seja para reduzir o risco ou para trazer um conjunto de conhecimentos. Existe uma flexibilidade, do lado do Bradesco, de fazer o que fizer mais sentido, seja um IPO, um investidor ou não fazer nada. Hoje, o grande diferencial nesse cenário em que o dinheiro está mais escasso é o acesso a capital. Estamos atrelados a um acionista que tem capital e disciplina de capital, e não temos pressa. O que existe é uma visão muito clara de que se fizer sentido, o Next pode abrir capital ou atrair um sócio.

 

Esta entrevista foi publicada no Broadcast  no dia 23/06/22, às 12h26

O Broadcast+ é uma plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.

Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.