Votorantim se prepara para entrar em saúde, infraestrutura e saneamento

Votorantim se prepara para entrar em saúde, infraestrutura e saneamento

Wagner Gomes

17 de novembro de 2021 | 05h10

Fábrica da Votorantim Cimentos, em Rio Branco do Sul (PR); grupo quer se diversificar ainda mais  Foto: Sérgio Zacchi/ Votorantim

Com um caixa robusto e uma alavancagem abaixo de uma vez, a Votorantim S.A. se prepara para entrar em novos segmentos no ano que vem. A holding, que já tem sob seu guarda-chuva empresas voltadas ao setor de alumínio, cimento, mineração e um banco, vai investir em 2022 no setor de saúde (laboratórios, hospitais a farmacêuticas), infraestrutura e saneamento, diz Sergio Malacrida, diretor-financeiro da Votorantim S.A., em entrevista exclusiva ao Broadcast.

“Prontidão e dinheiro nós temos. Estamos com a alavancagem baixa, somos investment grade e temos capacidade de nos financiarmos. A questão hoje é alocação de capital e estamos olhando para a saúde, infraestrutura e saneamento no Brasil”, afirma, acrescentando que a empresa também tem apetite para a área imobiliária.

O foco, segundo ele, é investir em escritórios no Brasil e no exterior. Na semana passada, a Altre, braço de investimentos imobiliários do Grupo Votorantim, fechou a compra de 50% do Atlas Office Park, conjunto de edifícios corporativos em frente ao Parque Villa Lobos, na capital paulista. A Altre tinha 50% do imóvel e agora passa a ser a proprietária integral. A compra de metade do Atlas Office Park saiu por R$ 200 milhões, como informou a Coluna do Broadcast.

“No exterior, devemos abrir um escritório em Nova York, já estamos vendo alternativas. Ainda este ano teremos um endereço. A ideia é ter um time por lá e começar a prospectar negócios”, comenta.

A possibilidade de um IPO, a oferta inicial de ações na sigla em inglês, até existe, mas Malacrida lembra que 2022 será ano de eleições, com mais turbulência e ainda mais cautela no mercado de capitais.

“Pode ser que abra alguma janela, estamos de prontidão, mas 2022 é ano de eleição e de cautela. Desde 2013, a Votorantim Cimentos tem trabalhado com a possibilidade de fazer o IPO, então a empresa está pronta, está madura, tem governança e atende a todos os quesitos. Mas tem que ter uma razão pra fazer”, ressalta.

Também já houve tentativa frustrada de IPO do BV, ex-Banco Votorantim, que cancelou em abril deste ano pedido de registro de companhia aberta e da oferta pública de units citando a conjuntura atual de mercado. Malacrida afirma que a Votorantim Cimentos não planeja um IPO porque está neste momento mais preocupada em aumentar a sua competitividade e investir em ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa).

“A VC fez várias negociações com caixa próprio, mas se aparecerem oportunidades maiores e a janela de mercado estiver aberta, a gente faz o IPO. O que eu posso dizer é que a empresa está pronta”, diz.

Crise hídrica

A crise hídrica está no radar do grupo Votorantim para o ano que vem, mas a falta de água deve afetar mais os preços do que a produção, segundo o diretor financeiro da companhia. “De fato, 2021 não teve racionamento, apesar de os preços ficarem altíssimos durante todo o ano. As chuvas vieram agora. Acho que para 2022 há um baixo risco de racionamento, mas continuamos tendo a chance de vermos preços altos”, afirma.

Isso significa, segundo o executivo, pressão sobre os custos. A pergunta que fica, afirma, é se será possível repassar aos preços a alta dos custos. “Me parece que há uma inflação generalizada, não se sabe se é pontual ou cíclica. Se vai ou não arrefecer. Se for um movimento de inflação generalizada com as commodities em um preço alto, pode até nos beneficiar porque exportamos muito”, diz.

Preços mais altos

Ontem, 16, a Votorantim informou que o seu lucro líquido no terceiro trimestre foi de R$ 1,1 bilhão. Um aumento de 13 vezes se comparado ao mesmo período do ano anterior. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortizações) ajustado totalizou R$ 3,3 bilhões, 21% a mais no comparativo com o terceiro trimestre de 2020. A receita líquida consolidada chegou a R$ 14 bilhões, um aumento de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior. A alavancagem, medida pela relação dívida líquida/Ebitda ajustado, atingiu 0,87x.

“O bom desempenho da Votorantim foi impulsionado por maiores preços das commodities e por um aumento no volume de vendas, principalmente na Votorantim Cimentos, na CBA e na Nexa Resources”, diz Malacrida.

Segundo ele, esse resultado pavimenta um caminho virtuoso para 2022. Ele lembra que, recentemente, a Votorantim Energia e o fundo canadense CPP Investments (Canada Pension Plan) anunciaram a intenção de consolidar seus ativos de energia para criar uma empresa líder no setor, que terá ações listadas no Novo Mercado da B3. Quando concretizada a reorganização, a nova empresa terá receita líquida estimada em R$ 5,8 bilhões, com base nos resultados de 2020, e uma matriz energética diversificada com capacidade instalada de 3,3 GW, sendo 2,3 GW em fontes hidrelétricas e 1,0 GW em eólicas. A nova empresa também será uma das maiores comercializadoras de energia do País, com mais de 2,6 GW médios comercializados no ano de 2020, de acordo com a Votorantim.

Votorantim Cimentos

Na Votorantim Cimentos, empresa de materiais de construção e soluções sustentáveis, o lucro líquido foi de R$ 1,1 bilhão no terceiro trimestre de 2021, crescimento de 57% em relação ao mesmo período do ano passado. O Ebitda ajustado atingiu R$ 1,7 bilhão, crescimento de 8% em relação ao mesmo período de 2020. Marcelo Castelli, CEO Global da Votorantim Cimentos, observa que o resultado melhorou, mas a margem diminuiu.

“Vendemos mais, tivemos receita maior, mas os custos corroeram as margens. A pressão de custos foi maior do que a possibilidade de repasse de preços aos mercados. Repassamos preços, mas não o suficiente para garantir as nossas margens, que diminuíram. Resultado foi bom, mas impactado pela inflação de custos”, afirma.

A estrutura de custos da Votorantim Cimentos depende de dois fatores: custos dos combustíveis para a geração de energia térmica e  custo da energia elétrica. O que acontece é que os preços das commodities acarretam uma inflação direta nos combustíveis, diz o executivo. Segundo ele, a questão hídrica no Brasil também elevou os custos de energia elétrica no período.

O diretor financeiro global da Votorantim Cimentos, Osvaldo Ayres Filho, afirma que em todos os países que a companhia opera houve uma substancial inflação de custos, inclusive no Brasil. “Há uma dinâmica local de inflação em todos os países. No Brasil, a inflação interna de custos já ultrapassa 30% neste ano. Viemos nessa onda de repasse da inflação nos preços. Porém, as nossas margens comprimiram”, comenta.

Segundo ele, nos primeiros 9 meses do ano, as margens da empresa evoluíram 5 pontos porcentuais. Os números absolutos subiram porque a atividade foi maior. Daqui para a frente, o cenário é de incerteza em relação à capacidade de repasse.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 16/11/21, às 11h18.

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