XP e Itaú disputam cliente de alta renda em meio à pandemia

Por Aline Bronzati, Cynthia Decloedt e Fernanda Guimarães

29 de abril de 2020 | 05h01

Foto: Matheus Lombardi/Divulgação

São Paulo, 29/04/2020 – Incomodada com limitações enfrentadas por clientes de alta renda para realizar a portabilidade de investimentos para sua plataforma durante a pandemia do covid-19, a XP acabou batendo de frente com seu maior acionista, o Itaú Unibanco. O confronto ocorre ainda que a orientação interna seja para que ambos mantenham uma relação harmoniosa. Em meio à pandemia, reclamações têm chegado ao Banco Central principalmente contra o Itaú, que estaria exigindo a presença de seus clientes em agências para realizar as transferências de recursos que ultrapassem limites diários. No caso dos clientes Personnalité, o máximo autorizado, considerando questões de segurança, são R$ 300 mil.

Pontual. O Itaú alega que, recentemente, aumentou os limites diários de transferência em seus canais digitais para todos os segmentos. No caso do Personnalité, que concentra a alta renda, esse valor é condizente com o perfil dos clientes. Além disso, afirma que o problema relatado pela XP é pontual. Na última semana, conforme o banco, somente quatro operações de um universo superior a 390 mil transferências exigiram o comparecimento do cliente à agência por questões de segurança. O banco diz também que, de qualquer forma, os clientes podem solicitar eventuais ajustes nos limites diretamente aos gerentes, usando os canais de atendimento.

Não satisfeita. No entanto, a maior corretora do País levou o caso para a Ancord – associação que representa as corretoras – e à Febraban – Federação dos Bancos. A XP não menciona o Itaú, mas mensagens trocadas com gerentes comprovam casos de clientes do Personnalité. Por sua vez, a Febraban informou que os bancos flexibilizaram os limites de transferências eletrônicas (TED) de mesma titularidade para as corretoras. Afirmou ainda, em documento obtido pela Coluna, que não é mais necessário o comparecimento físico às agências. Mas o fato é que as reclamações seguem se acumulando.

Canal direto. A XP também tenta tranquilizar os agentes autônomos plugados à sua plataforma. Em comunicado a esses profissionais, a corretora afirma que acompanha o “crescimento das demandas relacionadas à realização de transferências de recursos em razão dos limites diários de TEDs impostos pelos bancos”. Também convida os clientes afetados a reclamarem junto ao Banco Central, disponibilizando, inclusive, o site do canal direto com a autoridade monetária.

Ônus. O imbróglio soma-se ao impacto que a XP começa a ter na receita por conta da pandemia e a queda nos investimentos. A corretora espera que entradas líquidas diminuam em função da pandemia do coronavírus. Um dos motivos, segundo o diretor financeiro da XP, Bruno Constantino, em recente conversa com o mercado, é justamente as restrições de transferências. Em março, o fluxo de entrada de recursos esteve dentro da média mensal, de cerca de R$ 12 bilhões. Mas em abril, segundo ele, já era possível perceber queda.

Bônus. Paralelamente, a casa tem defendido que a entrada de novos clientes vindos dos bancos, num momento de crise e quando normalmente são abandonados pelos gerentes, é uma de suas vantagens. A atenção está nos R$ 4 trilhões que os brasileiros ainda têm investidos nos grandes bancos – concentração que a XP trabalha para diminuir.

Efeito corona. Como efeito da profunda desaceleração nos preços dos ativos em março, a XP registrou queda de 10,5% nos ativos sob custódia no primeiro trimestre em relação ao fim de 2019, para R$ 366 bilhões. As receitas brutas somavam R$ 1,6 bilhão ao fim do período e, embora representem aumento de 60% na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, mostravam queda de 11% frente ao quarto trimestre. Procurada, a XP não comentou.

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