Zro Bank quer substituir agências de câmbio e mira R$ 3 bi em conversões

Zro Bank quer substituir agências de câmbio e mira R$ 3 bi em conversões

André Ítalo Rocha

09 de outubro de 2020 | 05h00

A fintech nasceu em Recife e é o primeiro banco digital do Nordeste. Foto: Bernardo Barbosa/Zro Bank

Três sócios de uma rede com cerca de 200 agências de câmbio espalhadas pelo Brasil querem acabar com o próprio negócio. Donos da B&T, maior corretora não ligada a um banco do País, eles acham que logo não fará mais sentido alguém sair de casa para trocar reais por dólar, euro ou outras moedas. Decidiram, então, com mais um sócio e outros dois investidores, lançar o Zro Bank, aplicativo que promete substituir as tradicionais agências, ao permitir que lá mesmo as pessoas possam comprar e vender moedas, ter contas internacionais, fazer transferências e pagamentos para o exterior e operar bitcoins e outras criptomoedas.

“É como eu fosse dono de uma frota de táxi e lá atrás decidisse criar o 99 ou o Easy. Se alguém tiver que destruir o nosso negócio, que sejamos nós mesmos”, afirma Edisio Pereira Neto, CEO do Zro Bank e um dos seis que apostam na empreitada. Ao todo, são três fundadores – ele, Marcos Carnut e Sérgio Massa – e mais três investidores: Juliana Assad, Tulio Santos e Vivian Portella, dos quais os dois últimos e o CEO do Zro Bank são os que também são sócios na B&T.

Pereira Neto reconhece que a mudança de hábito das pessoas não será de uma hora para outra, mas acredita que não adianta ir contra a tendência de um mundo cada vez mais digital. “É um bom chute pensar que até 2030 não haverá mais casas de câmbio e acho que por volta de 2025 ou 2026 o volume (de conversões de moedas) será tão baixo que acabará inviabilizando muitas delas”, prevê o executivo.

Lançado há um mês, a fintech pretende disponibilizar os principais serviços a partir de novembro. É quando os clientes poderão comprar e vender moedas e fazer pagamentos e transferências para o exterior. A conta internacional chega em fevereiro de 2021.

Por enquanto, o aplicativo oferece serviços bancários, tendo o banco Topázio por trás, com uma conta digital que permite pagamentos de boletos, transferências via TED e DOC e transferências por chat (integrado ao Telegram). Também é possível ter um cartão de débito e operar bitcoins. Todos os serviços, os que já existem e o que serão lançados, não terão nenhuma cobrança de tarifa. Daí o nome “Zro”.

Outras criptomoedas, além do bitcoin, e até o ouro também estão nos planos. “Já temos diversos países anunciando suas criptomoedas, como China, Estados Unidos e até o Brasil que montou um grupo de trabalho para isso, além de grandes empresas, como Facebook e Mc Donald’s que também estão testando as suas. As pessoas irão precisar de plataformas para transacionar e trocar moedas tradicionais e digitais e o Zro Bank nasceu com isso pronto”, afirma o CEO.

Hoje, a fintech tem 10 mil contas criadas. A expectativa é que haja um salto para 100 mil até o fim do ano, após o lançamento dos principais serviços. A meta é que os clientes convertam R$ 2 bilhões no primeiro ano e R$ 3 bilhões no terceiro ano, quando o Zro Bank espera ter já 500 mil contas cadastradas. Já superaria, por exemplo, o que a B&T converteu para pessoas físicas em 2019, em torno de R$ 2,5 bilhões, de um total de R$ 35 bilhões para qualquer tipo de cliente, em posição própria e intermediada.

O CEO do Zro Bank ressalta que o aplicativo não será restrito a pessoas de alta renda, focado naqueles que conseguem viajar para o exterior, mas também será destinado a clientes de renda mais baixa, em um esforço para bancarizá-los. “Temos 50 milhões de desbancarizados no Brasil e boa parte é formada por imigrantes, que vieram de países como Argentina, Venezuela, Bolívia. Essas pessoas não têm conta em banco e estaremos oferecendo a elas um aplicativo que lhes permitirá ter um banco gratuito e enviar dinheiro ao exterior”, afirma Pereira Neto.

Segundo o executivo, o aplicativo, por ter custos menores que uma corretora tradicional, poderá oferecer cotações mais baratas. A margem de lucro, que em uma agência de cambio costuma ser superior a 5%, em um banco digital pode ser inferior a 2%, compara o CEO.

“O dólar da casa de câmbio (turismo) é mais caro que o dólar do jornal (à vista) porque a corretora paga uma passagem de avião para trazê-lo dos Estados Unidos. O papel-moeda chega a uma agência em São Paulo, por exemplo, para ser entregue ao cliente, que viaja ao exterior e dá outra carona ao papel. Toda essa logística embute um custo, que se soma ao custo de aluguel da loja e dos funcionários”, explica.

O Zro Bank, que nasceu em Recife e com isso se tornou o primeiro banco digital do Nordeste, tem a ambição de se arriscar fora do Brasil também e virar um aplicativo internacional. Com a assessoria da Deloitte, tem conversado com fundos de investimentos para atrair uma primeira rodada de aportes. “Até o fim do ano devemos ter algo”, espera Pereira Neto.

No mercado de câmbio, iniciativas como a do Zro são vistas como parte de uma evolução natural do setor financeiro, cada vez mais digitalizado. A pandemia, que fez as pessoas ficarem em casa, acentuou esse processo, ressalta Kelly Massaro, presidente executiva da Associação Brasileira de Câmbio (Abracam). “As corretoras precisaram se reinventar, para dar continuidade aos negócios à distância, e nada melhor que essas plataformas e formatos de tecnologia para atender à demanda dos clientes, não só no turismo, mas também para quem faz intermediação, remessas internacionais”, afirma.

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