As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mais ou menos inflação?

Iuri Dantas

04 de junho de 2014 | 17h29

Por um lado a retirada do IOF sobre empréstimos, anunciada hoje pelo Ministério da Fazenda, facilita a entrada de dólares no País. Por outro, estimula o endividamento de curto prazo de empresas e bancos em moeda estrangeira.

A resposta à pergunta inicial, portanto, depende do rumo da moeda norte-americana. E  Como em todas as demais situações, prever o desempenho da cotação tem muito de futurologia. É possível, por outro lado, ter um cenário minimamente factível em mente.

Lenta e tibiamente a economia mundial começa a adotar um novo normal, com um horizonte de baixo crescimento, em contraponto aos anos que se convencionaram chamar de grande recessão. O crédito estancou em 2008, com a quebra do Lehman Brothers e demorou a por os pés no chão novamente, enquanto se discutia o volume de papéis podres em bancos, seguradoras, corretoras e empresas. Os governos nacionais resistiram o quando puderam, mas terminaram por vender títulos de dívida para comprar os papéis duvidosos e limpar os balanços. Feito isso, o mercado desconfiou se os países tinham dinheiro para honrar os títulos que foram vendidos e cobraram um preço para lá de salgado, em especial na Europa.
Isso tudo parece ter ficado para trás. Noves fora uma hecatombe de estouro de bolha imobiliária chinesa, a economia mundial indica que o pior ficou para trás. E o novo normal prevê a retomada de juros a patamares racionais, em vez das taxas abaixo de 1% nos Estados Unidos, Europa e Japão.
É este o momento em que o governo brasileiro barateia maior endividamento em dólar no médio prazo. O precipício continua ali na frente e a medida anunciada hoje não acelera o pais em direção ao abismo. Mas tampouco nos afasta do buraco.
Permitir que bancos aumentem sua oferta de crédito via empréstimos internacionais mais baratos que as taxas de juros oferecidas aqui tem dois aspectos relevantes. Primeiro, vai na contramão do aumento de juros promovido pelo Banco Central. Dizem que boicotar o Copom nunca termina bem.
Em segundo lugar, estimula empresas financeiras e capitalistas a pegar dinheiro pagando juros baixos lá fora e eventualmente injetar essa grana em títulos públicos, que pagam juros maiores, em linha com a Selic. Emprestar para o sujeito que quer abrir empresa pagando 40%-50% do que produz na forma de imposto não representa o melhor negocio neste cenário, melhor encostar no Tesouro.
A intenção do governo, ao retirar a trava de IOF, é válida. Quanto menos controle estatal, maiores as chances de a taxa refletir os fundamentos da economia. Brasília teme o impacto forte do dólar na inflação, já que o País importa de fertilizante a videogame, passando por parafuso e máquinas para a indústria.
O timing da medida, no entanto, inspira cuidados. O mar não está pra peixe e o Ministério da Fazenda convida a comprar isca no exterior.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.