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A crise acabou ou o Banco Central mudou?

Iuri Dantas

14 de agosto de 2013 | 02h11

O Banco Central do Brasil acumula avanços importantíssimos e inegáveis nos últimos anos, em especial no que tange a transparência. É real o esforço da instituição para dar respostas pela Lei de Acesso à Informação. A forma de atuar dos sisudos e supostamente sérios diretores ainda está longe da abertura de alguns ministros de Estado, mas compreende-se. A instituição é pesada. Move-se lentamente, é verdade. Peca por não regular o mercado de cartões de crédito. No fundo, não há sequer a desculpa da tradição para justificar o ritmo lento, afinal não chegou a cinco décadas de funcionamento.

Se os 46 anos anteriores do BC foram de uma animação tremenda, com crises internacionais e hiperinflação, toda essa história fica no chinelo diante do que aconteceu nos últimos 32 meses.  Desde 2011, o BC é presidido por Alexandre Tombini. Tarefa difícil essa, de conduzir a economia em meio aos devaneios da equipe de Guido Mantega, no meio da maior crise financeira em décadas.

Tombini deixou claro desde o início que custaria muito ao País derrubar a inflação para 4,5%, a meta definida pelo governo. Não disse, mas deixou subentendido: para deixar a inflação comportadinha, o BC teria que aumentar tanto os juros que provocaria desemprego e menor crescimento econômico. Ninguém discorda, são custos relevantes. Tombini prometeu entregar a inflação na meta em 2012. Depois, em 2013.

No meio do caminho, justificou o corte dos juros com a inflação acima da meta citando a hecatombe financeira internacional. Os ventos da crise seriam “desinflacionários”. Começava ali um capítulo da história do BC tão singular quanto a inspiração para o formato do prédio sede, em Brasília.

A equipe de Tombini sentiu-se tão confortável que levou a taxa básica de juros para a mínima recorde de 7,25% em outubro. A meta de inflação, afinal de contas, tem uma margem de tolerância de 2 pontos porcentuais, justamente para acomodar choques.

Em janeiro, tudo mudou. O BC se disse surpreso com a força da inflação. Sob uma saraivada de críticas, voltou a aumentar os juros. Passou à ofensiva: em entrevista ao Estado, Tombini vaticinou que o governo precisava retomar a confiança de empresários, investidores e… bem, todo mundo depois de dois anos de governo Dilma Rousseff.

Ontem, a autarquia responsável por manter o valor do dinheiro surpreendeu. O diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton, foi a Belém e soltou o verbo. Disse que a inflação de 0,03% de julho foi um ponto fora da curva. Até aí, tudo bem. Mas o cearense fez um diagnóstico desconcertante sobre o resto do ano. Disse que a inflação baixa no Brasil é “exceção e não a regra”. E que os preços têm comportamento de “V”. Caem no início do ano. Sobem no restante.

Uai. Se é assim, por que o BC se surpreendeu com a força da inflação em janeiro? Por que cortou os juros para o menor valor da história em outubro? Por que disse a quem quisesse ouvir que a inflação voltaria para a meta neste ano?

Muitos especialistas criticaram a falta de independência do BC no governo Dilma. Acusavam Tombini e seus pares de ignorar as pressões inflacionárias para permitir maior crescimento da economia. Será? A intenção poderia ser até nobre, mas algumas más línguas dizem que até Guido Mantega sabe que não se brinca com inflação. Apesar dos pesares, ele despacha como ministro da Fazenda.

O mercado entendeu o recado de Carlos Hamilton como um sinal de maior aperto nos juros. Há analista por aí prevendo que a economia pode crescer menos de 2% neste ano. A inflação continua acima de 6%. O problema é que a inflação de hoje não nasceu ontem. Vem de algum tempo. Meses a fio. Por mais que a diretoria do Banco Central se veja como infalível, talvez seja o caso de coçar a cabeça e forçar uma autocrítica. Os diretores passaram 24 meses convencendo o País de que a inflação caminhava bem. Negavam interferência política em seu trabalho.

Tombini subiu menos os juros há dois anos para evitar um preço amargo ao País. Disse e repetiu isso. Ainda não admitiu que talvez fosse melhor segurar a empolgação no ano passado. Afinal, se a inflação sobe em 2013 é porque o BC pecou em 2012, certo?

Oferecer 7,25% de juros para o discurso presidencial é bacana, todo mundo entende. Mas fica bem chato obrigar o País a pagar uma fatura mais alta meses depois. Tem gente por aí que acreditou nos ventos “desinflacionários”.

A julgar pelo que diz a cúpula da autarquia, não se sabe se foi a crise que acabou ou o Banco Central que mudou.

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Em tempo: a inspiração para a arquitetura do prédio sede saiu da Cruz de Cristo, usada nos dobrões do Império de 1725. Outras curiosidades aqui.

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