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A força do defunto

Iuri Dantas

05 de fevereiro de 2014 | 22h47

Foto: Dida Sampaio/Estadão.

Gigante pela própria natureza, pelo enorme volume de gastos, pela trilionária arrecadação de impostos e por suas titãs estatais, o governo brasileiro flexionou os músculos econômicos da União como nunca, desde a derrocada do banco de investimentos Lehman Brothers, em outubro de 2008. Se não acelerou o PIB, como prometiam, as iniciativas foram suficientes para carimbar o País como adepto do capitalismo de Estado. Ainda hoje há quem aposte todas as fichas no uso do dinheiro público como principal mola propulsora do crescimento econômico. Por exemplo: o novo Primeiro Ministro das Finanças, Aloizio Mercadante, vulgo ministro-chefe da Casa Civil.

Justiça seja feita, não foi apenas o Brasil que lançou mão de estímulos estatais. Emergentes e desenvolvidos, cada um a sua maneira, anunciaram programas para levantar a indústria automotiva, a construção civil, a inovação tecnológica. Talvez, e isso é assunto de debates acalorados, uma das razões para não ter dado certo em terra brasilis tenha sido a forma como foi feito. De forma seletiva, com indústrias escolhidas a dedo para ajudas bilionárias sem contrapartida para o público, que bancou a festa.

Esse capitalismo de Estado seria um modo de produção de riqueza em que o governante, no caso específico a comandante em chefe da economia, Dilma Rousseff, usa dinheiro do contribuinte para fazer andar o PIB, menospreza a atuação de investidores privados enquanto critica publicamente os fedorentos especuladores. Os bancos públicos, neste cenário, emprestam mais para os escolhidos. O Tesouro Nacional vende dívida para capitalizar os mesmos bancos, que terminam implementando políticas de governo.

Houve quem abrisse champanhe, quando estourou a primeira fase da longa crise internacional, para comemorar a morte do neoliberalismo. Houve regozijo na equipe econômica, patrocinadora da maior intervenção estatal. Chegou-se ao cúmulo de proibir a construção de fábricas de microondas, ar condicionado ou motocicletas em quase todo o território nacional. A proibição foi sutil, via aumento de imposto para todos que não estivessem na Zona Franca de Manaus. O governo crê saber, melhor que os demais agentes econômicos, onde e como se deve produzir o que. Carros produzidos fora do País, pelas mesmas empresas que estão aqui, são sobretaxados. Sem falar na tolerância à inflação, que eleva o preço de todos os produtos e salários nacionais, prejudicando a competição com outros países.

Os ventos, no entanto, parecem ter mudado de rumo. Há nuvens pesadas sobre os capitalistas estatais.

Na primeira fase da crise, quando o crédito secou e a desconfiança disparou, era extremamente importante saber como se comportariam os governos. Os Bancos Centrais deviam manteriam as rodas girando. Que o G20 estava aí para isso, ações concertadas. Discursos presidenciais recebiam atenção nas bolsas de valores. A fase seguinte foi marcada pela chamada “guerra cambial”, expressão consagrada nas palavras do genovês Guido Mantega, que passeia em Brasília no carro do ministro da Fazenda. Era preciso reagir à injeção de dinheiro novo que alguns BCs faziam no mercado de títulos. Como? Intervenção governamental no câmbio. Depois veio a angústia do Euro. As dívidas surpreendentes dos países da moeda única. Por meses a fio, nada era mais importante que Angela Merkel, a chanceler alemã. Novamente, e ainda, eram os governos os principais atores.

Tudo isso passou. E o mundo mudou. A crise começou a se dissipar nos Estados Unidos. O BC ianque, conhecido como Federal Reserve, informou que reduziria a injeção mensal de dólares. Foi neste momento que a mão do defunto saiu da cova.

O capital internacional, que não gosta de governo ou intervenção estatal, fez o de sempre. Buscou algum lucro com mais segurança, deixando para trás aqueles que brincaram com inflação, que adotaram medidas protecionistas, que perderam competitividade porque os governos não cuidaram da lição de casa e, também por isso, acumulam agora grande dependência de dólares de fora. A alça de mira aponta para os chamados “cinco frágeis”: Indonésia, Turquia, África do Sul, Índia e Brasil. Dá para ver isso na valorização do dólar quase todo dia.

Interessados em ter mais voz nas finanças internacionais, os países emergentes decidiram contribuir diretamente para a crise. É pouco provável, mas ainda possível, que inaugurem uma nova etapa. A maré mudou e o  cadáver do capitalismo caminha leve e solto, lembra até de ter vencido a guerra contra outras idéias quando caiu um muro em Berlim. Esse defunto tem uma força danada. Neste momento, assombra o País com uma queda de braço: o Estado precisa diminuir de tamanho e cortar despesas. Justamente a perna mais torta da economia hoje.

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