Aquém da imaginação
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Aquém da imaginação

Iuri Dantas

10 de junho de 2014 | 12h51

No longínquo ano de 2007, crise financeira mundial era sinônimo do século anterior, o Brasil engatava um ciclo de crescimento e Luiz Inácio Lula da Silva dava a largada em seu segundo mandato com o genovês Guido Mantega à frente do Ministério da Fazenda. A inflação estava abaixo do centro da meta e o PIB cresceria mais de 6%. A gerente Dilma Rousseff apresentava ao País, como ministra-chefe da Casa Civil, um ousado programa de investimentos em infraestrutura, com o propósito de acelerar o crescimento da economia.

Foi quando a Fédération Internationale de Football Association selecionou o Brasil como anfitrião da Copa do Mundo de 2014. Bem humorado diante das promessas de que não haveria dinheiro público em estádios e dos desafios de melhorar as cidades para o torneio, o brasileiro apontava a permanência de alguns problemas de sempre com o bordão “Imagina na Copa”. Hoje os neurônios não precisam de muito esforço, o apito inicial está previsto para depois de amanhã. Ninguém imaginou, porém, que a economia nacional deixaria de buscar o futebol-arte e adotaria a retranca.

Não houve quem imaginasse com precisão que a decisão do governo e do Banco Central de colocar de molho a meta de 4,5% da inflação, tolerando índices acima disso com desculpas oficiais cada vez mais estranhas fosse interromper o longo ciclo de aumento nas vendas do comércio varejista, derrubando a reboque a produção de manufaturados. Ou que o primeiro governo comandado por uma economista de formação decidisse fechar a economia à competição internacional, selecionasse poucos grupos empresariais como campeões nacionais deixando a míngua a saudável concorrência prevista em lei ou mesmo que o setor elétrico fosse retomar a vida de aportes do Tesouro Nacional.

Aquém da imaginação, por outro lado, seria tentar antecipar há poucos anos que a inflação voltaria a ser um problema. Depois de apostar na contenção do crédito, de prever queda nos índices com base em ventos desinflacionários da crise, o Banco Central informou na última ata do Copom que caberá ao pessimismo derrubar a atividade econômica e com isso potencializar os recentes aumentos na taxa básica de juros. Em bom português, a vida será mais difícil, enquanto nos equilibramos na beira de uma recessão, que não haverá clima para vender nada muito mais caro do que hoje.

No dia seguinte, o maior algoz do governo Dilma Rousseff informou que o IPCA veio um bocadinho menor em maio. Mas, nos cinco primeiros meses do ano, a inflação acelerou, está mais alta do que no ano passado. Houve quem desconfiasse que o BC está pisando no freio por algum outro motivo. O governo piscou primeiro, e na eterna queda de braço que resolveu empreender com o mercado financeiro tascou a brincar com medidas cambiais mais uma vez. De novo para evitar impacto na inflação.

A equipe econômica termina o primeiro semestre do ano sem espaço fiscal para estimular o PIB, sem margem de manobra para acomodar choques de preços. Após 24 pacotes econômicos com mudanças de regras do jogo e o abandono prático de princípios basilares, como as leis das Licitações e da Responsabilidade Fiscal, anda a faltar dinheiro e ideias em Brasília. Quem imaginou que isso aconteceria após três anos e meio de mandato de Dilma Roussseff certamente fez muito dinheiro.

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