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Brasil caminha a ‘pactos’ lentos.

Iuri Dantas

24 de julho de 2013 | 21h03

Faz exatamente um mês que a presidente Dilma Rousseff, comandante-em-chefe da economia nacional, convidou governadores e prefeitos ao Palácio do Planalto e propôs, ao País, cinco “pactos” em resposta às manifestações de rua. De lá para cá, restou comprovado que muito do suposto consenso não existe. Os pactos não foram aceitos pelo Congresso, empresários, médicos e alguns muitos outros.

O primeiro pacto: responsabilidade fiscal para ajudar no controle da inflação. Sim, o governo brasileiro é muito grande, gasta muitas centenas de bilhões de reais todos os anos. Quanto mais gasta, mais pressiona preços e salários. Grosso modo, a equação é simples como o cafezinho, quanto mais xícaras forem servidas na Esplanada dos Ministérios, menos sobrará para vender aos outros, portanto o preço sobe. E o governo federal compra de material de escritório a retroescavadeira. Neste ponto, a ideia é recuperar a credibilidade do governo, que perdeu a confiança de economistas sérios ao lançar mão de manobras contábeis para fechar as contas.

Em linha com o que disse Dilma, o governo anunciou um corte adicional de R$ 10 bilhões no Orçamento. Economistas se dividem entre os que acham o corte desnecessário, peça de ficção e inexequível.  Dizem que não é corte, apenas adiamento de despesas. Outros argumentam que os parâmetros usados são excessivamente otimistas. O genovês Guido Mantega, que comanda o Ministério da Fazenda, foi além e cortou para 3% a previsão de crescimento da economia neste ano. E mais uma vez foi alvo de troça da mídia inglesa especializada em economia. Até a Cepal espera menos.

O segundo pacto foi político: uma constituinte exclusiva para discutir a reforma política.Era inconstitucional e foi rejeitada de pronto. A reforma precisava da concordância da população, via plebiscito que também subiu no telhado. E dos congressistas, que resolveram fazer a reforma por conta própria. O partido de Dilma, o PT, criou caso porque discorda do petista escolhido para coordenar os trabalhos.

Com o terceiro pacto, Dilma conseguiu unir médicos de quase todo o País. Contra a proposta. Sugeriu importar médicos de uma forma. Recuou. Baixou medida provisória prevendo dois anos de trabalho compulsório no Sistema Único de Saúde. Mas seus ministros já admitem que isso pode sofrer mudanças. Aliás, dona Dilma prometia na campanha de 2010 que concluiria o SUS.

A quarta ideia do pacote prevê investimentos de R$ 50 bilhões na chamada mobilidade urbana. Também conhecida como aquele legado que a tal Copa do Mundo deixaria aos brasileiros. Melhores calçadas, transporte público decente, essas coisas. Ainda não se sabe de onde essa dinheirama vai sair, mas a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, pediu lentidão com o andor: pouca coisa vai sair este ano. Por último, a ideia de repassar os royalties do petróleo para a educação ficou no meio termo. E ainda causa brigas no Congresso.

Desde que vestiu pela primeira vez a faixa presidencial, Dilma cuidava da economia. Não tinha horário ou paciência para ministros de assuntos menores. Isso mudou em janeiro, quando a primeira economista a comandar o País foi novamente alçada ao posto de candidata, por Luiz Inácio Lula da Silva. Vestiu-se de política, mas não conversava muito com os demais. Surfava na alta popularidade. Isso tudo mudou.

No dia 24 de junho, a presidente resolveu ir por pactos. Depois de 20 pacotes econômicos, lançou um pacote social/político/econômico. É uma nova Dilma. Vem ouvindo movimentos sociais, empresários, até reunião ministerial fez. Enquanto isso, a economia acumula novas e preocupantes notícias negativas. Se no ano passado o País quase não cresceu, com menos de 1% de expansão, a impressão agora é de um País devagar, devagar… a pactos lentos.

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