As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Debaixo do tapete

O FMI alertou para vulnerabilidades do setor externo do Brasil e incluiu o País numa lista de economias frágeis. Vale prestar atenção no que dizem os analistas do fundo, porque ao chiar o governo parece varrer problemas para debaixo do tapete.

Iuri Dantas

29 de julho de 2014 | 21h57

O Fundo Monetário Internacional emitiu hoje cedo um relatório incluindo o Brasil no grupo de economias frágeis. As contas externas nacionais inspiram cuidados. A julgar pelo tom e recomendações, não se imagina que o objetivo do relatório seja levar o País à breca. Até porque, como frisam o ex-presidente Lula e a economista-em-chefe Dilma Rousseff, o Brasil é hoje financiador do FMI. O País quitou a dívida contraída em tempos difíceis e hoje coloca dinheiro para manter o fundo operando e ajudando outros países. Mesmo assim, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, acredita que a melhor reação é desqualificar o interlocutor. É do jogo.

Uma outra reação possível seria assimilar o que diz o FMI, afinal quem manda em Brasília foi eleito em 2010 e não trabalha em Washington, e seguir em frente. Pode ser que o tanto de economistas com crachá do fundo tenham estudado algo sobre a economia brasileira e queiram ajudar de forma genuína. Talvez seja ingenuidade, mas com tantos pecados por aí este seria um bem pequeno.

Quem analisa a economia brasileira vê que o rombo externo era equivalente a 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) quando Dilma subiu a rampa do Palácio do Planalto. Há dois meses, foi de 3,61%. Como a economia veio parar nesta situação?

As contas externas compreendem diversas operações, como as exportações, que trazem dólares, as importações, que mandam divisas para o exterior, as viagens, nas quais os brasileiros deixam dinheiro lá fora, o aluguel de equipamentos, quando as empresas pagam uma mensalidade para outra companhia no estrangeiro. E outras, como a remessa de lucros corporativos e até mesmo os empréstimos que os empresários tomam lá fora. O dinheiro entra, mas precisa voltar para evitar o calote. Além dos investimentos na Bolsa, na produção, aquisições de empresas nacionais por estrangeiras.

Nos últimos anos, o governo emitiu sinais contraditórios sobre boa parte disso. Primeiro, tentou travar a entrada de importados aumentando impostos, como a flagrante sobretaxa de 30 pontos porcentuais do IPI sobre carros de fora. Embolou as regras sobre alguns investimentos. Passou a tributar operações abaixo de determinado período. Cortou impostos de empresas multinacionais, que preferiram mandar boa parte do dinheiro para outros países. Até estimulou o empréstimo de bancos no exterior, cortando IOF de algumas operações. Isso sem falar na intervenção diária do Banco Central no câmbio.

Sim. O governo faz muito. Se baixar 30 pacotes de estímulo, como contabilizou o nobre João Villaverde, em menos de 48 meses de governo significa alguma coisa, essa coisa será chamada aqui de hiperatividade econômica. Errou, como todos os demais governos durante a crise econômica, mas não pode mudar nada agora porque recuo não ganha votos e as eleições estão aí.

Por outro lado, o governo fez pouco em relação a um problema crônico nacional. Chama-se inflação.  Desse mal nasceram outros problemas. E esses dificultam bastante a solução das contas externas. Rombo com o exterior se resolve com a entrada de dólares e a via mais fácil, sempre, se resume a atração de investimentos de fora e exportação de produtos com alto valor agregado, como os bens manufaturados fabricados pela indústria.

Por ter tolerado inflação alta, acima da meta, durante todo o seu mandato, o governo atual contribuiu para que os produtos da indústria se tornassem mais caros. E isso dificulta um bocado a exportação. Ao fechar o País para importados, tornou também nossos manufaturados menos modernos, porque não têm acesso aos insumos e matérias primas mais modernas. Pode ser difícil de aceitar, mas a economia se globalizou faz alguns séculos.

Outra forma de atrair dólares seria o investimento em títulos do governo. Mas para isso seria preciso confiança nas contas públicas ou juros altos. A Selic subiu, mas não pode ir mais para o alto porque a economia afunda. Soma-se a isso a explosão de gastos públicos, criticada por 10 entre cada 10 economistas que não recebem da Viúva.

O FMI chama atenção para isso ao recomendar que o Brasil não use as intervenções do BC no câmbio para mascarar problemas nos fundamentos da economia. Nas palavras do Fundo, a intervenção no mercado de câmbio “não deve ser usada para resistir a pressões cambiais que refletem mudanças nos fundamentos”. Soa como um alerta para não varrer os problemas internos para debaixo do tapete.

É. É isso mesmo.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.