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Desconto vai custar R$ 35,26

Iuri Dantas

30 de julho de 2013 | 01h24

Era véspera do Sete de Setembro. A comandante-em-chefe da economia nacional, presidente Dilma Rousseff, entrou sem pedir licença na casa dos brasileiros em cadeia de rádio e TV. Queria dar uma “excelente notícia” à população e, na época, era pouco dada a entrevistas.

Entre elogios ao próprio governo, a presidente anunciava um novo porvir. Haveria uma “nova arrancada” da economia, que terminou o ano crescendo 0,9%. Defendia o “equilíbrio fiscal”, que meses depois virou contabilidade criativa.

A ex-ministra de Minas e Energia arrematava com um “importante passo” para melhora da competitividade nacional. A conta de luz ficaria mais barata.

Dias depois, detalhou o plano. Em vez de esperar pelo término das concessões e leiloar novamente os empreendimentos, Dilma anteciparia o fim da concessão, renovando os contratos. Como os empresários fizeram investimentos que seriam pagos pelos consumidores na conta de luz, o governo usaria fundos para custear a operação. Empresário é modo de dizer, boa parte do sistema pertence à estatal Eletrobras.

Mas algumas empresas discordaram de Dilma. Foi o caso de Cemig, Copel e Cesp. A proposta ficou bamba. São Pedro também pregou das suas, uma estiagem daquelas baixou o nível dos reservatórios das hidrelétricas e forçou o governo a usar todas as térmicas disponíveis, o que custa muito, muito dinheiro. Dilma foi em frente. Usaria dinheiro devido de Itaipu até 2023. O próprio sistema daria a solução.

Desse ponto, o governo não abria mão: o consumidor já pagou, merecia um desconto. A decisão valeu até segunda-feira, 22 de julho. Foi quando o genovês que comanda o Ministério da Fazenda, Guido Mantega, disse que o governo usaria “despesa primária” para financiar a redução da conta de luz.

Opa. Duas vezes opa.

Como o governo gasta mais do que arrecada, não tem dinheiro sobrando. O Tesouro Nacional, apesar do pomposo nome, levanta essa grana vendendo papel no mercado, elevando a dívida, ou via impostos. De uma forma ou de outra, sai do bolso do mesmo sujeito que assistiu dona Dilma prometer mundos e fundos em setembro.

Pois hoje os repórteres Anne Warth e João Villaverde revelaram que a conta é bem salgada. No ‘Estadão’, informaram que faltam R$ 6,7 bilhões. Em uma conta de padeiro, que apesar de simples não costuma dar errado, sai por R$ 35,26 para cada contribuinte. E somos 190 milhões de contribuintes.

Ou seja, para ter desconto o brasileiro precisa pagar pedágio antes.

Dona Dilma anunciou o pacote sem combinar com ninguém. Parte da história virou briga na Justiça. Consta que a Agência Nacional de Energia Elétrica cortou um dobrado para calcular as indenizações às empresas. O cidadão banca a aventura. Lição: pacote anunciado de forma atabalhoada, no afogadilho, não costuma sair como o planejado. Se é que plano houve.

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