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É a política, estúpido

Então assessor de Bill Clinton, James Carville viu seu conselho ao candidato se imortalizar na disputa presidencial contra George Bush em 1992. “É a economia, estúpido”, indicou ao democrata. Pena para Bush que os números mostrando melhora da economia foram divulgados após o pleito. Aqui, os números já conhecidos mostravam estagnação.

Iuri Dantas

27 de outubro de 2014 | 15h34

O eleitor brasileiro, como de costume, subverteu as expectativas e reelegeu com pouca folga a presidente Dilma Rousseff para mais quatro anos no Palácio do Planalto. Por não dispormos de números bacanas na economia, pode-se dar de barato que a influência maior na decisão do eleitor foi política. Não apenas o discurso marqueteiro, mas uma chancela popular às dezenas de iniciativas do governo petista, que não por acaso passam ao largo do noticiário: o Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa Família, a instalação de milhares de cisternas em todo o semiárido, evitando o pior na seca. Os incentivos financeiros para os pequenos e microempresários, que ajudaram o Nordeste e o Norte do País a reduzirem um pouco a assimetria em relação ao sul.

De todo o discurso reprovável dos perdedores, há que se registrar as acusações ingênuas sobre os nordestinos. Porque se há algo de que se pode culpar exclusivamente o Partido dos Trabalhadores é o maior número de indústrias, o maior dinamismo do terceiro setor,o boom imobiliário, o maior número de escolas técnicas e universidades… boa parte no Nordeste, que sempre ficou em segundo lugar nas políticas formuladas em Brasília antes de Lula. A formalização da economia, com incentivos direcionados para as pequenas e microempresas, tem sim impacto nacional, mas é mais proeminente onde a atividade econômica era mais informal, menos rica e tinha maior concentração de renda.

Para ilustrar, enganam-se os tucanos e petistas ao afirmar que o nordestino carente e o nortista pobre consolidaram a vitória do PT. Não.  Após uma década de crescimento acima da média nacional, com avanço econômico comparável à China, o Nordeste hoje tem um público bastante diferente. E esse público credita ao governo dos últimos doze anos seu avanço econômico. Compreensível, não? O PT, portanto, fez por merecer a preferência destes eleitores.

Horário eleitoral. 

Passada a refrega na TV, constata-se que a imprensa ainda sofre ataques. Previsível, quando há liberdade de dizer o que se quer, prerrogativa de que nenhum político abre mão.  A convocação de Lula à militância contra “eles”, a decisão do TSE de arbitrar o que se pode dizer na TV no meio do segundo turno e a depredação da revista Veja merecem reflexão sobre o País que se vem tentando construir nos trópicos.

De resto, a campanha eleitoral incomodou na medida certa. Aos petistas, pelas acusações de corrupção feitas por aqueles que nunca foram tão profundamente investigados sob seu ponto de vista. Aos tucanos, pela defesa aberta de Dilma e Lula de seu legado social e econômico. Mas é certo que a situação da economia virou figurante. Logo ela que se preparou para ocupar lugar de destaque nos debates, dada a situação da política fiscal, da inflação, das contas externas, da taxa de investimento, do baixo crescimento, alta dívida da Petrobras e do intervencionismo regulatório. Nem sequer as questões do consumidor, como o direito de todo brasileiro ter um celular que não funciona ou um atendimento privado de saúde tão ou mais ruim que o SUS, foram discutidas da forma como deveriam.

Foi a política, portanto, a grande responsável pela diferença que mantém Dilma Rousseff no Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos. Políticas públicas, que hoje são melhores que há 20, 30, 50 anos. Curioso, porque tais tópicos não aquecem os discursos de ninguém no Congresso Nacional. A imprensa, que por fazer parte de uma indústria sob fortes transformações, tampouco possui mão de obra hoje para acompanhar os assuntos e foca em seu papel primordial: fiscalizar o exercício do poder e o uso do dinheiro público, destacando número cada vez maior de denúncias.

Ganharia o País se a oposição, todos os que perderam a eleição, se organizasse em um governo paralelo. Uma instância acompanhada pela imprensa para monitorar e sugerir aperfeiçoamentos em todas as políticas públicas. O PT abraçou essa ideia quando estava na oposição. É praxe no Reino Unido, na França, no Canadá. Talvez seja uma maneira de evitar o tiroteio da próxima campanha eleitoral. Ou apenas uma forma civilizada de discutir os temas importantes para o eleitor ao longo de todo o mandato.

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