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Enquanto o sr. ministro não vem, a crise acabou…

Mais futuro com mais mudanças: a palavra de ordem do futuro Conselho Monetário Nacional é fazer diferente o que se faz neste momento.

Iuri Dantas

27 de novembro de 2014 | 17h24

Antes de dezembro chegar, a presidente Dilma Rousseff anunciou sua nova equipe econômica. Joaquim Levy assumirá o Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, o Ministério do Planejamento e Alexandre Tombini continua no Banco Central. Voltando um minuto à chatice de lembrar a campanha eleitoral, pouco se confirmou da promessa de “pessoas novas” no governo novo.

Nem tão inédita, porque em 2003, quando o PT chegou ao poder com Luiz Inácio Lula da Silva, Levy era secretário do Tesouro Nacional. Barbosa era chefe adjunto da Assessoria Econômica do Ministério do Planejamento. Funcionário de carreira do BC, Tombini ajudava a negociar com o Fundo Monetário Internacional em nome do Brasil. Trata-se, sem tirar nem por, da equipe que ajustou a economia depois do estresse do mercado com a eleição do ex-metalúrgico.

Parágrafo de ironia: noves fora a prestação de contas de Tombini, não se falou na crise financeira internacional. Era quase um universo paralelo, pois Barbosa e Levy parecem mesmo acreditar que os problemas da economia brasileira se devem a erros da equipe atual. Utopia, obviamente. Mas o futuro ministro da Fazenda confunde quando fala de forma categórica: “a gente não está num momento de crise”. Alguns podem achar que é uma ótima notícia. Em especial os que assistiram o horário eleitoral gratuito há poucas semanas. Aquela crise de que a candidata Dilma Rousseff tanto falava, que era a causa maior do baixo crescimento do PIB, da alta da inflação, da queda da taxa de investimento, da baixa produtividade, dos repasses bilionários ao BNDES, das dezenas de pacotes de estímulo… bem, felizmente acabou.

O “governo novo”, por outro lado, estava lá. Em palavras diretas, sem subterfúgios. Levy prometeu medidas para aumentar a “produtividade” da economia. E retirar as “travas” à concorrência. Se for possível esperar que o novo ministro transforme em ações o que prometeu no discurso, é capaz de a economia nacional se tornar um pouco mais aberta. Que os bancos públicos sejam mais universais na concessão de crédito subsidiado com dinheiro do contribuinte, sem escolha de campeões nacionais, por exemplo. Justamente o oposto do que foi visto nos quatro anos de mandato da primeira economista a comandar o País.

As contas públicas, defendidas à exaustão pelo genovês-demissionário-mas-ainda-forte-no-posto Guido Mantega, precisam passar por um “equilíbrio” de forma a reconquistar a confiança dos agentes econômicos. Há um “receituário”, mas Levy sabe que é preciso ir devagar então deixou o conteúdo dessas medidas para depois.

Em bom português, surgiu uma promessa interessante. É preciso retomar a trajetória de queda da dívida pública em relação ao PIB. A mesma que Dilma e Mantega não admitem ter subido. E uma das medidas para esse objetivo seria ampliar a transparência sobre os dados fiscais. Futuro sucessor de Miriam Belchior, Nelson Barbosa chegou a mesmo a dizer que um bom superávit primário não é incompatível com a política social. Coisa que todo mundo sabe, mas que é ótimo ouvir de um economista em cargo público.

O desmonte do governo Dilma não será apenas nas medidas econômicas, na tesoura que será passada no Orçamento para transformar um déficit primário em um superávit das contas públicas no ano que vem. Aparentemente, chegou ao fim a era dos pacotes. Palavra de Joaquim Levy. Os escafandristas vão diagnosticar que ali o economista puxava o freio de mão e armava o cavalo de pau na condução da economia.

Embora não tenha sido a primeira opção de Dilma Rousseff, a julgar pelo noticiário, a nova equipe econômica passou por seu primeiro teste de forma exemplar. Na teoria, no papel, disseram o que os insatisfeitos queriam ouvir. E deram uma roupagem supimpa à dicotomia inexistente entre responsabilidade fiscal e distribuição de renda que tanto aglutinou os petistas. Registre-se, aliás, que o País corre o risco de ver um ministro da Fazenda que efetivamente segue (até menciona!) a Lei de Responsabilidade Fiscal, tão combalida e atacada nos últimos anos, tadinha.

Por fim, a grande dúvida. A economista-em-chefe das finanças nacionais dará autonomia à equipe? Temos palavras e um fato.

Palavras: Levy saiu-se com uma resposta esperta. “A autonomia está dada” e essa dúvida será esclarecida no “dia a dia”. Palavras importantes, como já foram um dia as declarações do chefe do Ministério da Fazenda.

Fato: Levy, Barbosa e Tombini concederam entrevista a poucos metros do gabinete de Dilma. Leram suas declarações prontas e submetidas previamente à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República para tirar cópias e entrega-las aos jornalistas. Até o fim do ano, vão despachar dentro do Palácio do Planalto.

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