Filho ingrato
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Filho ingrato

Iuri Dantas

19 de fevereiro de 2014 | 00h51

Foto: André Dusek/Estadão.

Foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que apresentou Dilma Rousseff ao País como uma gerente tão aplicada que merecia a alcunha de “mãe do PAC”. De lápara cá, muita gente acreditou, a julgar pelo balanço do plano de Aceleração do Crescimento, divulgado na manhã de terça-feira, algumas ações andam sofrendo bastante.

Antes dos números, é preciso registrar que Dilma merecia a alcunha. Não há notícia de gestor em terra brasilis que tenha convocado a imprensa para prestar contas do que anda fazendo. Aliás, tem muito político, magistrado e funcionário do Tesouro Nacional que se sente ofendido quando o sujeito que paga seu salário quer saber o que diabos ele anda fazendo durante o expediente. Dilma inaugurou o expediente de informar o andamento das obras do PAC de tempos em tempos. Poucos a culpam hoje porque as cerimônias têm periodicidade menor do que a inauguração das obras concluídas. Desnecessário dizer que no País da criatividade contábil a maioria dos empreendimentos apareça no relatório em ritmo adequado, apesar dos reiterados atrasos.

Diz o balanço que 82% das obras foram concluídas. Há poréns importantes.

O primeiro dado alarmante do calhamaço : saneamento básico. Claro, em tempos de eleição, ninguém pensa em inaugurar usina de tratamento de esgoto. Talvez por esse ou qualquer outro motivo, durante o governo de Dilma Rousseff caíram 36% os investimentos na rubrica.

De 2007 a 2009, segundo a

Documento

do balanço, foram contratados R$ 25 bilhões. Entre 2011 e 2013, a Era Dilma, foram R$ 15,9 bilhões. São números que escondem o cheiro ruim em muita cidade brasileira. Tem especialista que chega ao desplante de dizer que quanto maior a rede de água e esgoto, menor a ocorrência de algumas doenças facilmente preveníveis.

Para uma ideia melhor, tomemos o caso de Aracaju e Coqueiros, no menor Estado da Federação. Um projeto para esgotamento sanitário para atender 50 mil famílias sergipanas consumiu mais de R$ 100 milhões desde 2007. Confirmado: 2007 ocorreu sete anos atrás, antes da crise financeira internacional e do título mundial da Espanha no futebol. Até o fim do ano passado, foram concluídos 84% do empreendimento. A meta é concluir 85% antes de 30 de abril. Diz o relatório do PAC que a obra fica pronta até o fim deste ano. Ponto para o governo, que após tão monumental esforço vai poder dizer que aumentou para 44% a coleta e para 60% o tratamento do esgoto na área. Passadas duas copas do mundo, quase metade do esgoto continuará sem receber o fim adequado.

A pavimentação de ruas também manca das pernas. Dados oficiais do PAC informam que o governo assinou R$ 1,5 bilhão em contratos de projetos selecionados em 2010 e 2011. Mas executou R$ 76,8 milhões. Em porcentagem: 5,1%.

Se continua o buraco na rua e o mau cheiro na periferia a culpa não pode ser atribuída ao governo federal. Muito menos à presidente da República, que está tentando resolver. Como em outros casos brasileiros, a culpa é da vítima mesmo. Filhos ingratos, esses projetos de aceleração do crescimento. Teimam em não caminham sozinhos passado tanto tempo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.