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Indústria brasileira encara inferno astral

Iuri Dantas

05 de setembro de 2013 | 22h30

Aquele setor que carimba made in Brazil em seus produtos antes de brigar pelas prateleiras mundiais acusou novo golpe e levou um tombo daqueles em julho. Quem entende do assunto previa uma queda de no máximo 1,5% na produção da indústria nacional. Segundo o IBGE, que voltou à velha forma, o baque foi de 2%. A contração foi bem generalizada.

Fortemente influenciado pela crise e desventuras da política econômica do genovês Guido Mantega, o empresário que faz produtos manufaturados vem sofrendo nos últimos anos. No ano passado, a produção da indústria caiu 2,7%. Nos primeiros oito meses deste ano, ainda não conseguiu recuperar esse patamar. A penúria vem desde a chegada de Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto.

Tomado pela responsabilidade diante de momento tão importante para a economia nacional, o genovês anunciou em agosto daquele mesmo ano o Plano Brasil Maior. Seria a segunda política industrial do Partido dos Trabalhadores durante a crise, depois de uma tentativa destrambelhada em 2008. Como os demais planos do governo, o marketing político transformou o PBM em um “guarda-chuva”. Ou slogan, o que fizer mais sentido. Hoje, tem de tudo ali.

Escancarava-se ali, ainda, o protecionismo que marca até hoje a administração da primeira economista a comandar o País. Em palavras mais sábias: “o mercado brasileiro deve ser usufruído pela indústria brasileira e não pelos aventureiros que vem de fora”, como disse Mantega há dois anos. Argumento complexo, já que uma das metas era impulsionar exportações nacionais para países que considerem o Brasil um país também aventureiro. E por um bom motivo: o governo de terra brasilis usa até manobra fiscal para fechar as contas.

Voltando à política industrial, tinha início um grande programa de transferência de renda. Da população para alguns empresários. Poucos. Escolhidos a dedo por Mantega e sua equipe. Essa é a crítica dos que ficaram de fora e dos que entendem algo de economia. Tinha tudo para não representar uma mudança profunda, para não contribuir de maneira decisiva para uma arrancada. O objetivo inicial era dar “condições para a indústria competir em pé de igualdade com os importados”, nas sábias palavras do genovês.

Em números: a produção da indústria, antes do tombo do ano passado, quase estagnou em 2011. Expandiu  0,3%. A participação dos importados no consumo, medido pela Fiesp, subiu de 21,8% em 2010 para 23,1% em 2011. No ano passado, bateu em 23,5%. Culpa da crise, dirão uns. Ou das falhas da política federal, dirão outros. O PBM não resultou em maior produção ou competição mais igualitária com os importados, dizem os dados.

Um dos pilares para os exportadores era a devolução de 3% das vendas ao exterior. O sujeito poderia receber em dinheiro ou crédito para compensar outro imposto. Chamava-se Reintegra. Valeria até 2014. Mas o governo desistiu da ideia, com a subida do dólar, alimento de sempre para os exportadores. Registre-se, porém, que o objetivo de qualquer política industrial é reduzir custos para os fabricantes e, assim, baratear os produtos finais. A inflação, tolerada pelo governo desde o primeiro dia, é apenas um dos fatores que  joga contra.

A queda da produção da indústria em julho antecipa resultados amargos para o desempenho de toda a economia no terceiro trimestre. Por sorte, coincidiu com a divulgação, pelo governo, do balanço de dois anos do PBM. Saiu do forno pelas mãos da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), uma autarquia composta de bons pensadores e que não pode ser culpada pela recusa da Receita Federal em cortar impostos. Eles propõem, insistem, mas necas.

Diz o

Documento

: “a maturação do conjunto de medidas de política industrial e tecnológica implementadas a partir de 2011 ampara um movimento de recuperação da indústria. Trata-se de poderosos instrumentos de estímulo à competitividade, que reforçam as expectativas positivas sobre o desempenho da indústria brasileira e funcionam como eixos de sustentação da retomada prevista para 2014.”

Agora faz sentido. A vida anda difícil. Os impostos pesam e o governo não corta. Falta mão de obra no mercado e o governo dificulta entrada de profissionais estrangeiros. As regras do jogo mudam toda hora e o governo acredita que está sempre certo. Mas tudo isso é inferno astral, daqui a pouquinho a indústria nacional apaga as velinhas. Oxalá sejam para comemorar.

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