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Injustiça eleitoral

É preciso respeitar a aprovação soberana do eleitor sobre a política econômica.

Iuri Dantas

31 de outubro de 2014 | 17h18

Um quarto de século depois da alvorada democrática, o eleitor brasileiro foi convocado doze vezes às urnas para escolher o presidente do País. Tempo suficiente para comprovar que eleição é aquele momento mágico em que políticos ocupam a cadeia de rádio e TV para distribuir, com convicção, mentiras aos quatro cantos. Injusto portanto que venham agora criticar a presidente Dilma Rousseff por números podres da economia ou aumento surpresa na taxa de juros.

Outra conclusão possível sobre a jovem democracia brasileira diz respeito a alertas sobre os futuros problemas. Tais avisos não fazem sucesso entre os eleitores nacionais a ponto de evitar vitórias ou determinar derrotas. Há três bons exemplos:

José Sarney usou e abusou do congelamento de preços durante quase todos os meses de 1986. Muitos diziam que a lista seria jogada às favas tão logo fossem abertas as urnas das eleições estaduais daquele ano. O eleitor presentou o maranhense com vitória acachapante em todos os Estados, menos um, onde ganhou o PFL que ocupava a vice-presidência. De posse do comando do País nos âmbitos federal e estadual, o Palácio do Planalto abriu o saco de maldades e o Cruzado desmoronou.

Menos de cinco anos depois, Fernando Collor, então caçador de marajás e hoje senador pelas Alagoas, prometeu com todas as letras que não iria mexer na sagrada caderneta de poupança. A esquerda chiou e insistiu que ele faria isso. O eleitor acreditou em Collor e Lula saiu derrotado do segundo turno. Quer dizer, Collor superou aquele petista que pedia auditoria da dívida externa, alguém que não tem muito a ver com o estadista que pagou todos os débitos mais de uma década depois. Quem perdeu a eleição foi um líder do Partido dos Trabalhadores que pregava o ódio ao Fundo Monetário Internacional, favor não confundir com o outro, que discursou durante a crise apoiando mais dinheiro para o mesmo FMI.

Ano vai, ano vem, Fernando Henrique Cardoso esticou a corda do câmbio fixo até não poder mais durante a campanha de 1998. Muitos passaram a campanha inteira batendo na tecla de estelionato eleitoral. Entre os economistas, era certo que a âncora cambial, a cotação fixa de 1 para 1 entre dólar e real, já havia ultrapassado o limite que o País era capaz de bancar. FHC ganhou no primeiro turno. Em 1999, veio a fatura com um brinde específico à crise cambial.

Tudo isso é muito diferente do que aconteceu nas eleições de 2014.

Dilma Rousseff não foi reeleita com a economia de vento em popa ou inflação baixa. Já se sabia, pelo IBGE, que o País enfrentou uma recessão técnica na primeira metade do ano. Tampouco se podia ver antes do pleito uma boa conjuntura das contas públicas, ameaçadas de downgrade pelas agências internacionais. Não havia posicionamento tranquilo do Banco Central em relação ao dólar, diante do impacto do câmbio na inflação que segue acima da meta e do fim dos programas de estímulo do BC americano.

De boa fé, ninguém conseguia encontrar forte dinamismo no mercado de trabalho ou investimentos privados crescentes, o quadro foi inverso nas duas áreas durante todo o ano. Indústria competitiva e exportações em alta ainda eram belos objetivos distantes antes do primeiro turno. Que a energia elétrica e gasolina eram vendidos a preços de mercado, nem o mais crédulo poderia acreditar. Daí a previsão-chamada-depois-de-terrorismo-dos-pessimistas de um “tarifaço” nos próximos meses. Tudo isso estava aí e já se sabia e, até onde se vê na capital da República, nenhum ministro apresentará os reajustes destes preços com a palavra feia. É possível que seja vendido como “ajuste pontual” nas tarifas.O eleitor brasileiro que digitou 13 na urna eletrônica não pode ser acusado agora de ignorante, como tentaram fazer injustamente. Até o noticiário da TV dedicou horas de sua programação nos últimos anos para demonstrar as fragilidades da economia nacional.

Neste cenário, talvez seja apenas mau humor de alguns lembrar que Dilma assegurou na sexta-feira, dia 24 de outubro, que a inflação estava sob controle… mas o Banco Central resolveu aumentar os juros para controlar os preços no dia 29 de outubro. Ou que a meta das contas públicas esteja tão magrinha que só caiba biquini de 1997, só porque os magos da equipe econômica foram autorizados a contar para o País o resultado da arrecadação de impostos depois da eleição. Parece revanchismo, no pior estilo “bem que eu te disse”, citar o reajuste da gasolina que alguns jornais publicaram esta semana como parte do “tarifaço” que Dilma tanto negou durante a campanha.

Mais respeito com o voto. A maioria do eleitorado escolheu continuar esse caminho. Parafraseando o marqueteiro, o que está bom vai continuar.

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