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Interferências e intervenções

Iuri Dantas

28 de julho de 2014 | 19h28

Em uma rara entrevista, a presidente-candidata à reeleição Dilma Rousseff queixou-se hoje sobre “interferências” do mercado financeiro no pleito deste ano. Como um chamamento às armas, para ativar os brios de seus eleitores, afirmou ser “inadmissível para qualquer país aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro de forma institucional no sistema político”.

Curioso.

Dilma se referia a relatório do Santander reservado a alguns clientes em julho. Frise-se: o banco privado Santander elaborou um papel com sua visão sobre uma série de assuntos para seus próprios clientes, no caso aqueles com renda superior a R$ 10 mil. Com base apenas nestas informações tudo indica que não se trata de uma tentativa de interferência institucional da instituição financeira no sistema político do País. A menos que os tomadores de decisão do governo, Congresso e Judiciário sejam todos, sem exceção, clientes do Santander. E que, com base em um e-mail, mudem sua forma de atuar.

Em 2012, o secretário de Assuntos Estratégicos, Moreira Franco, informou que 0,3% da população brasileira ganhava mais de R$ 10 mil.

Se não era uma interferência direta no sistema político do País, pode-se resumir a cartinha do Santander aos seus abonados correntistas como uma opinião do banco. Um palpite. Um pitaco. Uma análise sobre as consequências macroeconômicas advindas de um período eleitoral. Ora, eleições sempre mexem com os mercados, em maior ou menor medida e a economia está sempre subordinada à política. Ninguém elege presidente do Banco Central ou ministro da Fazenda.

Parte do mercado apostou contra Barack Obama e Angela Merkel. Outra parte a favor. Parte do mercado aproveita eleições argentinas e venezuelanas para vender uns tantos papéis e outra parte compra os ditos-cujos.

No entanto, a especulação financeira na bolsa de valores está diretamente relacionada ao quanto a condução da economia depende do resultado eleitoral. Por exemplo: se um partido que se opõe ao programa de austeridade para o equacionamento da dívida ganha espaço nas eleições gregas, é razoável que um banco informe aos seus clientes sobre as chances de calote se determinado candidato vencer o pleito. Isso não é torcida.

Dilma produziu dezenas de pacotes de estímulo à economia, usou os bancos públicos como poucos governantes para estimular o crédito e financiar programas de governo, modificou marcos regulatórios importantes, alterou a forma de licenciamento ambiental, baixou impostos aqui e elevou tarifas de importação ali, concedeu benefícios setoriais, assinou decreto deixando nas mãos do ministro da Fazenda a possibilidade de fixar lucro de algumas operações do mercado financeiro, segurou os preços da gasolina e mudou as regras do setor elétrico… Fatos que comprovam muitas e diversas intervenções na economia.

É razoável supor que um eventual segundo mandato de Dilma vai continuar na mesma toada. O slogan de sua campanha diz: “Mais mudanças, mais futuro.” Não parece um rompimento com o que ela fez até agora. Diante desse cenário, não parece “interferência institucional” no sistema político prever consequências de sua reeleição, mas análise mesmo. Geralmente, quem define o câmbio e a inflação é o mercado, não o governo de plantão. Isso porque o contrário não é muito sustentável. Grosso modo, foi isso que o Santander escreveu. O interesse aqui, porém, não é defender a opinião do banco.

Muito preocupante seria viver em um País onde a opinião é cerceada ou mesmo punida. Ou que bancos, empresas, pessoas pensem duas vezes antes de palpitar porque podem receber processos, sanções ou ações negativas do governo. Punir a opinião alheia acalma muita gente, mas no longo prazo inibe ideias novas. E todo país que se preze cresce com a divergência e o debate.

Em tempo: o comando de campanha de Dilma estuda processar o Santander.

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