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Na fila do bonde

Nas contas do Banco Central a economia nacional deixou a desejar no primeiro semestre. Outras estatísticas oficiais confirmam, ainda, a erosão de duas fortalezas em vigor até o ano passado: as vendas do comércio varejista e a geração de empregos já viveram dias melhores. Se o âmbito doméstico sinaliza um novo Pibinho, o cenário internacional revela-se cruel. O Brasil não se preparou para pegar carona na lenta retomada econômica mundial.

Iuri Dantas

15 de agosto de 2014 | 18h26

Os escafandristas do futuro podem se deparar com um caso curioso. A epígrafe do ex-presidente Lula, repetida por todos do atual governo, representa uma viagem ao desconhecido. Se o Brasil foi o “último a entrar e o primeiro a sair” da crise, resta saber onde se chegou. Faltam sinais de que estamos no mesmo patamar dos países que lentamente emergem da maior crise financeira desde a segunda grande guerra.

Não há como negar que o governo federal manteve a fornalha de pacotes de estímulo acesa até o mês passado. Buscou evitar um repique do desemprego e manter em alta a renda do trabalhador. Tentou atrair capital para investimentos produtivos, a construção de fábricas, a instalação de centros de pesquisa de empresas multinacionais. Apostou-se no consumo doméstico. Redobraram a aposta. Multiplicaram a fé na capacidade do brasileiro de se endividar para adquirir alguns produtos escolhidos.

Os bilhões injetados nos pacotes, no entanto, bateram em um muro importante. Toda crise econômica traz dificuldades, mas também o imperativo de mudanças e reformas para um pós-crise que dificilmente se consegue antever. Neste ponto, os países desenvolvidos não conseguiram evitar remédios amargos. Cortaram gastos públicos, enxugaram seus governos, modificaram a legislação para impulsionar a produtividade e tornar seus produtos mais competitivos nas prateleiras globais.

O Brasil não fez isso. As centenas de bilhões de reais injetados pelos governos federal e estaduais na economia visavam retornar o País a um pré-crise idílico. Como se fosse possível voltar à fila com o mesmo bilhete surrado, de olho em um assento no bonde da história. A iniciativa privada, distante milhas de um mea culpa, repetiu bordões que hoje cobram um preço amargo. Os pleitos por maior proteção contra os importados, atendidos sem demora pelo governo, isolaram ainda mais a economia da competição mundial, sem terem sido eficientes para reduzir a entrada de produtos melhores e mais baratos de fora.

Um dos capítulos importantes sobre as lições desperdiçadas com a crise aparece no comércio exterior. O Brasil hoje importa mais do que exporta tanto dos Estados Unidos quanto da União Europeia. Os bens industriais nacionais não conseguem competir com os chineses, norte-americanos e europeus naqueles mercados. A indústria nacional, que sempre resistiu à concorrência, viu-se numa sinuca. Submeter-se ou sucumbir. Mudar e concorrer ou desaparecer. Agora, defende acordos que antes evitava.

Emparelhado pelo alto endividamento das famílias, o crédito cada vez mais caro, juros e inflação bem mais altos que nas economias sérias, o mercado doméstico resfolega. As decisões do governo, embaladas por pedidos dos empresários, prejudicam ambos hoje -estes não vendem, aquele enf. Teria sido mais fácil e barato modernizar as relações trabalhistas, o sistema judiciário e o insano arcabouço tributário no início desta década. Soluções adiadas, que sairão mais caras e custosas política e economicamente.

É. O Brasil saiu da crise menor do que entrou.

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