Naipe de espadas
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Naipe de espadas

Iuri Dantas

07 de fevereiro de 2014 | 17h08

Foto: Dida Sampaio/Estadão.

Enquanto discute com o PMDB os melhores nomes para comandar áreas estratégicas, o Palácio do Planalto embaralhou silenciosamente as tropas no front econômico. Se nas Pastas políticas pesam o partido de origem e o consequente tempo de TV com que vão contribuir para Dilma Rousseff, na área econômica a campanha é reconquistar a credibilidade perdida. E cada campanha uma agonia.

O mercado deixou de acreditar no que diz o governo quando se trata de gastos públicos, apesar de todo o discurso otimista e responsável repetido em Brasília à exaustão sobre o combate à inflação e a defesa da estabilidade econômica. Pesaram nos cálculos de investidores promessas não cumpridas de economizar uns tantos bilhões para ajudar a pagar os juros da dívida pública. É o que chamam de superávit primário. É possível, mas pouco provável, que tais promessas pesem agora na consciência de alguns integrantes da equipe econômica.

A primeira carta nova no baralho apita na Casa Civil da Presidência da República. Tem bigode espesso e três décadas de pitacos econômicos no Partido dos Trabalhadores. Chama-se Aloizio Mercadante. Gastou a manhã de sexta-feira discutindo o Orçamento federal com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a companheira do Planejamento, Miriam Belchior. Na sala estavam, também, Dilma e o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, o mais criativo contador das finanças públicas desde a chegada de Cabral, o marinheiro.

Com a responsabilidade de ditar o rumo dos ministérios e auditar a atuação de ministros de Estado, Mercadante encontrará tempo para executar as ideias econômicas de sua chefe. Pretende adicionar, por previsível, algum tempero às propostas, mas nada que crie ruído. Desde o início da semana, age como um primeiro ministro das finanças nacionais. Para lembrar, foi de sua lavra o anúncio de que a taiwanesa Foxconn investiria US$ 12 bilhões para produzir iPads Made in Brazil. A frase foi pronunciada no 102º dia de governo.

Outra novidade, o pouso de Paulo Caffarelli no Ministério da Fazenda. Não assume um cargo qualquer. Só vai mandar menos, por exemplo, que Mantega. Vem do Banco do Brasil, onde subiu diligentemente a escada corporativa. Chegou lá não tinha 18 anos. Antes do 50º aniversário foi imbuído de gastar saliva com investidores e empresários sobre os novos rumos da política econômica.

Ainda é cedo para confirmar se as boas intenções emanadas de pronunciamentos e discursos vão se transformar em números responsáveis no fim do ano. Por um lado, o governo parece mesmo se mexer enquanto se acumulam resultados terríveis, como o maior rombo externo da história, pior resultado da balança comercial desde que começamos a vender pau brasil, inflação insistentemente alta, contração no crédito, tombo na indústria, câmbio disparando, Petrobrás afundando na Bolsa.

Dilma conduz o governo como um bom jogador de pôquer. Ninguém sabe o jogo em suas mãos. As relevantes mudanças na equipe econômica, logo no início do turbulento ano eleitoral, parecem indicar que não se trata de blefe.

O naipe de espadas apresentado até agora serve para a travessia do deserto, ou até o fim do pleito de outubro. Não é segredo que em algum momento depois da eleição o governo ajeitará porcas e parafusos para melhorar as engrenagens econômicas. Pelo que se ouve em Brasília, as nomeações dos últimos dias não são jogo de cena. Mas apenas o que dá para fazer agora.

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