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No octógono eleitoral, demônios de Dilma são anjos de Lula

O debate sobre a melhor política econômica em Terra Brasilis, que parecia encerrado com a Carta ao Povo Brasileiro de 2002, foi retomado no segundo turno com as tintas fortes da política. De contradições econômicas a campanha está cheia.

Iuri Dantas

21 de outubro de 2014 | 16h57

Sem uma guerra para chamar de sua desde o conflito com o Paraguai, há quase 150 anos, o brasileiro reage de forma curiosa ao belicismo dos candidatos ao Palácio do Planalto. Institucionalmente, o Tribunal Superior Eleitoral decide mudar seu entendimento e define o que pode ou não ser dito no horário eleitoral gratuito, sempre com o intuito de fixar, em uma corte de notáveis em Brasília, o que considera civilizado na disputa pelo poder. Com isso, a campanha de 2014 entra para a história como o pleito do “não é bem assim”.

Bons eram os tempos em que a alvorada democrática permitia ao eleitor escolher entre personagens antagonicamente diferentes. Quando um candidato, ante a tentativa dos opositores de demonizar suas ideias, se declarava partidário da paz e do amor. A campanha de 2014 foge ao roteiro que o País vinha desenvolvendo nos últimos 25 anos. Durante o mês de outubro, há dois candidatos com propostas semelhantes no mérito, com mudanças no tom. Os detalhes, sempre eles, seguem debaixo do tapete.

A parca história da economia brasileira no mundo dos grandes auxilia a compreensão. Para se contrapor a Armínio Fraga, economista ungido por Aécio Neves como futuro ministro da Fazenda, o genovês Guido Mantega, que responde atualmente pela pasta, diz que não acredita no tripé macroeconômico da estabilidade -câmbio flutuante, economia de recursos para pagamento do serviço da dívida e inflação na meta. Logo ele, que recebeu a batuta de Antonio Palocci e se vangloriava de resultados fiscais robustos.

A presidente da República, Dilma Rousseff, rebate o tucano Aécio Neves nos debates televisivos chamando atenção para a política “deles”, que trará arrocho salarial, desemprego e um sofrimento daqueles para o povão. Seu antecessor conclama os cidadãos a impedirem que banqueiros determinem seus votos.

Por óbvio, não é bem assim. A realidade não é preta e branca, tampouco vermelha e azul.

Fosse o Brasil um país normal, daqueles em que assuntos sem importância são relegados, estariam ambos os candidatos disputando a paternidade das políticas que estabilizaram o País. Porque se é verdade que o tripé foi implementado por Fernando Henrique Cardoso em 1999, como forma de se alinhar às melhores práticas internacionais e convencer investidores de que o Brasil não era a Rússia, o México ou os Tigres Asiáticos, os três às voltas com graves crises em seus balanços de pagamento, também é incontestável que os tucanos foram responsáveis apenas por seu nascedouro. FHC comandou o tripé por quatro anos.

Em outras palavras, o tripé macroeconômico sob FHC representava o mesmo que o Bolsa Escola e o Cadastro Único dos programas sociais lá atrás. O embrião do que o País poderia alcançar se as políticas ganhassem escala, tempo de maturação e atenção política adequadas. Coube a Luiz Inácio Lula da Silva, já sem a camiseta “Fora FMI”, regar e fazer crescer o mecanismo durante os oito anos de seu mandato. Além do ex-presidente, os maiores fiadores da política econômica eram um petista e um tucano, respectivamente Antonio Palocci e seus fortes superávits primários no Ministério da Fazenda, e Henrique Meirelles, deputado mais votado pelo PSDB em Goiás em 2002, no Banco Central do Brasil. Registre-se que Dilma sempre se bateu contra os dois.

Como já dito aqui, não é pouca coisa continuar a política econômica de seu antecessor. FHC fez isso, ao herdar o país de Itamar Franco, mas há que se dar um belo desconto. Estava ele mesmo no Ministério da Fazenda quando a festa começou. Era, vê-se logo, o continuador de uma política já identificada como sua.

O grande mérito coube a Lula. Ao tratar o tripé da estabilidade como uma conquista do Estado, o ex-metalúrgico foi um dos poucos presidentes nacionais a manter as regras do jogo que recebeu do antecessor. Dilma Rousseff, por outro lado, tratou logo de alterar a condução de política econômica. Consta que Lula não gostou e se queixou a quem ouvisse.

Durante os anos do tripé, o País cresceu, o aumento dos salários permitiu maior distribuição de renda, a continuidade das regras ajudou as contas públicas. A dívida pública foi equacionada, o Brasil obteve o grau de investimento e elogios de analistas estrangeiros. O Fundo Monetário Internacional e o Clube de Paris receberam o que lhes era devido. A crise financeira internacional elevou o Brasil a status de queridinho dos investidores, por uma sólida posição econômica e um rol de políticas que, durante todos os anos de FHC e Lula, comprovara sua eficácia. Não se trata de imposição externa ou pedido de banqueiros. Foi o caminho que o Estado brasileiro divisou para subir degraus de desenvolvimento.

O consenso foi interrompido em 2011, com a chamada nova matriz econômica. Um belo nome de figurino século 21 sob trilha sonora setentista.

Os resultados da nova matriz estão aí: o crescimento fugiu, ninguém sabe, ninguém viu. A geração de empregos vem rateando. A indústria pena ao tentar vender para fora. O investimento encolheu. Apesar de uma dívida baixa, em comparação com europeus, norte-americanos e japoneses, os juros consomem dez vezes mais o que se gasta com o Bolsa Família, um porcentual do PIB maior do que o de todos os outros países citados.

No discurso, a política é a mesma do período 1999-2010. Mas precisa de legenda. Onde se lê câmbio flutuante, o correto é câmbio administrado com alto custo para o Banco Central -mais de US$ 100 bilhões somente em contratos de swap cambial. Na alínea do superávit primário, exige-se fé inquebrantável do leitor: deixar de arrecadar bilhões por cortar impostos para indústrias selecionadas a dedo pelo governo significa exatamente o mesmo que evitar gastos bilionários, cada vez maiores, para manter a máquina federal. E no item inflação na meta… Bem… Finalmente temos um BC que vê uma pressão pontual de 2010 se espraiando até 2016. Afinal de contas o teto da meta (6,5%) é só um bocadinho maior que o centro dela (4,5%). Gol de mão vale.

Seria simplificar demais dizer que no segundo turno temos um sujo falando do mal lavado. Mas está cada dia mais cristalino que ao menos as discussões econômicas não levaram o asseio pessoal tão a sério como poderiam. Welcome back to 1998.

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