O gabinete milionário do genovês
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O gabinete milionário do genovês

Iuri Dantas

12 de agosto de 2013 | 17h20

Apesar de suas imensas qualidades, entre elas um indisfarçável bom humor, é possível carimbar alguns defeitos relevantes no ministro da Fazenda, Guido Mantega. O mais conhecido deles é o excesso de otimismo, por falta de outra expressão, sobre os rumos da economia nacional. Outro: pouco apreço à verdade dos fatos, quando necessário. Todo jornalista que acompanha os passos do ítalo-brasileiro sabe que ele é dado a arroubos. Diz pela manhã que não adotará determinada medida… a mesma que anuncia horas mais tarde.

Há nesta seara um defeito mais que preocupante, na visão de tantos economistas que até mesmo aqueles que apoiam o governo concordam com a acusação. Mantega é pouco transparente. Insiste até hoje, por exemplo, que não adotou manobras fiscais para fechar as contas no ano passado. Neste ano mesmo, chegou a propor que o governo se apoderasse do que tem a receber da usina binacional Itaipu até 2023. Diante da repercussão, recuou.

Outros comportamentos do genovês exigem maior esforço para compreensão. É o caso, por exemplo, dos caraminguás que gastou desde a chegada de Dilma Rousseff ao poder para melhorar o seu ambiente de trabalho. Dados do próprio governo mostram que o gabinete de Mantega custou ao contribuinte somas milionárias. Em 2011, foram R$ 2,92 milhões. Esse valor quase dobrou para R$ 4,34 milhões no ano de 2012.

Nos primeiros seis meses deste ano, o gabinete do chefe da equipe econômica ficou ainda mais caro para o contribuinte: R$ 3,31 milhões. Sim, o mesmo ministro que apareceu outro dia fazendo cara de mau e pedindo austeridade fiscal dos ministérios gastou no primeiro semestre de 2013, mais em seu gabinete do que em todo ano de 2011. A seguir esse ritmo, vai obter um crescimento recorde. Nas suas próprias despesas.

Não é essa a informação que exige esforço para entender a personalidade do ministro, mas as explicações. Depois de quatro anos no cargo, o ministro resolveu dar uma repaginada. Entre 2011 e 2012, enquanto as riquezas nacionais ganhavam o apelido de Pibinho, Guido gastava R$ 1,2 milhão para reformar o seu gabinete. Era preciso, afinal saíam dali as políticas que evitaram o pior durante a crise financeira, se é que alguém concorda com isso.

Foram adicionados ao gabinete, uma corregedoria geral e uma assessoria econômica. Hein? Assessoria econômica, isso mesmo. Consta que o ministro tem à disposição mais de cem pessoas na estrutura de seu gabinete. Ou alguns pelotões para enfrentar a guerra cambial.

Obviamente, Guido não parou por aí. Qualquer um que se preze gasta uns tostões a mais, afinal para que serve ser ministro de Estado senão para contratar novas secretárias e técnicos administrativos e viajar em jatinhos da FAB?Algum chato irá sugerir que Mantega poderia evitar políticas inflacionárias. Chatice daquelas.

Do mesmo enfado com a decoração de seu gabinete, nasceu uma vontade de melhorar a imagem do ministério. Uma vontade bem cara, diga-se de passagem. Insatisfeito com a estrutura que vinha lhe servindo até o estouro da inflação e a queda do PIB, Mantega muniu-se de pregão e assinou um contrato de R$ 4 milhões com a Partners Net para assessoria de imprensa. A empresa já amealhou R$ 1,6 milhão de janeiro a junho deste ano. Justificativa? Com os salários públicos não se consegue atrair profissionais qualificados. Será que o raciocínio vale para ministros de Estado?

O melhor dessa história toda é que o ministro Guido Mantega engrossou a entourage disposta a pressionar jornalistas. Aqueles mensageiros da notícia, afinal o arauto das más novas no governo Dilma é o IBGE. Nas últimas semanas, a equipe de Mantega divulgou nota negando uso de recursos de Itaipu para manobras fiscais, como publicado pelo ‘Estado’. Esquisito, porque logo depois o próprio ministro descartou a ideia, para tornar as contas públicas mais “transparentes”.

A segunda nota foi ainda mais interessante. A assessoria de R$ 4 milhões de Mantega classificou de “fantasiosa” a revelação do ‘Estado’ de que o governo pensava em endividar bancos públicos para resolver a barafunda que virou o desconto da conta de luz. Foi quase ao mesmo tempo em que o ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, confirmava ser possível fazer a operação.

Em resumo, Mantega tanto fez nestes últimos anos que a política econômica ficou bem parecida com ele. Apesar de algumas qualidades, uma porção de defeitos relevantes. Agora, o ítalo-brasileiro foi além. Conseguiu também uma assessoria que é, sem tirar nem por, a sua cara.

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