Ouro em protecionismo raso
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Ouro em protecionismo raso

Iuri Dantas

17 de fevereiro de 2014 | 20h11

Foto: Ed Ferreira/Estadão.

 

Desde o primeiro dia, havia chance de a crise terminar. Divulgado o crescimento de Estados Unidos, União Europeia, Japão e China percebe-se alguma reação, as grandes economias estão saindo do atoleiro. Resta ao Brasil acompanhar a dança.

Ao que tudo indica, não será muito fácil. Por opção, abrimos mão de um bom caminho. Por omissão, tornou-se mais difícil trilhar uma alternativa. Tragédias previsíveis complicam outras possibilidades. Completa o quadro uma aposta arriscada, daquelas em que terra brasilis sempre aposta, mesmo sabendo da gigantesca probabilidade de dar errado.

Por opção, o País se apequenou na arena global. Desistiu de disputar mercados, de competir contra os melhores. Tão logo Dilma Rousseff vestiu a faixa presidencial, o País eleva tarifas de importação, privilegia quem produz aqui e ignora acordos comerciais que pipocam à nossa volta. Objetivo assegurado: medalha de ouro mundial de protecionismo raso.

A tolerância com a inflação explica a omissão na área comercial. A presidente da República mandou o Banco Central tolerar um bocadinho mais de inflação porque isso seria bom para o País. O resultado está aí. O crescimento sumiu, o gasto com juros da dívida explodiu e os produtos brasileiros tornaram-se ainda mais caros do que já eram. Ao pressionar custos dos exportadores, o governo boicota o País.

Outra omissão importante foi o planejamento do setor elétrico. Diante de usinas sem conexão com o sistema por falta de linhas de transmissão, equipamentos antigos sem a fiscalização adequada da agência reguladora e apostas em grandes obras nacionais, como Belo Monte, em detrimento de parques menores, por exemplo, foi preciso acionar as usinas térmicas. Essas não represam rio algum, precisam de combustíveis fósseis como carvão, diesel e gás. O diesel vem de fora. O gás também. O carvão é produzido aqui mesmo, o governo paga um subsídio a quem faz a pré-brasa em território verde e amarelo. A importação, desnecessário dizer, não para de subir.

Duas tragédias previsíveis encurtam o raio de ação agora. Primeiro, a opção política pelo Mercosul. A crise argentina derruba vendas de produtos industrializados. Lula tinha razão em se vangloriar da maior diversificação dos destinos de nossas exportações. Ao longo de seu governo, o País reduziu a dependência do mercado norte-americano e isso foi vital para enfrentar a crise. Sob Dilma, mal conseguimos negociar pendências com a Argentina. Acrescentemos aí o componente Venezuela, nosso novo parceiro do Mercosul que não segue ainda as regras do bloco e ainda por cima dá aula sobre crise institucional aos vizinhos. Nos últimos três anos, até o México precisou rebolar para fazer comércio com o Brasil.

A aposta arriscada? Ouve-se aqui e ali que depois de encarecer os produtos industriais com custos cada vez maiores por uma inflação teimosamente alta, o governo agora tem uma grande aposta para melhorar as estatísticas de comércio exterior no ano eleitoral. A conversa em Brasília é simples, por isso mesmo perigosa: a Petrobras vai resolver. Como? Aumentando a produção de petróleo e exportando o insumo para trazer dólares. Isso ajudará a reduzir o rombo externo, que voltou a crescer.

Não se trata de cenário alvissareiro. A fórmula do governo abraça Argentina e Venezuela, precisa manter térmicas com diesel importando funcionando a toda por falta de planejamento, enterra a indústria em custos, ignora novos acordos comerciais, coloca todas as fichas na venda de petróleo bruto para o exterior. Aí entra a sabedoria de nossos políticos, a mesma que se usa para o protecionismo. Não é porque deu errado em todos os países que tentaram dessa forma que acontecerá o mesmo com o Brasil. Aguarde e confie.

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