Passo atrás
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Passo atrás

Iuri Dantas

07 de março de 2014 | 16h18

Foto: Dida Sampaio/Estadão.

Entre ressalvas e promessas, o Banco Central do Brasil indicou ontem que os juros podem continuar subindo, depois de atingir os simbólicos 10,75% ao ano, mesmo patamar de quando Dilma Rousseff subiu a rampa do Palácio do Planalto.

Em preto e branco na ata do Copom, o xerife da moeda, Alexandre Tombini, começou a envernizar o caixão da única promessa econômica de campanha de Dilma em 2010. Em sua gestão, o governo criaria condições para a queda dos juros, aquele salgado pedágio cobrado do consumidor por bancos, financeiras, imobiliárias e todo o resto da banca nos empréstimos e financiamentos.

Breve parêntese. Ninguém paga os juros do BC. Servem para remunerar investimentos nos papéis da dívida pública, por exemplo. Além de baixar a inflação. Em tempos de crise internacional, também ajudam a trazer dólares para terra brasilis, fator que está sempre sobre a mesa do Copom. Fecha parêntese.

Para cumprir a promessa de campanha, Dilma tinha dois caminhos. Ou tornava o País mais rico, fazendo o PIB crescer, ou reduzia os gastos do governo. A promessa, lembremos, era baixar a dívida e assim lançar o País nos nunca dantes navegados mares dos juros civilizados. Se tudo der certo, a dívida termina o mandato de Dilma estável. Promessa cumprida? Nos detalhes, o diabo.

O governo jogou ao menos dois gravetos na fogueira inflacionária. Incentivou o consumo e o brasileiro gastou até o que não tinha para aproveitar as promoções. Sem aumento da produtividade e com salários e renda cada vez maiores, os preços subiram. Fechar a economia, neste caso, deixou o IPCA mais próximo ao teto que do centro da meta.

A segunda opção de Dilma: em vez de reforçar a austeridade, a equipe econômica preferiu experimentar a criatividade. As contas públicas deixaram de ser levadas a sério.

Crédulo, Tombini entregou sua parte. Levou a Selic a históricos e insustentáveis 7,25% ao ano em outubro de 2012. Como aos fatos importa bastante o modo, a festa durou apenas seis meses. Em abril do ano passado, os juros voltaram a subir. Chegou fevereiro sem carnaval, mas com reunião do Copom. Os diretores do BC, confiantes que estavam na desaceleração da economia, reduziram a marcha do aperto monetário.

Mas os economistas do Banco Central erraram as contas, como mostrou o IBGE. A economia acelerava, quando o BC via o PIB afundando. Os investimentos que não seriam feitos por “beicinho” de empresários até ajudaram.

O BC tem um arsenal contra a inflação, para controlar o crédito, administrar choques no câmbio. Fazia parte desse estoque um depósito de confiança construído sob governos do PSDB e do PT. Faz falta hoje.

A valer a sugestão do Copom na ata divulgada ontem, o mercado espera os juros em 11% ao ano. Ou mais. Se assim for, Dilma será a primeira presidente a terminar o mandato com a Selic maior do que no início do governo. Um passo atrás, logo onde se prometia um tremendo avanço.

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