Quando mais é menos

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Quando mais é menos

Iuri Dantas

22 de abril de 2014 | 16h09

Ao assumir a presidencia da Republica, a economista Dilma Rousseff não disse com todas as letras, mas prometeu em alto e bom som mudar a condução da economia. Queria baixar os juros que atormentam contribuintes e tanto ajudam especuladores a ganhar seus vinténs. Tolerou tanto um pouquinho mais de inflação, que hoje o dragão sopra o suficiente para que o Banco Central continue apertando a taxa básica. Anos depois, tanto economistas do mercado quanto o próprio BC esperam carestia ao fim de 2014 superior à que Dilma recebeu ao subir a rampa do Palacio do Planalto.

Ainda em seu primeiro ano de governo, a comandante-em-chefe das finanças nacionais afirmou ser preciso recuperar a indústria. Investiu bilhões em setores escolhidos a dedo, privilegiando oligopólios internacionais. Lançou mão do auto-destrutivo protecionismo de sempre. Abandonou os pilares da competição internacional, deixando dormir acordos de livre comércio. Hoje, as exportações caem, as montadoras demitem e o desempenho do Brasil no comércio exterior é o que mais desaponta no planeta.

Desde sempre, Dilma apostou no controle de preços. Optou por segurar a gasolina, eliminando impostos sobre o combustível fóssil, o que traduziu-se em subsídio indireto. Mesmo assim, a petroleira nacional não deu conta de atender o mercado domestico e entre pareceres falhos, plataformas inacabadas e obras interminaveis, a Petrobras transformou-se na empresa não-financeira mais endividada do mundo.

Sob a batuta do leal genovês Guido Mantega, a gestão das contas públicas seria aperfeiçoada para refletir o atual estágio de desenvolvimento civilizatório – daquelas expressões bonitas que assessores adoram repetir a jornalistas, ignorando que a realidade de gastar mais do que recebe sempre cobra um preço altíssimo ali na esquina Hoje, há mais desconfiança e o País conseguiu manter-se como exemplo, embora do que não se deva fazer.

O alto custo da energia, que sempre encareceu e limitou a produção da indústria nacional seria mitigado. Foi prometido que a conta cairia para o consumidor, por meio de uma engenharia financeira sem aviso ou negociação. A empreitada deu com os burros n’água. Mesmo quem acompanha diariamente o assunto tem dificuldade de saber o número de penduricalhos que estarão na tarifa do ano que vem. A falta de chuvas deu frutos em terreno sem planejamento e o brasileiro pagará por sua energia em 2015 mais do que pagava em 2011, antes do “desconto”.

A valerem os registros históricos, Cabral, o marinheiro europeu, pisou nestas paragens há exatos 514 anos pela primeira vez, no que se convencionou chamar de descobrimento de terra brasilis. De lá para cá, muito barulho se fez por quase nada. Depois de idas e vindas, a Nova República data de 1988. O caçador de marajás caiu por suspeita de corrupção. O vice-presidente carnavalesco resolveu a hiperinflação. O sociólogo não deixou marca no social. E o ex-metalúrgico escolheu não atualizar a sexagenária lei trabalhista. Era de se esperar que a primeira economista no comando do País desapontasse nesta área. O mais virou menos.

Mais isolacionismo virou menos comércio. Mais protecionismo virou menos competitividade. Mais criatividade contábil virou uma nota menor de rating soberano. Mais congelamento da gasolina deixou a Petrobrás menor, na Bolsa, e menos saneada financeiramente para explorar o pré-sal. Mais controle de preços de gasolina virou menos usinas para produzir etanol. Quanto maior o atraso para conter o gasto de energia neste ano, menor será a produção e o poder de compra no ano que vem. Mais inflação virou menos crescimento. Talvez esteja na hora de buscar menos.

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