Racionamento de opções
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Racionamento de opções

Iuri Dantas

14 de fevereiro de 2014 | 16h41

 

Foto: Dida Sampaio/Estadão.

Trovejam feito a chuva ausente as reclamações contra a política econômica do País. Relâmpagos em meio à precipitação intensa de maus resultados que não param de sair do forno. Hoje pela manhã, o Banco Central tentou antecipar a má nova que o IBGE soltará no fim do mês. A riqueza brasileira encolheu na segunda metade do ano passado. A julgar pelo índice de atividade do xerife monetário, o Brasil cresceu mais no ano passado, em relação ao Pibinho de 2012. Mas terminou o ano em recessão técnica. Ou muito perto disso.

O desempenho do Produto Interno Bruto foi a maneira encontrada no século passado para dimensionar a economia. Uma forma de ver a quantas andam vendas, produção, investimentos, consumo, crédito, exportações. Uma saraivada de números resumida em um índice. Diz a regra que dois trimestres consecutivos de queda significam tecnicamente uma recessão. Os números do BC são preliminares. O IBGE dará o tamanho do prejuízo em duas semanas.

Noves fora a ironia implícita de voltarmos a tal patamar nas mãos da primeira economista a comandar o País pela força do voto, a mãe de um Programa de Aceleração justamente do Crescimento, há que se perguntar como sair do buraco em que nos metemos. Além de causar calafrios na equipe que monta a reeleição, a dúvida retorce o rabo da porca com requintes de crueldade.

Ambos os alinhados e contrários à equipe econômica concordam que passou da hora de puxar o freio, colocar ordem na casa. A indústria nacional está em frangalhos. A inflação resiste. Os bancos cobram cada vez mais por cada mês menos crédito. As contas públicas não enganam sequer os que sempre concordam com tudo o que sai no Diário Oficial. O setor elétrico abriu o peito para os carimbos de crise energética, financeira, gerencial e regulatória.

Algumas escolhas equivocadas do governo eliminaram a necessária margem de manobra. Vivemos um racionamento de escolhas. Por exemplo: não é possível mais permitir que o dólar suba para ajudar a diminuir o rombo externo, porque isso pressiona a inflação. É hora de buscar um novo rumo, como disse com todas as letras o xerife da moeda, Alexandre Tombini. O aumento do juros, para segurar a cotação e os preços dinamita uma recuperação mais pujante. Da mesma forma, a conta de luz e a gasolina deveriam ser mais caras faz tempo, mas há eleições presidenciais à frente, veja bem.

Há notícias boas, mas já vêm contingenciadas. O mundo está lentamente colocando o pescoço acima d’água. Houvéssemos feito alguns deveres de casa estaríamos mais bem preparados para surfar a onda que começa a ganhar velocidade. Mas não fizemos acordos de livre comércio, fechamos a economia, deixamos os preços internos galoparem, os custos industriais foram para as alturas,  com a carga tributária sempre maior. Aqueles que deveriam comprar nossos produtos de maior valor agregado questionam na OMC algumas medidas bilionárias que elevaram a rentabilidade de algumas poucas industrias e não representaram mais emprego ou mais crescimento.

A história guarda paralelos de anos eleitorais em que o ajuste necessário foi postergado em troca de votos. José Sarney manteve o tabelamento, levou todos os governos estaduais em 1986. Três dias depois de abertas as urnas veio o pandemônio financeiro. Inventaram um Plano Cruzado 2, o ministro da Fazenda saiu do cargo e em janeiro o País deu calote na dívida externa. Fernando Henrique Cardoso levou paridade cambial ao limite em 1998. Janeiro seguinte, mês do desgosto e da maxidesvalorização.

O buraco hoje é menor e mais facilmente navegável que naqueles dias tristes. O risco é pensar que para sair dele basta o anúncio de uma meta fiscal. Seria como lançar ao mar plataformas inacabadas de petróleo para fazer bonito nas estatísticas. Pouco eficiente, para dizer o mínimo.

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