Rendição aos fatos
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Rendição aos fatos

Depois de quatro anos de refrega com o bom senso e os números amargos calculados pelo IBGE, a equipe econômica hasteia a bandeira branca. Pessimista, admite que o segundo mandato da economista-em-chefe terá números piores que o primeiro, marcando quase uma década de Pibinhos.

Iuri Dantas

05 Dezembro 2014 | 16h53

Ueslei Marcelino/Reuters

Ueslei Marcelino/Reuters

 

Foram duas semanas animadas para os que se deliciam com dados econômicos. No derradeiro dia útil de novembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) cravou em 0,1% a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre do ano. Já não tem mais graça, porque ultimamente o ministro se preocupa mais em fazer malas e se despedir dos vizinhos, mas vale lembrar que o genovês Guido Mantega está bem satisfeito. Não faz 20 dias que ele comemorava a retomada do crescimento econômico. Isso sem falar na campanha eleitoral, mas felizmente o brasileiro parece ter sepultado as frases do marqueteiro na gaveta ao lado do Alemanha 7 x 1 Brasil.

 

A estagnação da economia nacional diz muito sobre o que foi feito. Não custa lembrar. Foram mais de 30 pacotes com incentivos setoriais, dezenas de bilhões de reais em impostos que deixaram de ser arrecadados de indústrias que remeteram boa parte disso para fora do País e hoje demitem e cortam a produção. O Pibinho diz, também, sobre o que não foi feito. O eterno adiamento das reformas de sempre, como uma boa atualização da legislação trabalhista, para a hipótese de o mercado de trabalho do País ter mudado alguma coisa desde 1940, por exemplo.

 

Aliás, a memória ganha um descanso merecido a partir de agora. Quer saber quais tarefas necessárias foram postergadas e que equívocos serão desmontados? Joaquim Levy, o ministro-que-decide-mas-ainda-não-tomou-posse , citou quase tudo em seus discursos recentes. Mais detalhes? Uai, tem o Banco Central.

 

Único integrante do Conselho Monetário Nacional (CMN) a ser mantido no segundo mandato de Dilma, Alexandre Tombini é um outro homem. Passou exatos três anos, nove meses e 28 dias tranquilo, prometendo que a inflação chegaria ao centro da meta em 2013, depois 2014, 2015, 2016…

 

No fim de outubro, Dr. Jekyll deu lugar a Mr. Hyde  e o sujeito aumentou a Selic em 0,75 ponto porcentual desde então. Dá a impressão de que agora o importante é trazer o IPCA para a meta o mais breve possível. Ou segurar dólares aqui, depois da saída de US$ 3,5 bilhões em novembro. Investidor internacional adora juros altos .

 

Taí. Uma outra forma de definir essas fortes pancadas nos juros: são típicas “políticas que geram desemprego”, como disse Dilma Rousseff na África do Sul em 2012. Ah, na época ela era contra, porque quando os juros sobem, além do cidadão sofrer um bocado mais para honrar o cheque especial e o cartão de crédito, o País gasta mais com a dívida pública e as empresas precisam cortar um dobrado para não transferir esse custo maior para seus produtos. 

 

Na quinta-feira (04/12) veio à tona a proposta do governo para o Orçamento de 2015. O primeiro do segundo mandato. Aquele que os críticos e detratores vão dizer que está em linha com o mercado, que ignora os potenciais do País. E o primeiro, em quatro anos, a não prever uma expansão do PIB acima dos 4%, 4,5%. Não, não… O genovês sempre foi otimista. Ele colocava um crescimento de 4%, 4,5% no Orçamento para mexer com os brios dos empresários, para fazer acontecer. Em 2011, o País cresceu 2,7%. Em 2012, 1%. No ano passado, 2,3%.

 

Neste ano, se tudo der certo, a República consegue empatar e registrar “crescimento” de 0%. Nos gabinetes de Brasília, ouve-se que a causa foi a crise financeira internacional. Nas mesas da Bovespa, a causa do problema foi o excesso de gastos públicos e a política errática, hiperativa e voltada para projetos de pouco resultado e localizados.

 

Ontem, cúmulo das ironias, Mantega fez palestra no Conselho Federal de Contabilidade. Ainda carece de explicação quem tinha mais a ensinar e quem poderia receber lições no evento.  De um jeito ou de outro, o capitão da Guerra Cambial admitiu que a crise está acabando lá fora. E isso vai ajudar a economia nacional.

 

Bem, claro que uma brisa leve serve mais que um furacão a quem tenta construir uma casa nova. Mas não apenas. Os alicerces precisam ser bem fundamentados, caso contrário qualquer lobo mau manda tudo pelos ares. Em outras palavras, como todos os demais países do planeta, o Brasil teve nos últimos seis anos o desafio de vencer a recessão, ao mesmo tempo em que lidava com a oportunidade de se preparar para o pós-crise, tornar seus produtos mais baratos e competitivos, financiar inovações tecnológicas da indústria do século 21, encontrar nichos de mercado, educar melhor seus trabalhadores, deixar as contas públicas em ordem para o governo não atrapalhar a retomada.

 

Segundo o novo governo, o Brasil crescerá em 2015 invejáveis 0,8%. Em 2016, acelera para 2%. No ano seguinte, fecha com um avanço de 2,3% do PIB. Depois de apertar o cinto, cortar gastos, reduzir o BNDES, aumentar a concorrência com importados e, finalmente, mudar a tributação para todas as pessoas jurídicas, o governo promete entregar metade dos 4,5% que o genovês insistia até outro dia.

 

Sim. O País perdeu, durante a maior crise financeira internacional das últimas décadas, a chance de se tornar algo mais logo ali na frente. De evitar, ao fim da crise, uma pancada nos juros, com inflação alta, retomada de impostos sobre combustíveis e até mesmo com financiamentos de longo prazo do banco público criado para isso. Não, o Brasil se depara com o fim da crise menos competitivo, menos produtivo, com a indústria menor, o dólar nas alturas, investimento em baixa e as reformas de sempre ainda sobre a mesa.

 

O Orçamento de Levy mostra que Mantega não fez o dever de casa