As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sem palavras

A economia brasileira não possui "fragilidades", não enfrentará uma "tempestade perfeita", também está longe da "estagflação" e um "tarifaço" está descartado. No País do Pibinho, a cúpula econômica ainda não traçou um cenário crível sobre o estado da economia. E não para de atacar os conceitos que se aproximam da situação atual.

Iuri Dantas

06 de agosto de 2014 | 11h55

Como a particular jabuticaba, exclusivamente nacional em todos os parâmetros, a contaminação cada dia mais intensa da economia por versões políticas de integrantes do governo, de olho nas eleições de outubro, parecem indicar a necessidade de um léxico próprio para o atual estado da economia. Se bastassem adjetivos, evitáveis em todo os casos, seria mais fácil dizer apenas que a coisa anda ruim.

Ontem o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, uniu-se à prática comum de integrantes da equipe econômica. Servidores públicos que são, poderiam, numa visão altruísta e republicana por exemplo, explicar que o controle total da realidade lhes escapa. Não é o governo que produz manufaturados ou os embarca ao exterior. Não são os burocratas de Brasília que levantam antes do sol para semear os quilômetros de cerrado matogrossense com sementes de soja e milho para atender os chineses. Tampouco são eles quem comercializam eletrodomésticos, escavam minérios, constroem aviões ou prestam serviços de estacionamento, cabelereiro ou exibições de películas no cinema. Estaria, portanto, fora de suas mãos controlar o desempenho completo da economia.

Quem entende do assunto defende tonalidades diferentes para essa visão. Uns dizem que deve, sim, o governo assumir tarefas do setor privado, temos aí a Eletrobrás e o BNDES para ilustrar. Outros querem um chamado Estado mínimo, que de mínimo mesmo tem apenas a pecha: caberia ao governo atender de fato as necessidades coletivas básicas, como oferta de educação, saúde, segurança. Isso seria o máximo.

Em seu discurso na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado ontem, Tombini perfilou-se no primeiro time. E ajudou a embolar o meio de campo ao negar peremptoriamente, com perguntas objetivas, que o País viva um período  de estagflação. Como em todos os casos, um integrante do governo torce a toalha para cair o pingo que melhor adoça seu ponto de vista. Sem esquecer o personalismo: políticos tendem a defender o que fazem, pouco se importando na maioria das vezes em deixar a realidade como coadjuvante, quando esta deveria ser protagonista. Tecnicamente, não há reparos ao diagnóstico da autoridade monetária, chamada assim porque teria o mandato único no País para mandar na taxa básica de juros.

Mas a realidade não é tão técnica como faz crer o discurso do chefe do Copom. No livro texto, um cenário de estagflação depende necessariamente de um repique na taxa de desemprego. Ao receber concomitantemente torpedos de estagnação econômica, com crescimento pífio do PIB, e altos preços de bens e serviços, o País aumentaria as demissões e o número de desocupados. Seria um processo de ajuste: com menor número de empregados e, consequentemente, menos renda salarial por aí, os preços perderiam impulso de alta, as empresas teriam que se reposicionar e a roda do mercado faria o resto.

Certamente, não é nesta situação que o Brasil se encontra atualmente. Não se vê filas de desempregados perambulando de porta em porta na alvorada diária. Mas, como em todas as outras situações, cabe a pergunta mais importante: e daí?

Daí que um check up da economia brasileira mostra que o paciente não corre risco de morte. Mas o colesterol das contas públicas não para de subir, o que aumenta a pressão cardíaca sobre preços e estabilidade da economia. Já tratamos como normal um segundo empréstimo bilionário para distribuidoras de energia impedirem o derretimento total do desconto concedido pela presidente da República há dois anos. Como também não assusta mais o aumento do déficit de nossas contas externas, a incapacidade de ganharmos mercado externos, o desânimo de milhões de trabalhadores que deixaram de procurar emprego, a produtividade menor de nossa força de trabalho, um índice de inflação acima do centro da meta durante quatro anos de mandato.

Não é só. A indústria encolhe mês a mês com o fechamento da economia doméstica e encarecimento dos importados. Os salários voltaram a ser reajustados abaixo da alta inflação passada, prontos para serem mais uma vez corroídos pela inflação futura. As fortalezas de geração de empregos e vendas do comércio varejista andam rateando. Analistas do mercado financeiro, das universidades, do FMI, da Cepal e mesmo ex-conselheiros de Dilma apontam uma bola de neve engordando dois quilômetros acima. Na guerra de slogans, a presidente diz que não haverá tempestade perfeita e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, descarta um “tarifaço”.

Seria esticar demais a visão republicana criticar a visão cor de rosa apresentada por Alexandre Tombini, Dilma e Mantega. A economia terá mais um Pibinho neste ano e a inflação que cairia para 4,5% em 2013, segundo o general monetário, continuará acima disso por um tempo considerável. Não, não se trata mesmo da crise prevista em livros textos. Neste ponto a criatividade nacional não encontra limites. Que ao menos sobre para os fatos, e não para os slogans de campanha, cunhar o substantivo que define em que tipo de barafunda a economia se enfiou.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.