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Um mandato para chamar de seu

Depois da macroeconomia, de onde virão as dores de cabeça de Dilma Rousseff no segundo mandato

Iuri Dantas

30 Dezembro 2014 | 19h24

O longo e tortuoso ano de 2014 despede-se com uma singularidade capaz de unir política e economia como em poucas vezes nos cinco séculos e pouco depois da descoberta de Terra Brasilis por Cabral, o marinheiro. O governo que ainda não começou já range os dentes de enfado. O mandato que ainda não terminou parece esticar-se além da conta. A situação econômica piorou, segundo todos os indicadores disponíveis. Ou quase todos para aqueles que preferem sempre ver o copo meio cheio, mesmo quando o caldo já entornou. O cenário político, no entanto, revela-se ainda mais desafiador. Não há caminhos paralelos: os fracassos econômicos da presidente Dilma Rousseff, construídos por meio de concessões a uns e exclusão de outros atores políticos, volta para rondar o Palácio do Planalto. O primeiro mandato da economista vai demorar a terminar, da mesma forma que o ano de 1986, do Plano Cruzado, só acabou mesmo, na economia, em 1992, com a nova tragédia do confisco da poupança. Ou como o ano de 1954, quando o projétil próprio atravessou o peito de Getúlio Vargas, prolongando o coma do sistema pelos dez anos seguintes.

É dessa forma que o terremoto dos últimos quatro anos continuarão a provocar pequenos tremores ainda por muito tempo. Legado? Talvez, mas daqueles de que é difícil se orgulhar. Mesmo os pequenos avanços sociais correm um risco sério de retrocesso, dada a correção de rumo já anunciada nos últimos dias. A ficha caiu em boa parte da equipe federal. Pomposo e enigmático, o presidente do Banco Central do Brasil ficou tão feliz por descobrir que aumentar os juros combate a inflação que, passada a eleição, resolveu contar para todo mundo. Escreveu relatórios, concedeu entrevistas, falou no Congresso Nacional. Não vai descansar enquanto o IPCA não voltar para o centro da meta. Supõe-se, portanto, que após quatro anos de experimentações e tolerâncias com os preços incomodando o consumidor e prejudicando a competitividade do produto nacional no exterior, será diferente agora.

No Ministério da Fazenda a trilha sonora também parece ser diferente. Até onde vai a liberdade dessa turma que ainda não chegou mas já despacha no Palácio do Planalto é bem difícil de antecipar. Nada contra os bem intencionados Joaquim Levy e Nelson Barbosa. Mas até o momento fizeram apenas discurso. E, todo mundo sabe, de promessas o inferno de 2014 está repleto. São dois repetentes, por assim dizer, porque ainda ontem ocupavam cadeiras ao lado na mesma sala. Sob o benefício da dúvida, espera-se que a política econômica seja, se não melhor, ao menos compreensível nos próximos quatro anos.

Quando vestiu a faixa presidencial pela primeira vez, Dilma Rousseff tinha à sua frente uma economia avançando a anabolizados 7,5%, um pouco pela crise e muito pelos estímulos dados justamente para elegê-la. O impulso do governo, sob a saudável justificativa de combater os efeitos da crise financeira internacional, também levou para cima os preços da economia, estimulando a compra de produtos e, principalmente, serviços por uma parcela maior da população. Essa primeira onda demorou a ser combatida. Tipo, até o ano passado mesmo. Como resultado, o país se tornou ainda menos competitivo no mercado global. Uma crueldade, uma vez que perdeu-se uma grande chance de avançar.

Concentradora e hiperativa, Dilma conduziu seu mandato com a confiança cega de que as medidas que tomara e mesmo as que ainda nem existiam seriam capazes de solucionar todos os males. Faltam estradas? Façamos um programa de concessões de rodovias, ainda que seja difícil acreditar que um empresário sonhe em ter uma margem de lucro ínfima e ainda perder para a inflação se o sonolento Banco Central cochilar um pouquinho. O maior exportador do mundo de algumas commodities agrícolas e minério de ferro não dispõe de portos? Que surja um novo marco regulatório. Está caro manter trabalhadores no emprego? Ora, vamos cortar a contribuição patronal para o INSS, mas só de alguns. E qualquer problema o Tesouro entra com uma grana para ajudar a Previdência. Ou ainda: está difícil conseguir votos mesmo com a máquina federal nas mãos? Que venham os créditos e anúncios de véspera. Por muito tempo Dilma se ocupou em elaborar, lançar e depois negociar no Congresso Nacional a aprovação de pacotes de estímulo à economia, como se não houvesse fim à crise que assolava o litoral brasileiro.

Isso tudo sem falar no corte da conta de luz, uma ideia boa, executada de forma bem peculiar e que onerou ainda mais os cofres públicos, tadinhos. Por não terem tanta força quanto a imaginação da economista-em-chefe, ainda hoje sofrem calados a vergonha de descumprir metas fiscais, de ver a gastança se transformar em aumento da dívida pública, por testemunhar funcionários tão zelosos recebendo apelidos jocosos por aí. Consta que verteram uma lágrima, mas teve um bom motivo: Luiz Inácio Lula da Silva puxava a orelha do secretário do Tesouro. Só ali e não mais. Por quatro anos, Dilma montou uma nova estrutura econômica, bastante diferente daquela erigida no primeiro mandato de seu antecessor -e que Dilma tanto combateu quando era ministra de Minas e Energia.

Tudo isso foi ontem. E passará a ser tratado como um passado longínquo, tão distante quanto o encilhamento, a partir de 1º de janeiro. Porque os ajustes na economia, apesar de duríssimos, injustos e requentados porque o País já passou por isso e deveria ter aprendido, serão feitos. Aumento de impostos. Corte de despesas. Redução da mamadeira anual que o Tesouro dava ao BNDES. Menor participação dos cofres públicos no desconto-que-virou-aumento-da-conta-de-luz. Gasolina mais cara. E por aí vai. Na política, o buraco é mais embaixo.

Os arranjos políticos para a aprovação das dezenas de pacotes econômicos representam parte importante da herança que Dilma 1 deixará para Dilma 2. Mesmo o cavalo de pau necessário agora, para desfazer ou refazer muito do que a presidente julgava e determinava como imprescindível para o futuro do País, mas que acabou fazendo água, vai pesar bastante. Se a macroeconomia e a crise financeira internacional deram o tom do primeiro mandato, será a política protagonista do segundo. Prelúdio? O tamanho que ocuparão PT e PMDB no ministério será equivalente à promessa de seus caciques de poupar Dilma de algumas dores de cabeça. Promessas que não serão cumpridas, a república federativa chama Brasil afinal de contas.

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Nota à parte: Agradeço à companhia de todos aqui no Estadão.com, bem como a paciência e tolerância dos editores com as linhas mal escritas. A partir de janeiro, os textos migram para Calvície dos Dedos, uma coletânea de pitacos no Facebook sobre assuntos mais diversos, como literatura, música, ciência e tantos outros. Apareça.