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A queda nas commodities e o efeito sobre os grandes bancos centrais

Desaceleração dos emergentes e mergulho no preço das matérias-primas pode ser o próximo tema dos mercados

danielamilanese

29 de setembro de 2014 | 20h22

Já começa a se desenhar lá fora a chegada de um novo tema nos mercados financeiros globais: os efeitos da queda no preço das commodities sobre a política monetária dos grandes bancos centrais. Embora a questão preponderante no momento seja a expectativa sobre o processo de normalização do Federal Reserve, alguns analistas acreditam que a pressão de baixa na inflação a ser provocada pelo recuo das matérias-primas tomará a cena.

No centro desse debate está o quadro de desaceleração das economias emergentes, especialmente da China, que provoca excesso de oferta e derruba as cotações dos metais e do petróleo. O minério de ferro caiu, na semana passada, abaixo de US$ 80,00 por tonelada no mercado à vista, pela primeira vez em cinco anos, e acumula perda superior a 40% desde o início de 2014. Os contratos de petróleo operam abaixo de US$ 95,00. O aumento da oferta e perspectiva de safras fortes ao redor do mundo derrubam as commodities agrícolas. No acumulado do ano, os contratos de soja (-20%), milho (-27%) e trigo (-25%) registram desvalorizações consideráveis.

“O foco do mercado de câmbio mudou rapidamente da política de normalização do Fed para a perspectiva de crescimento mundial mais lento e suas consequências para o mercado de commodities”, acredita Chris Turner, estrategista-chefe de câmbio do ING.

O cenário reforça a percepção de que o Banco Central Europeu terá de ampliar ainda mais seus esforços para impedir a deflação na zona do euro. Isso significa adotar um programa mais parrudo de afrouxamento quantitativo.

Analistas estrangeiros passaram a acompanhar de perto o comportamento das expectativas do mercado para a inflação na zona do euro num período entre cinco e dez anos a partir de agora, desde que a medida foi mencionada pelo presidente do BCE, Mario Draghi, em seu relevante discurso no simpósio de Jackson Hole, realizado em agosto, nos Estados Unidos. Essa perspectiva, apontada pelos contratos de swap 5y5y, caiu para a mínima histórica de 1,9% recentemente.
Há quem veja um esforço do BCE para desvalorizar o euro e impedir maior impacto desinflacionário no bloco, diante da retração das commodities. Isso aumenta as especulações sobre a possibilidade de um QE turbinado.

“Suspeitamos que a questão da desaceleração da demanda no mundo emergente e um concomitante mergulho nos preços das commodities pode se mostrar um tema importante e potencialmente duradouro daqui para frente”, acreditam os especialistas do Rabobank, em relatório enviado a clientes.

É mais fácil perceber essa preocupação no BCE, já que a economia da zona do euro ainda está fraca e a inflação caiu para apenas 0,3% em agosto, bem abaixo da meta de 2%.

Mas, será que o Fed poderia também ser influenciado pela perspectiva de preços mais baixos? A resposta não é óbvia porque o BC dos EUA está encerrando seu terceiro programa de compra de ativos (QE3) no próximo mês. Investidores acreditam que os juros passarão a subir em meados do ano que vem e de forma mais rápida.

Essa visão amplia a tendência de valorização do dólar, o que acaba sendo mais um fator a jogar a inflação para baixo – o índice de preços ao consumidor caiu 0,2% em agosto nos EUA, na comparação com julho.

Nos últimos dias, dirigentes do Fed passaram a comentar sobre o câmbio, o que chamou a atenção. O primeiro a levantar o tema foi o presidente do Fed de Nova York, William Dudley, na segunda-feira passada. “Se o dólar se valorizar muito, haverá consequências para o crescimento”, disse, alertando que, nesse cenário, seria mais difícil estimular o emprego e levar a inflação para a meta de 2%.

“Nossa percepção é que os presidentes regionais ‘dovish’ do Fed vão usar a redução das pressões inflacionárias como argumento para destacar os riscos a partir de agora”, avalia Derek Halpenny, chefe de câmbio para a Europa do Bank of Tokyo-Mitsubishi.

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