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Aperto da Alemanha reflete movimento político contra especulação

19 de maio de 2010 | 16h04

A postura mais agressiva da Alemanha faz parte do movimento político contra a especulação nos mercados, criado a partir da crise financeira nos Estados Unidos e reforçado com os ataques à Grécia. Estão em curso diversas iniciativas para limitar a atuação arriscada dos investidores, na tentativa de restringir turbulências.
 
As operações a descoberto, proibidas pela Alemanha para alguns ativos, permitem aos investidores vender e apostar contra papéis que não possuem, potencialmente ampliando o estresse dos mercados. Essas transações chegaram a ser criticadas por acelerar o colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008, e a explosão do custo de financiamento da Grécia recentemente.
 
Num primeiro momento, a proibição da venda a descoberto passou a impressão de que a Alemanha buscava se proteger de uma crise ainda mais grave do que parece. No entanto, em meio ao ruído criado pela falta de coordenação com o restante da zona do euro, se solidifica a percepção de que a chanceler Angela Merkel age por motivações políticas.
 
Além de existir hoje amplo espaço político para apertar o cerco em torno da especulação, ela enfrenta ainda a opinião pública alemã, francamente contra a ajuda para outros países com problemas no bloco. “A decisão parece um sinal de que há o potencial de notícias ruins para os bancos pela frente, mas é um novo capítulo na batalha entre os governos e os mercados”, avalia o BNP Paribas.
 
Para os analistas Thorsten Polleit e Julian Callow, do Barclays Capital, a iniciativa tem o objetivo de acalmar a opinião pública alemã, especialmente porque o fundo de estabilização anunciado pela União Europeia passa pelo Parlamento do país nesta semana.
 
“A principal lição das últimas 24 horas é que realmente não devemos subestimar a profundidade e o impacto da reação popular na Alemanha”, disse Marco Annunziata, economista-chefe do Unicredit.
 
A imposição de limites para as transações de venda a descoberto foi um dos principais temas da reunião do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), realizada no mesmo final de semana tenso que culminou com o anúncio do pacote de 750 bilhões de euros da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a região, em 9 de maio.
 
A decisão também vem junto com a imposição de regras para os fundos de hedge e de private equity, aprovadas ontem pelos ministros de Finanças europeus.
 
Para Ivo Pezzuto, professor do Swiss Management Center, os problemas econômicos dos últimos anos foram causados pela falta de controle sobre o sistema financeiro e o uso agressivo de derivativos altamente especulativos. “O tratamento para sair dessa desordem deve ser, o máximo possível, uma convergência global e harmonizada das regras”, afirmou à Agência Estado.
 
O cerco à especulação não está restrito ao velho continente. Os Estados Unidos também caminham para uma regulação mais pesada sobre os bancos, de forma a limitar a tomada de risco por instituições financeiras. As novas normas para o setor financeiro devem ser um dos focos da próxima reunião de cúpula do G-20, agendada para o final de junho, em Toronto, no Canadá. O grupo debate, inclusive, a imposição de impostos sobre os bancos.
 
O primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, já chegou a pedir ao G-20 para agir contra o mercado de swaps de default de crédito (CDS, na sigla em inglês). A explosão da crise de dívida grega ampliou as críticas ao instrumento, hoje sem regulação e negociado majoritariamente no mercado de balcão.
 
O problema é que o mecanismo permite a compra de proteção contra calotes por investidores que não possuem exposição aos ativos envolvidos – exatamente a operação proibida pela Alemanha. Costuma-se usar a analogia de possuir o seguro de uma casa de uma terceira pessoa: se algo der errado, ganha-se com a proteção, mesmo sem ter perdido nada com o problema.

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