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Apesar da surpresa, exterior reage com frieza à estratégia do Fed

19 de fevereiro de 2010 | 09h42

O Federal Reserve chocou os analistas internacionais ao começar a desmontar o esquema de socorro emergencial criado para sustentar o sistema financeiro durante a crise. Apesar do baque trazido pela alta da taxa de redesconto, anunciada ontem à noite, os mercados globais reagem de forma surpreendente: embora a Bolsa de Tóquio tenha recuado 2%, as praças europeias se seguram perto da estabilidade. O euro e as commodities recuam e sentem o impacto da
novidade.
 
É verdade que a mudança já havia sido sinalizada em duas ocasiões: no discurso preparado por Ben Bernanke no Comitê Financeiro da Câmara na semana passada e na ata do encontro do Fed, divulgada na quarta-feira. Mas ninguém esperava um
movimento tão rápido, ainda mais de forma extraordinária, fora das reuniões regulares do Fomc.
 
O nervo de aço exibido pelos mercados hoje pode estar ligado à interpretação majoritária dos analistas sobre a medida. Os especialistas acreditam que a autoridade realmente busca a normalização das condições do sistema, passada a pior fase da crise, e não necessariamente um aperto neste momento.
 
A taxa de redesconto, cobrada nos empréstimos de emergência concedidos aos bancos, esteve historicamente um ponto porcentual acima da taxa dos Fed Funds, principal alvo da política monetária. Durante a turbulência, essa diferença foi
esmagada, já que os recursos do Fed se tornaram cruciais para a liquidez de segmentos do mercado. Ontem, o redesconto subiu de 0,5% para 0,75%, enquanto os Fed Funds seguem entre zero e 0,25%.
 
“O movimento do Fed não é um sinal de mudança iminente da política monetária”, diz Paul Donovan, economista do UBS, refletindo a opinião que prevalece entre os especialistas. O ING, por exemplo, reiterou sua projeção de que os juros só irão
subir nos EUA no terceiro trimestre.
 
No entanto, é impossível deixar de notar que o tom agora deve continuar mudando. Para Donovan, trata-se de uma alteração de uma estratégia de emergência para uma política acomodatícia. “Apesar do esforço do Fed para comunicar que isso não muda a retórica de que os juros seguirão baixos por um longo período, o risco é que os mercados agora comecem a precificar uma elevação das taxas mais cedo”, avalia Jim Reid, estrategista do Deutsche Bank.
 
A surpresa também levanta discussões sobre os motivos que fizeram o Fed agir nessa velocidade e fora das reuniões tradicionais. A principal evidência são os últimos dados da economia norte-americana, apontando para recuperação mais
rápida. Ontem mesmo, a inflação ao produtor surpreendeu com alta de 1,4% em janeiro, acima da previsão de 0,9%. Hoje, sai o índice de preços ao consumidor, às 11h30 (de Brasília).
 
As novidades nos EUA reforçam ainda mais o contraste com a retomada frágil na Europa. Se o Fed corre para normalizar suas taxas, o Banco Central Europeu não precisa ter a mesma pressa. Além dos problemas fiscais na região, que tendem a
adiar um possível aperto, a lentidão da atividade traz preocupações. Os investidores também acompanham os esforços da Grécia para colocar as finanças públicas em ordem. O próximo passo pode ser a emissão de 5 bilhões de euros em bônus de dez anos, conforme a Dow Jones.

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