As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

BCE dá a partida na máquina de imprimir dinheiro

danielamilanese

08 de setembro de 2014 | 19h16

O Banco Central Europeu aprofunda seu mergulho na política emergencial de combate à crise. O anúncio da nova injeção de recursos na economia por meio da compra de ativos elimina as dúvidas sobre a disposição de Mario Draghi de embarcar na estratégia menos convencional: a impressão de dinheiro novo para estimular a atividade da região.

O aviso já tinha sido dado na reunião de junho, quando o BCE efetivamente deu o passo para dentro do chamado afrouxamento quantitativo, conhecido pela sigla em inglês QE. Na ocasião, a autoridade monetária informou que deixaria de esterilizar as compras dos títulos soberanos realizadas no mercado secundário a partir de maio de 2010, no auge da crise do euro, liberando assim liquidez ao mercado. Na prática, isso já significava que o BC europeu estava criando dinheiro.

Semana passada, além de cortar mais uma vez as taxas de juros, Mario Draghi anunciou que irá mesmo criar um programa para adquirir títulos lastreados em ativos (ABS, na sigla em inglês) e bônus cobertos, avançando agora com mais firmeza num caminho que foi longamente trilhado pelo Federal Reserve. A diferença é que, por enquanto, ficaram de fora do pacote os títulos soberanos da zona do euro.

“Em mais uma tentativa de reativar a recuperação da zona do euro e lutar contra a inflação baixa, o BCE esvaziou sua caixa de ferramentas quase completamente”, avalia Carsten Brzeski, analista do ING, em relatório enviado a clientes.

O próprio Draghi sinalizou que os juros chegaram mesmo ao piso na região após o corte 0,10 ponto porcentual anunciado na quinta-feira passada para as três principais taxas na região. A taxa básica caiu para a nova mínima histórica de 0,05%, a de empréstimo marginal foi reduzida a 0,30% e a de depósitos aprofundou no terreno negativo, agora em -0,20%.

Analistas notam que as reduções vieram pouco antes da nova rodada de operações de financiamento de longo prazo a juros baixos, marcada para 18 de setembro. Esse instrumento que será retomado agora foi criado em 2012, com o objetivo de oferecer recursos baratos aos bancos, de forma a irrigar a economia.

Entretanto, pode-se dizer que sua principal consequência foi a enxurrada de recursos para os países emergentes, o que deu fôlego à guerra cambial na época. Foi exatamente essa medida do BCE que levou a presidente Dilma Rousseff a cunhar a expressão “tsunami monetário”.

Analistas apontam a expectativa de que todas as novas medidas do BCE, em conjunto, possam somar 1 trilhão de euros. A conclusão vem da indicação de que o BCE gostaria de ver seu balanço se expandir de volta ao patamar do início de 2012, quando estava em 3 trilhões de euros. Hoje, está em 2 trilhões de euros. Os detalhes, entretanto, só serão anunciados em outubro.

Se nada disso for suficiente para livrar a zona do euro da temida deflação e reativar a atividade econômica, só restará a versão completa do programa de QE, com a inclusão também da compra de títulos soberanos da zona do euro.

Apesar da polêmica envolvendo o tema na região, o histórico da grande crise não permite que nada seja descartado. Principalmente, se o bloco for abalado por um novo choque, como o agravamento dos problemas geopolíticos criados pela tensão entre a Ucrânia e a Rússia.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: