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Ceticismo com teste de estresse impede guinada no exterior

26 de julho de 2010 | 09h19

Aquela expectativa de que os testes de estresse seriam o ponto de virada dos mercados internacionais não se confirmou. A prova foi realmente considerada fácil demais e insuficiente para limpar as desconfianças sobre o setor.

O ceticismo domina a avaliação dos analistas sobre os resultados apresentados na sexta-feira. É unânime a opinião de que é muito pequena a necessidade de capital de 3,5 bilhões de euros apontada para os sete bancos reprovados – cinco espanhóis, além do alemão Hypo Real State e o grego ATEBank.

Os investidores queriam mesmo ver uma faxina no setor bancário europeu, capaz de limpar as dúvidas e restabelecer a confiança, como aconteceu no ano passado nos Estados Unidos. Mas, em meio aos questionamentos sobre a metodologia, a cautela domina os mercados neste início de semana e os ativos de risco andam de lado.

Numa análise mais técnica, a principal reclamação sobre os testes de estresse recai sobre o fato de que não foi reconhecida a possibilidade de default sobre os papéis mantidos nas carteiras das instituições até o vencimento (banking books), somente para aqueles negociáveis pelos bancos (trading books), que representam a menor fatia.

Conforme levantamento do Deutsche Bank, os bancos da Grécia e do Chipre, por exemplo, tinham ao final do primeiro trimestre 40 bilhões de euros em títulos do governo grego, sendo que somente 2,5 bilhões de euros desse total estavam na carteira de negociação. Cálculo do ING indica que 75% da dívida soberana é mantida pelas instituições até o vencimento.

Por um lado, avalia Chris Turner, estrategista do ING, isso pode ser uma mensagem implícita de que as autoridades europeias não deixarão nenhum país entrar em default. “Os mercados devem tratar os resultados com otimismo cauteloso”, avalia.

“A questão sobre os bancos europeus vai continuar mesmo que demore algum tempo para a incerteza se manifestar de novo”, escreve aos clientes o estrategista do Deutsche Bank, Jim Reid. Para ele, o resultado não muda a percepção de que o Banco Central Europeu (BCE) terá de continuar provendo recursos por vários trimestres.

Diversos analistas na Europa têm a interpretação de que os testes não serão o grande catalisador dos mercados como se esperava. Como disse Wilber Colmerauer, sócio da consultoria Brazil Funding, o resultado não pode ser considerado uma prova definitiva de saúde financeira. “Não me sinto mais seguro agora”, afirmou à Agência Estado.

O Financial Times traz polêmica adicional ao revelar que seis dos 14 bancos alemães testados se recusaram a divulgar a carteira de títulos soberanos. Entre eles está o Deutsche Bank, além do reprovado Hypo Real State. Todas as outras instituições testadas, com exceção do ATEBank, que também falhou, aceitaram abrir a exposição à dívida dos governos.

Em entrevista ao jornal britânico, o secretário-geral do Comitê de Supervisores Bancários Europeus (CEBS, na sigla em inglês), Arnoud Vossen, afirmou: “Nós concordamos com todas as autoridades de supervisão e com as instituições no exercício de que deveria haver uma divulgação banco a banco dos riscos soberanos”.

Para os próximos dias, o foco retorna aos dados econômicos (com destaque para o PIB dos EUA na sexta-feira) e aos balanços, inclusive no Brasil, onde esquenta a temporada de resultados. O lado corporativo vem respondendo bem e hoje se apresenta como principal fonte de notícias positivas.

Na avaliação de Colmerauer, se os números das empresas continuarem favoráveis, o sentimento do mercado pode ter bom alívio no médio prazo. “A questão do momento é ver se o micro vai ajudar o macro ou se o macro vai atrapalhar o micro.”

Às 9h16 (de Brasília), as bolsas de Londres (-0,11%), Paris (-0,37%) e Frankfurt (-0,43%) oscilavam ao redor da estabilidade.

O euro subia a US$ 1,2925, após recuar mais cedo.  O dólar valia 86,86 ienes, de 87,45 ienes no final da semana passada.

No mesmo horário (acima), o petróleo era negociado a US$ 78,13, em queda de 1,18%, no pregão eletrônico da Nymex.

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